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Cuba

Postado em 15/07/2021 10:12

Os EUA tentam aproveitar-se do preço que os cubanos estão a pagar pelo bloqueio e pela pandemia

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Por Manolo de los Santos [*] e Vijay Prashad [**]

Tal como todos os outros países do planeta, Cuba está a lutar com o impacto do COVID-19. Esta pequena ilha de 11 milhões de pessoa criou cinco vacinas candidatas e enviou seus trabalhadores médicos, através da Brigada Médica Internacional Henry Reeve, para cuidar de pessoas por todo o mundo. Enquanto isso, os EUA endurecem um bloqueio cruel e ilegal da ilha, um sítio medieval que tem vigorado durante seis décadas. Em Abril/2020, sete relatores especiais das Nações Unidas escreveram uma carta aberta ao governo dos EUA acerca do bloqueio. “Na emergência pandémica”, escreveram, “a falta de vontade do governo estado-unidense para suspender sanções pode levar a um mais alto risco de sofrimento em Cuba e outros países atingidos pelas suas sanções”. Estes relatores especiais notaram os “riscos para o direito à vida, saúde e outros direitos críticos das secções mais vulneráveis da população cubana”. Independent Media Institute

No dia 12/Julho/2021 o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, disse numa conferência de imprensa que Cuba enfrentava grave escassez de alimentos e medicamentos. “Qual é a origem de todas estas questões?”, perguntou. A resposta, ele disse, “é o bloqueio”. Se o bloqueio imposto pelos EUA terminasse, muitos dos grandes desafios enfrentados por Cuba seriam levantados. Naturalmente, há outros desafios, tais como o colapso do sector do turismo devido à pandemia. Ambos os problemas – a pandemia e o bloqueio – agravaram os desafios para o povo cubano. A pandemia é um problema agora enfrentado por povos de todo o mundo; o bloqueio imposto pelos EUA é um problema unicamente de Cuba (bem como de cerca de 30 outros países atingidos por sanções unilaterais estado-unidenses).

 

Protestos

Em 11/Julho, pessoas em várias partes de Cuba – tais como San Antonio de los Baños – tomaram as ruas para protestar pela crise social. Frustração acerca da falta de mercadorias em lojas e um aumento de infecções do COVID-19 pareciam motivar os protestos. O presidente Díaz-Canel disse que a maior parte destas pessoas estão “insatisfeitas”, mas que a sua insatisfação é alimentada por “confusão, equívocos, falta de informação e o desejo de exprimir uma situação particular”.

Na manhã de 12/Julho, o presidente Joe Biden apressadamente publicou uma declaração com fedor de hipocrisia. “Nós apoiamos o povo cubano”, disse Biden, “e seu toque de clarim pela liberdade”. Se o governo dos EUA realmente se importasse com o povo cubano, então a administração Biden deveria no mínimo retirar as 243 medidas coercivas unilaterais implementadas pela presidência de Donald Trump antes de abandonar o cargo em Janeiro/2021. Biden – ao contrário das suas próprias promessas de campanha – não começou o processo para reverter a designação de Trump de Cuba como um “estado patrocinador do terrorismo”. Em 9/Março/2021 a porta-voz de Biden, Jen Psaki, disse: “Uma mudança de política quanto a Cuba não está actualmente entre as prioridades de topo do presidente Biden”. Mais exactamente, a política de “máxima pressão” de Trump destinada a derrubar o governo cubano permanece intacta.

Os EUA têm uma história de seis décadas de tentativas de derrube do governo cubano, incluindo a utilização de assassínios e invasões como sua política. Em anos recentes, o governo estado-unidense aumentou seu apoio financeiro a pessoas dentro de Cuba e à comunidade cubana emigrada em Miami, Florida. Uma parte deste dinheiro vem directamente da National Endowment for Democracy e da USAID . O seu mandato é acelerar qualquer insatisfação dentro de Cuba num desafio político à Revolução Cubana.

