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Postado em 17/09/2021 8:12

O vocabulário da diplomacia neoliberal na Nova Guerra Fria de hoje

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Michael Hudson [*]

O Sr. Soros fez uma birra pública por não poder ganhar com a China o tipo de dinheiro fácil que conseguiu quando a União Soviética foi destruída e privatizada. A 7 de Setembro de 2021, no seu segundo grande artigo em uma semana, George Soros expressou o seu horror perante a recomendação da BlackRock, a maior gestora de activos do mundo, de que os gestores financeiros deveriam triplicar o seu investimento na China. Alegando que tal investimento colocaria em perigo a segurança nacional dos EUA ao ajudar a China, o Sr. Soros reforçou a sua defesa das sanções financeiras e comerciais dos EUA.

A política da China de moldar mercados para promover a prosperidade global, ao invés de deixar o excedente económico concentrar-se nas mãos de investidores corporativos e estrangeiros, é uma ameaça existencial para as prioridades neoliberais da América, afirma ele. O programa “Prosperidade Comum” do Presidente Xi “procura reduzir a desigualdade através da distribuição da riqueza dos ricos à população em geral. Isso não augura nada de bom para investidores estrangeiros”. [1] Para os neoliberais, isso é heresia”.

Criticando o “cancelamento abrupto de uma nova emissão da China pelo grupo Ant do Alibaba em Novembro de 2020”, e o “banimento das empresas de tutoria da China financiadas pelos EUA “, o Sr. Soros destaca o co-fundador de Blackstone, Stephen Schwarzman (Note-se que a Blackstone sob o comando de Schwartzman não deve ser confundido com a BlackRock sob o comando de Larry Fink) e o antigo presidente da Goldman Sachs, John L. Thornton, por procurarem obter retornos financeiros para os seus investidores, em vez de tratar a China como um estado inimigo e um adversário da Guerra Fria que se aproxima:

A iniciativa da BlackRock põe em perigo os interesses de segurança nacional dos EUA e de outras democracias porque o dinheiro investido na China ajudará a reforçar o regime do Presidente Xi … O Congresso deveria aprovar legislação que desse poderes à Securities and Exchange Comission para limitar o fluxo de fundos para a China. O esforço deve ter apoio bipartidário.

New York Times publicou um artigo importante definindo a “Doutrina Biden” como vendo “a China como o competidor existencial da América; a Rússia como um disruptor; o Irão e a Coreia do Norte como proliferadores nucleares, ameaças cibernéticas em evolução permanente e o terrorismo a propagar-se muito para além do Afeganistão”. Contra estas ameaças, o artigo descreve a estratégia dos EUA como representando a “democracia”, o eufemismo para países com governos mínimos que deixam o planeamento económico para os gestores financeiros de Wall Street, e as infra-estruturas nas mãos de investidores privados, não fornecidas a preços subsidiados. Nações que restrinjam os monopólios e a relacionada busca de rendas não merecidas são acusadas de serem autocráticas.

O problema, naturalmente, é que tal como os Estados Unidos, a Alemanha e outras nações se tornaram potências industriais nos séculos XIX e XX através de infra-estruturas patrocinadas pelo governo, tributação progressiva e legislação antimonopólio, a rejeição destas políticas após 1980 levou-as à estagnação económica para os 99 por cento sobrecarregados pela deflação da dívida e pelo aumento dos encargos rentistas pagos aos sectores Financeiro, de Seguros e Imobiliário (FIRE). A China está a prosperar, seguindo precisamente as políticas pelas quais as antigas nações industriais líderes tornaram-se ricas antes de sofrerem da doença da financeirização neoliberal. Este contraste suscita o impulso do artigo, resumido no seu sumário do que espera que se torne uma Doutrina Biden apoiada pelo Congresso de escalada de uma Nova Guerra Fria contra economias nãoneoliberalizadas, contrapondo o imperialismo liberal-democrata patrocinado pelos EUA contra o socialismo estrangeiro:

No mês passado, o Sr. Blinken advertiu que a China e a Rússia estavam “a argumentar em público e em privado de que os Estados Unidos estão em declínio – por isso é melhor tentarem a sua sorte com as suas visões autoritárias para o mundo do que com a nossa visão democrática” [2].

