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terça-feira, 21 abril 2026

O saber como ameaça no mundo contemporâneo

Henrique Matthiesen*

Há um antagonismo silencioso, porém persistente, que atravessa a história da humanidade: o ódio da ignorância contra o conhecimento. Não se trata de um conflito episódico nem de mera divergência de opiniões, mas de uma tensão estrutural entre dois modos de estar no mundo. O conhecimento exige esforço, método, disciplina intelectual e disposição para a dúvida. A ignorância, por sua vez, busca conforto, respostas simples e certezas rápidas. Quando confrontada pelo saber, reage com hostilidade, pois este rompe narrativas fáceis, desmonta ilusões e impõe responsabilidade.

Historicamente, esse ódio assumiu formas explícitas, como perseguições a filósofos, censura de livros, repressão científica e autoritarismos sustentados pelo obscurantismo. No mundo contemporâneo, contudo, ele se reinventa. Já não precisa de fogueiras nem de inquisidores. Opera de modo difuso, cotidiano e tecnologicamente mediado. Manifesta-se no desprezo pelo estudo sistemático, na ridicularização da erudição e na suspeita permanente lançada sobre professores, cientistas e intelectuais. A ignorância atual raramente se assume como tal. Apresenta-se como opinião legítima, como espontaneidade emocional ou como coragem de confrontar o chamado politicamente correto.

Vivemos, assim, uma contradição histórica inquietante. Nunca houve tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca o pensamento esteve tão fragmentado. A tecnologia, que poderia ampliar horizontes cognitivos e democratizar o conhecimento, foi capturada por uma lógica orientada pela atenção e pelo consumo. Os algoritmos não foram desenhados para formar consciências, mas para maximizar o engajamento. O que exige tempo, concentração e profundidade perde espaço para aquilo que provoca reação imediata. O texto longo cede lugar ao vídeo curto. A leitura paciente é substituída pelo deslizar incessante da tela.

Nesse ambiente, a leitura deixa de ser prática formadora e se torna exceção, não porque as novas gerações sejam menos capazes, mas porque são menos provocadas a sustentar raciocínios complexos. Aprende-se a consumir estímulos, não a elaborar conceitos. O resultado é uma sociedade saturada de dados e carente de compreensão. Sabe-se de tudo um pouco, mas entende-se quase nada. A informação circula em abundância, enquanto a sabedoria se torna escassa.

As consequências desse processo são profundas e perigosas. Uma sociedade que despreza o conhecimento fragiliza suas bases éticas, políticas e civilizatórias. Onde não há pensamento crítico, há obediência acrítica. Onde faltam leitura e reflexão, proliferam slogans, preconceitos e simplificações agressivas. A ignorância não é neutra. Ela produz brutalidade simbólica, empobrece o debate público e prepara o terreno para a manipulação e o autoritarismo.

Resistir a esse cenário exige um gesto que hoje assume caráter quase subversivo: ler, estudar, pensar com rigor, aceitar a dúvida e defender a complexidade. Não se trata de elitismo, mas de liberdade. O conhecimento não ameaça a humanidade. O que a ameaça é a ignorância celebrada, organizada e orgulhosa de si. E é justamente por isso que ela odeia o saber, pois, mesmo sem reconhecê-lo conscientemente, sabe que o conhecimento é aquilo que a desmascara.

*Henrique Matthiesen é formado em Direito e Pós-graduado em Sociologia

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