Em 23/Junho, o ministro cubano dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez, disse que “as medidas de Trump permanecem inteiramente em vigor”. Elas modelam a “conduta da actual administração dos EUA precisamente durante os meses nos quais Cuba tem experimentado as mais altas taxas de infecção, a mais alta mortalidade e o mais alto custo económico associado à pandemia do COVID-19”.

Custo da pandemia

Em 12/Julho, Alejandro Gil Fernández, ministro cubano da Economia e Planificação, falou à imprensa acerca das despesas com a pandemia. Em 2020, disse ele, o governo gastou US$102 milhões com reagentes, equipamento médico, equipamento de protecção e outros materiais. No primeiro semestre de 2021, o governo gastou US$82 milhões com esta espécie de materiais. Isto é moeda que Cuba não esperava gastar – moeda que ela não tem em consequência do colapso do sector do turismo.

“Temos poupado recursos para enfrentar o COVID-19”, disse Fernández. Os pacientes com COVID-19 são colocados em hospitais, onde o seu tratamento custa ao país US$180 por dia; se precisarem de cuidados intensivos, o custo diário é de US$550. “A ninguém em cobrado um centavo pelo tratamento”, relatou Fernández.

O governo socialista em Cuba carrega nos ombros a responsabilidade dos cuidados médicos e da segurança social. Apesar dos graves desafios para a economia, o governo garante salários, compra medicamentos e distribui alimentos bem como electricidade e água canalizada. Esta é a razão porque o governo acrescentou US$2,4 mil milhões à sua já considerável dívida pendente. Em Junho, o vice-primeiro-ministro Ricardo Cabrisas Ruíz encontrou-se com o ministro francês da Economia e Finanças, Le Maire, para discutir as consequências económicas da pandemia do COVID-19. A França, que administra a dívida de Cuba para com credores públicos no Clube de Paris, dirige o esforço para atenuar os pedidos de Havana quanto ao serviço da dívida.

Custos do bloqueio

Em 23/Junho, 184 países na Assembleia-Geral da ONU votaram pelo fim do bloqueio estado-unidense imposta a Cuba. Durante a discussão acerca do voto , o ministro Rodríguez dos Negócios Estrangeiros relatou que entre Abril/2019 e Dezembro/2020 o governo perdeu US$9,1 mil milhões devido ao bloqueio (US$436 milhões por mês). “A preços correntes”, disse ele, “os danos acumulados em seis décadas montam a mais de U$147,8 mil milhões e, contra o preço do ouro, monta a mais de US$1,3 milhão de milhões”.

Se o bloqueio fosse levantado, Cuba seria capaz de ultrapassar seus grandes desafios financeiros e utilizar os recursos para afastar-se da sua dependência do turismo. “Estamos com o povo cubano”, disse Biden; em Havana, a frase é ouvida de modo diferente pois soa como Biden a dizer “Estamos sobre o povo cubano”.

O primeiro-ministro de Cuba, Manuel Marrero Cruz, disse que aqueles que foram às ruas em 11/Julho “clamaram por intervenção estrangeira e disseram que a Revolução [Cubana] estava em queda. Eles nunca desfrutarão de tal esperança”, disse ele. Em resposta àqueles protestos anti-governamentais, as ruas de Cuba encheram-se com dezenas de milhares de pessoas com bandeiras cubanas e bandeiras do Movimento 26 de Julho, da Revolução Cubana. “O povo respondeu e defendeu a revolução”, afirmou Cruz.

[*] Manolo de los Santos: Investigador e activista político. Em 2018 fundou e dirige o People’s Forum em Nova York. Colabora com o Tricontinental: Institute for Social Research e com o Globetrotter/Peoples Dispatch.

[**] Vijay Prashad: historiador, editor e jornalista, indiano. É o editor-chefe de LeftWord Books e editor do Tricontinental: Institute for Social Research . Colabora no Chongyang Institute for Financial Studies , da Renmin University of China. Escreveu mais de 20 livros .

O original encontra-se em www.pressenza.com/…

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

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