O Sr. Soros viu o fim da Guerra Fria abrir o caminho para ele e outros investidores estrangeiros para usar a “terapia de choque” para facilitar colheitas na Rússia, seguida pela crise asiática muito mais vasta de 1997 como uma oportunidade de encher o seu saco de compras com os activos mais lucrativos que proporcionassem rendal. Ele está inquieto por o Presidente Xi não estar a emular Boris Yeltsin e deixar emergir uma cleptocracia cliente na China tal como na economia da Rússia – o que fez do mercado de acções russo o queridinho do mundo durante alguns anos, 1995-97.

Logo após a Crise Asiática, a administração de Bill Clinton admitiu a China na Organização Mundial do Comércio, dando a investidores e importadores dos EUA acesso a trabalho de baixo preço capaz de competir com o trabalho industrial estado-unidense. Isso ajudou a travar ganhos salariais nos EUA, ao passo que a China utilizou o investimento estrangeiro como um meio de melhorar a sua tecnologia e de o trabalho se tornar economicamente auto-suficiente. Ela não deixou o seu sistema monetário ou organização social tornar-se financeiramente dependente de “mercados” a funcionarem como veículos para o controle estado-unidense como o sr. Soros esperava que ocorresse quando começou a investir na China.

A China reconheceu desde o princípio que a sua insistência em manter o controle da sua economia – pilotando-a para promover a prosperidade geral, não enriquecer uma oligarquia cliente frente a uma classe investidora estrangeira – criaria oposição política dos ideólogos da Guerra Fria nos EUA. A China portanto quiz aliados da Wall Street, oferecendo oportunidades de fazer lucro à Goldman Sachs e outros investidores cujo auto-interesse levou-os na verdade a se oporem a políticas anti-China.

Mas o êxito da China criou tantos multimilionários que ela agora procura restringir a riqueza excessiva. Essa política cortou drasticamente os preços das principais acções chinesas, levando o sr. Soros a advertir investidores quanto a salvamentos (bail out). A sua esperança é que isto levará a China a controlar e reverter a sua política de elevar padrões de vida a expensas do envio dos seus ganhos económicos para os EUA e outros investidores estrangeiros.

A realidade é que a China não precisa do dinheiro dos EUA ou de outros estrangeiros para desenvolver-se. O Banco Popular da China pode criar todo o dinheiro que a economia interna necessita, enquanto o seu comércio de exportação já está a inundá-la com dólares e a pressionar para cima a sua taxa de câmbio.

John McCain caracterizou a Rússia como um posto de gasolina com bombas atómicas (deixando de reconhecer que é agora o maior exportador mundial de cereais, já não dependendo mais do Ocidente para o seu abastecimento alimentar – graças em grande medida às sanções comerciais patrocinadas pelos EUA). A imagem corolária é dos Estados Unidos como uma economia financiarizada e monopolizada com bombas atómicas e ciber ameaças, em perigo de se tornar um estado falhado como a antiga União Soviética mas a ameaçar deitar abaixo toda a economia mundial se outros países não subsidiarem a sua economia da Nova Guerra Fria, a cavalo da dívida.

Apresentando-se a si própria como a principal democracia do mundo, apesar da sua oligarquia financeira interna e do seu apoio a oligarquias clientes no exterior, os Estados Unidos consolidaram o poder financeiro na sequência das hipotecas-lixo e da fraude bancária de 2008.

A decisão política e a alocação de recursos saíram das mãos da política eleitoral significativa para àquelas do sector das Finanças, Seguros e Imobiliário (Finance, Insurance and Real Estate, FIRE) e daquilo que Ray McGovern chamou de MICIMATT, o complexo Military-Industrial-Congressional-Intelligence-Media-Academic-Think Tank, incluindo as grandes fundações e ONGs. Estas institituições procuram concentrar rendimento e riqueza nas mãos da oligarquia do sector FIRE assim como o Senado romano impedia reformas sobre legislação popular mediante o poder de veto e as câmaras altas de parlamentos, tal como a Casa dos Lordes britânica, utilizam um poder estrangulador semelhante para resistir ao controle governamental no interesse público.

A ascensão do neoliberalismo patrocinado pelos EUA significa que o combate do século XIX por mercados livres da finança predatória patrocinadora do parasitismo rentista fracassou. Este fracasso é celebrado como uma vitória da regra da lei, democracia, direitos de propriedade e mesmo dos mercados livres em relação à autoridade do poder público para regular a busca de riqueza privada. Integrar a economia global de acordo com linhas unipolares que permitam a interesses financeiros dos EUA e das economias aliadas da NATO apropriarem-se dos activos de países estrangeiros mais lucrativos e produtores das mais altas rendas é idealizado como a evolução natural da civilização, não como a estrada para a servidão neoliberal e a escravidão da dívida corporificada no que responsáveis estado-unidenses chama a Regra da Lei.

O que é a Regra da Lei?

Os Estados Unidos recusam-se a aderir ao Tribunal Mundial, ou a qualquer organização internacional em que não tenham o poder de veto. E simplesmente retiram-se de tratados e acordos internacionais que assinaram se os seus interesses instituídos acreditarem que eles já não lhes servem. Isto sempre foi a política estado-unidense, desde os muitos tratados com tribos nativas americanas rompidos por Andrew Jackson e seus sucessores até os acordos EUA-URSS que puseram fim à Guerra Fria em 1991, rompidos por Bill Clinton e ao tratado que removia sanções ao Irão rompido por Donald Trump. Esta política introduziu no vocabulário do mundo diplomático uma nova expressão para descrever a diplomacia estado-unidense: incapaz de acordos (non-agreement-capable).

A administração evangelista neocon de George W. Bush, efectivamente dirigida pelo seu vice-presidente Dick Cheney, seguiu o princípio de que “Agora somos um império e, quando actuamos, criamos a nossa própria realidade” [3]. Para impor esta realidade sobre outros países, a “inteligência” dos EUA é seleccionada, inventada ou censurada para dar a aparência de qualquer realidade que se considere servir os interesses dos EUA em qualquer momento dado. A realidade passada e presente é redefinida à vontade para fornecer um guia de acção. Seja o que for que a diplomacia dos EUA dite, pretende-se que reflicta a regra da lei, dando aos Estados Unidos o direito de definir o que é legal e o que não é quando impõe sanções económicas e militares contra países que não seguem políticas pró-americanas. Os ditames resultantes que estabelecem a lei estão sempre embrulhados na retórica dos mercados livres e da democracia.

O que é mercado livre?

Para os economistas clássicos, o objectivo da reforma do século XIX era substituir o poder político da classe rentista pelo poder democrático a fim de criar políticas de estado tanto para tributar a renda da terra e outras rendas económicas como para retornar ao domínio público a terra, recursos naturais e monopólios naturais tais como transportes, comunicações e outras infraestruturas básicas necessárias. Um mercado livre era definido como livre de renda económica – a renda da terra imposta pela classe dos latifundiários herdeiros dos senhores da guerra, cujo papel económico era puramente extractivo, não produtivo. A renda dos recursos naturais diziam pertencer ao domínio público como património nacional e a renda monopolista era para ser impedida pela manutenção no domínio público dos monopólios naturais, ou regulamentando-os com firmeza se fossem privatizados.

A reacção anti-clássica do século XX inverteu o conceito de mercado livre, o estilo orwelliano da dupla linguagem, para criar um que fosse “livre” para os que buscam rendas a fim de obterem almoços gratuítos com rendimentos extraídos de rendas. O resultado é uma economia de rentistas na qual a terra, os recursos naturais e os monopólios naturais são privatizados e, a seu tempo, financiarizados para transformarem a renda nnum fluxo de pagamentos de juros ao sector financeiro, à medida que a economia é levada a endividar-se para pagar as despesas gerais do rentista e a inflação do preço do activos financiada por dívida para os activos produtores de renda.

A “liberdade” de tais mercados é a libertação de os governos tributarem a renda económica e regularem os preços para limitar a extracção de renda. Um crescimento exponencial do não merecido rendimento e riqueza dos rentistas nas mãos de um sector afasta o rendimento da economia “real” da produção e do consumo.

Quanto ao comércio livre, os Estados Unidos também mantêm o direito de impor tarifas à vontade (eufemizado como “comércio justo”, ou “fair trade”) e aplicar multas e sanções para impedir que as empresas sejam livres de vender tecnologia à China. O objectivo é concentrar monopólios tecnológicos nas mãos dos Estados Unidos. Qualquer “proliferação” de tecnologia (que é tratada de modo muito semelhante ao armamento nuclear como uma questão de segurança nacional) é considerada “injusta” e antitética à liberdade de os EUA controlarem o comércio e os padrões de investimento mundiais no seu próprio interesse.

Esta tentativa de promover “mercados livres” e “comércio justo” é defendida pelas pretensões dos EUA de proteger a democracia contra a autocracia e de intervir por todo o mundo para promover os membros do Mundo Livre definidos ipso facto como sendo democráticos simplesmente em virtude de serem aliados dos EUA. A Nova Guerra Fria de hoje tem tudo a ver com a manutenção e extensão de um “mercado livre” tão cativo e orientado para os EUA pela força, desde o golpe de Henry Kissinger no Chile para impor “mercados livres” ao estilo de Chicago até aos golpes de Hillary Clinton na Maidan da Ucrânia e nas Honduras e a sua destruição da Líbia apoiada pela NATO e o assassinato de Qadhafi.

O que é democracia?

Aristóteles escreveu que muitas constituições parecem superficialmente serem democráticas, mas realmente são oligárquicas. A democracia sempre foi o eufemismo enganoso para a oligarquia transformar-se numa aristocracia hereditária. As democracias tendem a evoluir para oligarquias quando credores expropriam devedores (a “regra da lei” garantindo uma hierarquia dos “direitos de propriedade” com os direitos do credor no topo da pirâmide legal).

O movimento rumo à reforma política democrática no fim do século XIX e início do século XX supunha-se que criasse mercados livres de rendas. Mas a dinâmica da democracia política foi gerida de um modo que impediu a democracia económica. O próprio significado de “democracia” foi degradado para significar oposição ao poder do governo de actuar contra a oligarquia rentista dos Um Porcento em favor dos 99 Porcento. O resultante travesti de mercado livre democrático serve para impedir tentativas políticas de utilizar o poder público para promover os interesses da população assalariada em geral e, na verdade, da própria economia industrial para um ávido despojamento de activos financeiros e de deflação da dívida dos mercados.

Na linguagem da diplomacia internacional, “democrático” tornou-se uma etiqueta para qualquer regime pró-EUA, desde as cleptocracias bálticas até as ditaduras militares da América Latina. Países que usem o poder do estado para regular monopólios ou tributar rendimento rentista são denunciados como “autocráticos”, mesmo se tiverem chefes de estado eleitos. Nesta nova retórica orwelliana da diplomacia internacional, o regime cleptocrático russo de Boris Yeltsin era democrático e o movimento natural para travar a corrupção e a despopulação foi chamado de “autocracia”.

O que é autocracia e “autoritarismo”?

Movimentos estrangeiros de defesa contra tomadas de controle financeiras pelos EUA e o patrocínio de oligarquias clientes são denunciados como autoritários. No vocabulário da diplomacia estado-unidense, “autocracia” refere-se a um governo proteger os interesses da sua população pela resistência às tomadas de controle financeiro pelos EUA dos seus recursos naturais, da infraestrutura básica e dos seus monopólios mais lucrativos.

Todas as economias com êxito através da história têm sido economias mixtas público/privadas. O papel adequado do governo é impedir economias de uma oligarquia rentista de emergirem para polarizar a economia a expensas da generalidade da população. Esta protecção exige a manutenção do controle da moeda e do crédito, da terra e dos recursos naturais, da infraestrutura básica e dos monopólios naturais nas mãos dos governos.

As oligarquias é que são autocráticas ao bloquearem reformas para anular a sua busca de renda, através da manutenção das necessidades básicas e das infraestruturas no domínio público. Para confundir a compreensão, a oligarquia de Roma acusou os reformadores sociais de “buscarem a realeza”, tal como as oligarquias gregas acusaram os reformadores de buscarem a “tirania” – como se as suas reformas fossem meramente para benefício pessoal e não para promover a prosperidade geral. O resultante Duplo Pensamento Orwelliano resultante é tecido na retórica do neoliberalismo.

O que é neoliberalismo?

Neoliberalismo é uma dinâmica financeira em expansão exponencial que procura concentrar os recursos mais lucrativos do mundo e os recursos que proporcionam as mais altas rendas nas mãos de gestores financeiros, principalmente nos Estados Unidos e nas suas oligarquias clientes que actuam como proconsules sobre economias estrangeiras.

Os meios de comunicação de massas liberais, o meio académico e as instituições de lobbying “think tank”, fundações políticas e ONG patrocinam a retórica acima descrita dos mercados livres para criar veículos para a fuga de capitais, lavagem de dinheiro, evasão fiscal, desregulamentação e privatização (e a corrupção que acompanha as cleptocracias emergentes). A doutrina neoliberal retrata todos os movimentos públicos para proteger a prosperidade geral do fardo do rentista como sendo a autocracia autoritária que “interfere” com direitos de propriedade.

O que são direitos de propriedade?

Nas economias financiarizadas de hoje, “direitos de propriedade” significa a prioridade dos direitos do credor para arrestar habitação, terra e outras propriedades de devedores. (Na antiguidade isso incluía a liberdade pessoal de devedores condenados à servidão da dívida aos seus credores.)

O Banco Mundial tem promovido tais direitos de propriedade orientados para os credores a partir da União Soviética e de comunidades indígenas latino-americanas a fim de privatizar propriedade até então comunal ou pública, incluindo terra ocupada por invasores (squatters) ou comunidades locais. A ideia é que propriedade outrora comunal ou pública seja privatizada como direito individual, que possa ser comprometida como garantia (collateral) para empréstimos e devidamente confiscada ou vendida sob constrangimentos económicos.

O efeito é concentrar a propriedade nas mãos do sector financeiro. Isso leva inevitavelmente a uma economia fracassada e austera.

O que é uma economia fracassada?

As economias fracassam devido à ascensão ao poder de interesses escusos (vested interests), primariamente no sector das Finanças, Seguros e Imobiliário (FIRE) que controla a maior parte dos activos e da riqueza. Uma economia fracassada é aquela que não se pode expandir, habitualmente em consequência de se ter tornado pejada de dívida pela alta das despesas gerais rentistas na forma de renda da terra, renda dos recursos naturais e renda monopolista quando o sector financeiro substitui governos eleitos democraticamente como planeadores e alocadores de recursos.

O sector FIRE é uma simbiose entre finanças e imobiliário, juntamente com os seguros. O seu plano de negócios O seu plano de negócios envolvia uma dimensão altamente política procurando centralizar o controlo do dinheiro e da criação de crédito em mãos privadas hereditárias, e transformar esta renda económica “livre” de impostos, arrecadação pública ou regulamentação, num fluxo de juros. O efeito do empréstimo principalmente para compradores de activos, os quais são dados como garantia, não é criar novos meios de produção mas sim inflacionar os preços dos bens imobiliários já existentes.

