É o que pretende o projeto de Ramón Cayumil: “fazer uso da oralidade em forma bilingue Mapuzugun e Castelhano” para retirar o relato ancestral (epew) do leito hospitalar, onde às vezes agoniza, especialmente quando a escrita guarda os ossos do som no livro, como letra morta em um caixão. Essa “escrita funerária” sepulta no túmulo narrativas que ficam lá inertes e prostradas como um doente no hospital. Trata-se de injetar sangue novo para fazê-las voltar a circular no universo da oralidade.
Os saberes adquiridos através das narrativas orais podem ser apreciados no conto El Zorro Txutxukero ou o Raposo (Gürrü na língua Mapuzugun) que toca txutxuka – instrumento de sopro feito de bambu com o som parecido ao da trombeta. A versão em português traz aqui pequenas adaptações para torná-lo acessível ao leitor brasileiro. Ele é narrado assim.
Após a longa revoada, os pássaros sagrados pousaram na Terra de Cima, descansaram da viagem e se alimentaram antes de iniciar a cerimônia. Daí, então, o Raposão começou a tocar música, o que deu origem a uma dança ritual com uma coreografia ritmada, ao som da txutxuka. No entanto, no intervalo, ele ignorou os conselhos, não cumpriu as promessas de bom comportamento, se afastou do grupo e desapareceu seguindo os passos da criatura mais linda da festa.
As bandurrias poderão jamais encontrar o cadáver ressuscitado do Raposo, mas a proposta artística e cultural de Ramón certamente encontrará ouvidos e olhos atentos nos estabelecimentos educacionais e em outros espaços socioculturais para abrir uma discussão sobre a impunidade do meliante desonesto. Há muito interesse, dentro e fora do Chile, pela cosmovisão mapuche, que integra essa relação de interculturalidade.
Esto es lo que pretende el proyecto de Ramón Cayumil: “utilizar la oralidad en una forma bilingüe de mapuzugun y español” para retirar los relatos ancestrales (epew) de la cama del hospital, donde a veces agonizan, especialmente cuando la escritura conserva los huesos del sonido en el libro, como letras muertas en un ataúd. Esta “escritura funeraria” entierra en la tumba narrativas que permanecen inertes y postradas como un paciente en un hospital. Se trata de inyectar sangre nueva para que vuelvan a circular en el universo de la oralidad.
El conocimiento adquirido a través de las narrativas orales se puede apreciar en el cuento El Zorro txutxukero o el Zorro (Gürrü en mapuzugun) que toca la txutxuka, un instrumento de viento hecho de bambú con un sonido similar al de una trompeta. La versión portuguesa incluye pequeñas adaptaciones para hacerla accesible al lector brasileño. Se narra así.
Dos bandurrias chilenas, conocidas en Brasil como curicaca, pasaban por allí. Reconocieron el cadáver del Zorro Grande y lloraron su muerte. Les gustaba la música que tocaba y sentían cariño por él. Ambas conocían las propiedades medicinales de las hierbas del bosque y eran respetadas por su capacidad para curar a los enfermos. Decidieron resucitarlo. Usaron plantas con efectos terapéuticos, acompañadas de muchos cantos y oraciones.
Referencias: