Nas montanhas sagradas da Serra do Ororubá, em Pernambuco, uma história milenar de resistência está escrevendo um novo e inspirador capítulo. O povo Xukuru, guardião de um território cobiçado desde os primeiros dias da colonização, não apenas sobreviveu a séculos de violência e expropriação, mas emerge hoje como protagonista de uma transformação política profunda na região. Sob a liderança do Cacique Marcos Xukuru, agora prefeito do município de Pesqueira, essa luta ancestral por terra e identidade converteu-se em um projeto concreto de governo — um exemplo vivo de descolonização e participação popular que ressoa muito além das fronteiras do Agreste.
A presença Xukuru na Serra do Ororubá é registrada desde o século XVI. Seu território original, um extenso perímetro de aproximadamente 40 léguas, foi sendo sistematicamente invadido e fragmentado por um “processo lento e contínuo” de tomada de terras por fidalgos portugueses. A antiga Vila de Cimbres, hoje uma aldeia Xukuru, foi um dos principais palcos desses conflitos coloniais. A resistência, portanto, não é um episódio recente, mas uma postura existencial mantida por gerações, diante de políticas que buscavam apagar sua identidade através de casamentos mistos forçados e da negação de seus direitos mais básicos.
O século XX testemunhou a reorganização dessa resistência de maneira política e espiritual. Sob a liderança do Cacique Xikão, pai de Marcos, o povo iniciou, a partir da década de 1980, um corajoso processo de retomada territorial — a recuperação física e simbólica de suas terras sagradas, ocupadas por fazendeiros. Esse movimento, porém, teve um custo humano brutal: Xikão foi assassinado em uma emboscada em 1998, tornando-se um mártir e símbolo máximo da luta. Foi neste contexto de dor e perseguição que o jovem Marcos, então com 21 anos, foi chamado pelos encantados (os ancestrais espirituais) para assumir o cacicado, dando continuidade ao legado do pai.
A mobilização sob a liderança de Marcos resultou em conquistas históricas para o povo Xukuru, incluindo a homologação da Terra Indígena Xukuru em 2001, com cerca de 27 mil hectares, após anos de conflitos e pressão política, a vitória inédita na Corte Interamericana de Direitos Humanos, que em 2018 condenou o Estado brasileiro por violações cometidas contra o povo Xukuru e determinou reparações e medidas de proteção, especialmente à vida do Cacique Marcos, além da reorganização social interna com a criação da Assembleia do Povo Xukuru, em 2001, que consolidou um modelo próprio de governança participativa e horizontal, reunindo anualmente milhares de pessoas para decidir coletivamente os rumos da comunidade.
A eleição de Marcos Xukuru como prefeito de Pesqueira em 2020 representou um marco civilizatório na democracia brasileira. Ele foi o primeiro cacique eleito prefeito no Nordeste, região berço da invasão colonial. Sua vitória, com mais de 51% dos votos, não foi apenas pessoal, mas a culminação de um projeto coletivo de seu povo, que decidiu ocupar um espaço de poder institucional para transformar a realidade de toda a cidade, indígena e não indígena.
Sua posse, no entanto, foi cercada de resistências das velhas elites. O Ministério Público Eleitoral, a pedido da prefeita derrotada, moveu uma ação para anular sua candidatura com base em acusações antigas e já superadas — uma clara tentativa de criminalizar a liderança indígena. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) interveio no Tribunal Superior Eleitoral em sua defesa, garantindo que a vontade popular prevalecesse.
À frente da Prefeitura, o Cacique Marcos implementou uma gestão alinhada à filosofia Xukuru do “projeto de vida a muitas mãos”, marcada pelo fortalecimento da participação popular por meio da criação de conselhos e fóruns de decisão inspirados nas assembleias indígenas, pela reconexão entre campo e cidade com políticas de apoio à agricultura familiar Xukuru e à comercialização de produtos das aldeias fundamentais para o abastecimento de Pesqueira, por investimentos em educação e cultura que valorizam a história local e a identidade indígena como forma de combater o preconceito histórico, e por uma governança transparente e eficiente, amplamente reconhecida, refletida em uma taxa de aprovação popular de 75,9% segundo pesquisa realizada no final de 2025.
A trajetória do povo Xukuru e do Cacique Marcos é mais do que uma narrativa de resistência; é um projeto de futuro. Ela demonstra que a luta pela terra e pela identidade não se encerra na demarcação, mas se expande para a construção de uma sociedade mais justa, participativa e plural.
A revolução que ocorre em Pesqueira é silenciosa, porém profunda. É a revolução da descolonização das estruturas de poder, da valorização do conhecimento ancestral em diálogo com as necessidades contemporâneas, e da demonstração prática de que outra forma de governar — mais comunitária, espiritualizada e conectada com o território — não só é possível como é profundamente eficaz e desejada pela população.
Ao assumir a prefeitura, o Cacique Marcos não deixou de ser cacique; ele ampliou seu pajeú. O bem-viver Xukuru, concebido nas assembleias da Serra do Ororubá, agora inspira e transforma uma cidade inteira, oferecendo ao Brasil uma lição poderosa sobre resistência, esperança e a coragem de sonhar e construir um mundo novo a muitas mãos.
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