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sábado, 20 julho, 2024

O quinto mosqueteiro da amazonia sai do baú

José Ribamar Bessa Freire

“No baú velho do inconsciente / mexendo papéis antigos /

achei um mapa de sonhos. / Pedi emprestado ao tempo /

 as minhas mãos de menino  ()  / e comecei a jogar”.

Farias de Carvalho, Baú Velho

Sempre soubemos que os três mosqueteiros do romance de Alexandre Dumas eram, na realidade, quatro: Athos, Porthos, Aramis e, depois, D´Artagnan, vindo da Gasconha. O que ninguém sabia, mas agora eu conto, é que havia mais um, proveniente da Amazônia, que só foi anunciado ao mundo em 1963:

Olha o quinto Mosqueteiro!!!        

O grito ecoou no alto da escadaria do Colégio Estadual do Amazonas, em Manaus, rolou degraus abaixo até o portão onde eu estava e me atingiu em cheio como um soco no peito. Lá em cima, esgrimindo uma espada imaginária, Ilmar Faria, o temível criador de apelidos, apontava para mim, tornando-me o centro das atenções ao salientar que a manga comprida da minha camisa era igual à de um espadachim. Não havia dúvida: o quinto mosqueteiro era eu. Ilmar acertara na mosca, com precisão cirúrgica, mesmo ignorando a origem daquela camisa com manga folgada de guarda do rei da França.

A camisa viera de um beco do bairro de Aparecida, onde nossa vizinha, Dona Zuzu, ao saber que eu faltara à aula por não ter farda, solidária, deu à minha mãe uma camisa velha do dr. Percy Menezes, seu sobrinho médico. Sendo o defunto bem maior, dona Elisa teve de reciclá-la, de noite, às pressas, à luz de lamparina, numa máquina Singer de pedal gradeado de ferro. Com a vista cansada, inverteu a manga direita, costurando-a com a carcela pra cima. De manhã, já não havia tempo de desfazer o erro. Vesti assim mesmo, abotoei o punho e, para disfarçar, girei o tecido, botando a abertura pra baixo, o que formou uma manga bufante, fofa, cheia de rugas em volta do braço.

Lendo Camões

Embombachado, sai para a escola, onde ganhei aquele apelido cruel, mas tão engraçado que meio século depois insisto em recordá-lo. Com isso, perco o amigo, mas não a piada, com uma atenuante: o amigo perdido, neste caso, sou eu, o melhor amigo de mim mesmo. Hoje seria bullying, mas foi brincadeira tão efêmera como as rosas de Malherbe: só durou “l’espace d´un matin”. No dia seguinte, com a manga já refeita, o “Quinto Mosqueteiro” cairia no esquecimento, ao contrário de dois bedéis que ficaram a vida inteira com os apelidos de Pierre Pirrocá e  Bunda-de-Aço.

Outros apelidos inventados por Ilmar sobreviveram por algum tempo, caso da professora de Filosofia, Lindalva Mota, alcunhada de “Por-conseguinte-então” ou “Lili Silogismo”. Era a cara dela. Ou do outro professor da mesma disciplina, o Cônego Walter, conhecido como “Vavá Tal-e-Qual”, cujas aulas nos levaram a crer que “Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual a gente fica tal e qual”.

Todos os colegas tinham apelido. Um deles surgiu inspirado em aula memorável de Literatura Portuguesa ministrada pelo professor Farias de Carvalho, poeta dos bons, fundador do Clube da Madrugada. Aula é um modo de dizer. Ele não dava aula. Declamava. Era ator performático, usava todos os recursos corporais, as bochechas infladas, as mãos fartas, o olhar penetrante, o riso sardônico. Parecia Orson Welles, no físico e no espírito: um clown charmoso e provocador, obeso, corpulento, carismático.

Nesse dia em que ditava um ponto sobre Os  Lusíadas, Farias de Carvalho estava com a macaca solta. Baixou nele o espírito de Falstaff, personagem burlesco e farsante de Shakespeare recriado por Welles. Enquanto reverenciava, trovejante, “as armas e os barões assinalados” e velejava, endiabrado, “por mares nunca de antes navegados“, nós copiávamos sofregamente sua caracterização elogiosa do poema:

– … Os Lusíadas, a epopeia de uma raça, poema épico humanista, com dez cantos, 1.102 estrofes num total de 8.816 versos decassílabos…

Foi interrompido por um aluno menos tímido:

– Desculpa, professor, mas o senhor já leu TUDO ISSO?

Eu vou lá perder o meu tempo com uma meeeeerda deeesta – vociferou Farias para estupefação geral. Advertiu-nos que não era para copiar aquela frase, fechou parêntese e mudou de personagem, retomando o papel de ator-professor, como se nada houvesse ocorrido. Com voz impostada carregada de teatralidade e com total domínio de cena voltou a fazer a apologia do poema, ordenando agora sim que continuássemos a escrever o ponto ditado:

– Luiz Vaz de Camões, esse gênio lusitano, que dominava os recursos da língua e da arte da versificação, relata no canto III, na melhor passagem do poema, o assassinato de Inês de Castro, episódio que simboliza a força do amor e a dor da morte. Camões, com um olho só, via mais longe do que qualquer homem do seu tempo.

Na sequência, o professor revelou que Camões perdera o olho direito numa batalha naval. A aula não havia ainda terminado e um papelzinho já circulava de uma carteira à outra, com uma caricatura, batizando de Camões nosso colega Flávio Farias, que tinha a córnea opaca e era cego de um olho. Aí foi bullying mesmo. Muitos anos depois, compartilhei com Flávio Camões a mesma sala no Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Amazonas. Ele me confidenciou que odiara o apelido que o persegue ainda hoje, mesmo depois de morto.

Três Farias

Eram três Farias do Curso Clássico, um no singular e dois no plural, os três agora em outras órbitas. O primeiro a se despedir foi Carlos Farias Ouro de Carvalho (1930-1997), que nos deixou vários livros de poemas, de excelente qualidade, entre os quais Pássaro de cinza (1957) e Cartilha do bem amar com lições de bem sofrer (1965). Hoje empresta seu nome a uma Escola Municipal de Manaus, situada no Monte das Oliveiras.

O segundo foi Ilmar Faria (1946-1999), que morreu como coronel. Depois de passar pelo Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR), ingressou na Polícia Militar do Amazonas. Tentou carreira política como candidato a vereador. Perdeu. Desistiu. Chegou a ser Secretário de Segurança Pública. O governo do Estado construiu uma quadra esportiva na Manaus Moderna e deu o nome do coronel a ela. Sem apelido.

O terceiro foi Flávio Farias (1946-2015), o nosso dileto Camões, falecido recentemente numa sexta-feira, 13 de março. Ele cursou jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo, trabalhou em vários jornais de Manaus e formou gerações de jornalistas como professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas.

Lembrei dos três Farias, porque em viagem de Brasília ao Rio, há duas semanas, sentou-se ao meu lado no avião um jovem que era a cara escarrada e cuspida do Ilmar. Quase pergunto se ele ainda dançava e dublava os sucessos da época, especialmente Jorge Ben (Chove Chuva), Chubby Checker (Let´s Twist Again), Ray Charles (I can´t stop loving you), os Beatles (Twist and Shout, La Bamba) e The Rivingtons (Papa-Oom-Mow-Mow), cantadas em sala de aula, quando faltava um professor.

A lembrança do jovem Ilmar me fez viajar no tempo que sempre faz trapaças com a gente como reza o “Baú Velho”:

“Ah! Tempo, tempo malvado, / tempo, você me enganou“.

Há meio século, em dezembro de 1965, éramos todos jovens e concluíamos o Curso Clássico no Colégio Estadual do Amazonas. Depois de convivência diária de três anos na mesma sala do segundo andar, cujas janelas se abriam para a Rua Rui Barbosa, nossos destinos ali se separaram, cada um tomou seu rumo. Por onde anda cada um? Quantos ainda estão vivos? No voo de Brasília, vim anotando os nomes dos colegas e dos professores, identificando só agora, tardiamente, os que já morreram. Nesse contexto, o balanço da passagem do tempo nesta virada de ano nos remete ao “Ocaso” de Farias de Carvalho:

“Meus mortos hão de vir no fim da tarde.

Aguçai vossos dentes, cães do tempo,

vamos comer a morte no crepúsculo”

P.S. – O dentista Paulo Jacob, com quem troco figurinhas, me ajudou a completar a lista em ordem alfabética dos colegas de turma e dos professores do Curso Clássico (1963-1965) do Colégio Estadual do Amazonas. Talvez ainda faltem alguns.

Alunos: Aldenise Batista de Salles, Arabi Amed, Aristarcho Melo, Ceronir Freire, Denise Benchimol, Djalma Limongi Batista, Édira Diger Gonzaga, Fátima Ventura Gonçalves, Flávio Farias, Glória Bezerra, Helenice Garcia, Henriette Cordeiro, Ilmar Faria, José R. Bessa Freire, Lana de Lys Borborema, Lenita Arone, Luciana, Manoel Maria, Maria Amélia Antunes, Maria do Carmo Pereira dos Santos, Maria Helena Saboia, Marilia Carvalho, Mario Jurandir Verçosa, Mariúza Menezes, Nelly D´Oran, Oyama Ituassu Filho, Paulo Jacob São Thiago, Rafael Romano, Rodrigo Medina, Socorro Valente, Talma Castelo Branco, Tereza Porto Melo, Waldir João, Yeda Guerra, Yeda  Rayol.

Professores – Arilza Menezes (Sociologia), Benedito Lira (Historia), Catarina (francês e grego), Dorival (francês), Esmeraldo Bessa (Latim), Farias de Carvalho (Português-Literatura), Francisco Batista (Sociologia), José Ribamar da Costa (Inglês), Lindalva Mota (Filosofia), Manuel Octavio (Historia), Mário Ypiranga Monteiro (Folclore), Miguel Duarte (Francês), Miss Bell (Inglês), Afonso Celso Nina (Quimica), Cônego Walter Nogueira (Filosofia).

Ver também: O ALBUM DA FAMILIA PIRROQUE – http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=944 e DA ARTE DE SER MANOEL OCTAVIO – http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=877

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