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Internacional

Postado em 21/03/2016 9:52

O mundo depois de Obama

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 Vijay Prashad, Counterpunch

No discurso que fez ao receber o Prêmio Nobel da Paz em 2009, o presidente Barack Obama dos EUA disse “Talvez o aspecto mais controvertido de receber esse prêmio seja o fato de eu ser comandante-em-chefe do exército de uma nação que está imersa em duas guerras.” Obama falava das guerras no Afeganistão e Iraque, mas foi muito modesto. Os EUA estiveram ‘imersos’ em bem mais que duas guerras. Em 2001, George Bush metia o país em toda e qualquer Guerra ao Terror que aparecesse ou pudesse ser criada, a todo instante, em qualquer lugar. As Forças Especiais dos EUA e a aviação pilotada por controle remoto foram também ‘imersas’ em operações de combate em muito mais que dois países.

Nenhum outro país deixou pegada tão gigantesca no planeta como os EUA: tem 800 bases militares em 80 países e postos de vigilância por toda Terra, em função dos interesses norte-americanos. Nem China nem Rússia aproximam-se dos EUA em termos de alcance militar. Com o colapso da União Soviética em 1991, os EUA deixaram de ter concorrentes no cenário mundial, com o que passaram a fomentar guerras e mais guerras, sem receio de qualquer tipo de questionamento. Foi o que se viu bem evidente no Iraque, em 1991. A falta de contrapressão eficaz ante as ambições dos EUA permitiu que chefetes de todos os tipos se pusessem a santificar suas guerras na ONU. Depois do fiasco que foi a invasão ao Iraque em 2003, a legitimidade dos EUA foi gravemente erodida, motivo pelo qual o país pressionou a ONU para que aprovasse rapidamente um novo mandado, chamado doutrina da Responsabilidade de Proteger (R2P) de 2005, pela qual ficava sugerido que os estados-membros da ONU poderiam intervir em conflitos internos, no caso de haver ameaça grave contra a vida dos civis nacionais.

As guerras de Hillary Clinton

Independente do que Obama pense pessoalmente sobre a guerra, fato é que não se cercou exatamente de pacifistas. Disse que a invasão ao Iraque, em 2003, fora “guerra má”, mas o ataque dos EUA ao Afeganistão seria, por sua vez, “guerra boa”. E que outras “guerras boas” poderiam vir, sobretudo contando com a ‘autorização’ que lhe dava a R2P. Por exemplo, a guerra que a OTAN moveu contra a Líbia foi ataque de tipo R2P. Obama tremeu. Mas sua secretária de Estado Hillary Clinton dedicou-se ferozmente a convencê-lo a bombardear a Líbia. Como escreveu a assessora de Hillary Clinton, Anne-Marie Slaughter, em e-mail de 19/3/2011: “Nunca me senti mais orgulhosa por ter convencido o presidente nessa questão”. Ao que Hillary Clinton respondeu, três dias depois: “Cruze os dedos e reze por um pouso suave para o bem de todos”. A Líbia, que foi muito mais a guerra de Hillary Clinton que a guerra de Nicolas Sarkozy, começou como “guerra boa”; mas pouco depois virou “guerra má”.

Hillary Clinton é hoje candidata presuntiva dos Democratas para suceder Obama. