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sexta-feira, 23 janeiro, 2026

O presidente que ri da democracia

Por Atilio Borón*

Em mais um gesto que o confirma como o maior bajulador do império, o governo de Javier Milei exigiu perante o Tribunal Penal Internacional em Haia a emissão imediata de um mandado de prisão contra Nicolás Maduro e outros altos funcionários do governo bolivariano.

É, no mínimo, curioso, ou talvez risível, que o regime de Milei, que nestes dois anos destruiu as instituições da democracia, dizimando a separação de poderes, atropelando o Congresso Nacional cujas leis não são apenas vetadas, mas simplesmente desobedecidas, e que mantém sob seu controle uma absurda Suprema Corte de três membros que observa com escandalosa indiferença a destruição da república, agora se arroga o direito de exigir a captura do presidente venezuelano.

Uma exigência risível quando se considera a duvidosa ética dos funcionários do governo. Há pessoas acusadas de aceitar subornos, oportunistas políticos envolvidos na compra e venda descarada de votos no Congresso ou em cargos públicos, funcionários e candidatos com ligações comprovadas ao narcotráfico e indivíduos, como o próprio presidente, que enfrenta nada menos que uma acusação formal por sua participação ativa no esquema da criptomoeda Libra, um caso que já se arrasta ameaçadoramente no Tribunal Distrital do Distrito Sul de Nova York. Não nos surpreenderia se o sistema judiciário dos Estados Unidos enviasse Milei para a prisão antes de Maduro.

Como se tudo isso não bastasse, vale lembrar que esse autoproclamado defensor da democracia e dos direitos humanos instruiu recentemente seu representante na Assembleia Geral da ONU a votar contra uma resolução que condena a tortura “em todos os momentos e em todos os lugares”. Quase todos os 169 países presentes votaram a favor da resolução; quatro se abstiveram e três votaram contra: os Estados Unidos, Israel e… Argentina! Em outras palavras, esse trio votou para legitimar a tortura.

A Argentina apoiou, com seu voto, o único país que lançou duas bombas atômicas sobre duas cidades japonesas indefesas em agosto de 1945, no maior ataque terrorista da história; e o regime neonazista israelense que perpetra genocídio e infanticídio em Gaza.

Deve-se salientar ao presidente que o TPI tem um mandado de prisão contra seu amigo, o assassino em série Benjamin Netanyahu, mas que, diante do colapso da ordem jurídica e institucional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, vários países, especialmente os Estados Unidos, estão recebendo o primeiro-ministro israelense, ignorando completamente a ordem do TPI, pelo menos por enquanto.

O futuro prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmou que procederia com a prisão de Netanyahu caso ele visitasse a cidade no futuro.

Existe também outro mandado de prisão, expedido contra Vladimir Putin, fruto da enorme pressão da OTAN e da União Europeia, que sonham com uma “mudança de regime” na Rússia e acreditam ingenuamente que tal coisa poderia ser alcançada prendendo seu presidente. Outro, talvez menos cerebral ou mais audacioso, tomaria o seu lugar, para infelicidade da Europa. Em todo caso, ao contrário de Netanyahu, o mandado de prisão do TPI impôs severas restrições à capacidade de Putin de viajar para o exterior.

A petição apresentada ao TPI é o elo mais recente em uma longa lista de horrores cometidos pelo Ministério das Relações Exteriores da Argentina, claramente nas mãos de amadores incompetentes imbuídos da vocação colonial do presidente.

As diversas votações na Assembleia Geral da ONU, bem como em outros órgãos das Nações Unidas, comprometeram seriamente as alianças cultivadas ao longo de décadas por governos de convicções políticas muito diferentes, com o objetivo de viabilizar a recuperação pacífica das Ilhas Malvinas.

Com Milei, todo esse trabalho foi jogado no lixo. A Argentina está cada vez mais isolada e desrespeitada no mundo, transformada em um vassalo pitoresco dos Estados Unidos e de Israel — tecnicamente dois “estados párias” por múltiplas violações das resoluções da ONU — pronta para obedecer ao menor capricho de seus mentores.

Se Washington quer atacar a Venezuela e capturar Maduro, Milei repete descaradamente as vozes de seus mestres. Se o objetivo é manter a China fora da América Latina e do Caribe, Milei tenta por todos os meios agradar a Casa Branca, mesmo que isso prejudique seriamente nossos interesses nacionais.

A recusa da Argentina ao convite do BRICS é mais um exemplo dos absurdos a que o fanatismo delirante do presidente e a incompetência do nosso Ministério das Relações Exteriores nos levam. Mas agora a ordem da Casa Branca é atacar a Venezuela, e Milei está lá, curvando-se e fazendo o que lhe mandam.

Ele ignora um sábio ditado atribuído a Henry Kissinger: “Ser inimigo dos Estados Unidos é perigoso, mas ser amigo é fatal”. Os ataques contra a embaixada israelense e o centro judaico AMIA, em resposta à política de alinhamento automático com os Estados Unidos durante a era Menem — as “relações carnais” — comprovam a veracidade da afirmação de Kissinger.

Que preço este país terá de pagar quando o resultado catastrófico desta segunda versão, mais intensa, das relações carnais se concretizar?

*Atilio Alberto Borón (Buenos Aires, 1º de julho de 1943) é um cientista político e sociólogo argentino, doutor em Ciência Política pela Universidade de Harvard. Atualmente, é Diretor do Centro de Desenvolvimento Curricular da Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade Nacional de Avellaneda. É também Professor Consultor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires e Pesquisador do IEALC, Instituto de Estudos Latino-Americanos e Caribenhos. Recentemente, aposentou-se como Pesquisador Sênior do CONICET (Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica). Foi Vice-Reitor da Universidade de Buenos Aires (1990-1994) e Secretário Executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) de 1997 a 2006. É Diretor do PLED, Programa Latino-Americano de Educação a Distância em Ciências Sociais do Centro Cultural de Cooperação Floreal Gorini. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pelas universidades nacionais de Cuyo, Salta, Córdoba e Misiones, na Argentina. da Universidade Nacional Experimental Rafael María Baralt de Cabimas (Zulia, Venezuela), Prêmio Internacional UNESCO José Martí (2009) e Prêmio Honorário de Ensaio Ezequiel Martínez Estrada da Casa de las Américas (Havana, Cuba), de 2004.

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