Os ganhos de capital financeiro resultantes tornaram-se a forma mais fácil de adquirir fortunas, as quais assumem a forma de direitos para a extracção de rendas sobre a economia, não de novos meios de produção para apoiar a prosperidade económica “real” e a elevação dos padrões de vida.

As economias financiarizadas estão condenadas a tornarem-se estados fracassados porque a trajectória de expansão exponencialmente crescente da dívida a acumular-se a juros compostos mais nova criação de crédito e “flexibilização quantitativa” (“quantitative easing”) excede em muito a taxa de crescimento subjacente da economia de produção de bens e serviços para suportar este fardo. Estas dinâmicas financeiras ameaçam condenar os EUA e as suas economias satélites a tornarem-se estados falhados.

A questão subjacente é se a própria civilização ocidental se tornou uma civilização fracassada, dadas as raízes do seu sistema jurídico e os conceitos de direitos de propriedade tendo origem na Roma oligárquica. A economia polarizada de Roma conduziu a uma Idade das Trevas, de que se recuperou saqueando Bizâncio e, subsequentemente, o Oriente e a nova conquista do Novo Mundo e da Ásia Oriental e Meridional. Durante os últimos vinte anos, foi o crescimento socialista da China que primariamente sustentou a prosperidade ocidental. Mas esta dinâmica está a ser rejeitada, denunciada como uma ameaça existencial precisamente por ser um socialismo com êxito, não uma exploração neoliberal.

Em tempos passados houve sempre alguma parte do globo para sobreviver e continuar. Mas a Super-Decadência ocorre quando o mundo inteiro está a ser arrastado para baixo em conjunto, sem nenhuma região capaz de resistir à dinâmica polarizadora e empobrecedora rentista imposta pelo núcleo imperial militarizado. Seguindo a liderança dos EUA, o Ocidente está a eliminar a sua possibilidade de sobrevivência. A rejeição do neoliberalismo por parte da China e de outros membros da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) é enfrentada pelas sanções comerciais e financeiras dos EUA, cujo efeito auto-derrotante é levá-los em conjunto a criar um sistema regulador estatal (“autocracia”) para resistir à dolarização, financeirização e privatização. Eis porque estão a ser isoladas como uma ameaça existencial à dinâmica da decadência rentista neoliberal.

A alternativa

Isto não tem de ser assim, é claro. A China está a defender-se não só pela economia industrial e agrícola produtiva que o seu governo socialista tem patrocinado, como também por um conceito orientador de como as economias funcionam. Os gestores económicos da China têm os conceitos clássicos de valor, preço e renda económica, que distinguem o rendimento merecido do rendimento não merecido, e o trabalho produtivo e a riqueza das fortunas rentistas financeiras dos improdutivos e predadores.

Estes são os conceitos necessários para elevar toda a sociedade, os 99% em vez de apenas os Um por cento. Mas a reacção neoliberal pós-1980 despiu-se do vocabulário económico ocidental e do currículo académico. A actual estagnação económica, o fardo da dívida e as taxas de juro bloqueadas em zero são uma escolha política do Ocidente, não um produto inevitável do determinismo tecnológico.

[1] George Soros, “BlackRock’s China Blunder,” Wall Street Journal, September 7, 2021.
[2] Helene Cooper, Lara Jukes, Michael D. Shear and Michael Crowley, “In the Withdrawal from Afghanistan, a Biden Doctrine Surfaces,” The New York Times, September 5, 2021.
[3] Ron Suskind, “Faith, Certainty and the Presidency of George W. Bush,” New York Times Magazine, October 17, 2004, quoting Bush-Cheney strategist Karl Rove.

[NT] Traduções adoptadas:  rent = renda;  income = rendimento;  revenue = receita;  earning = ganhos[*] Economista. Muitos dos seus livros estão disponíveis aqui.

O original encontra-se em thesaker.is/the-vocabulary-of-neoliberal-diplomacy-in-todays-new-cold-war/. Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em resistir.info

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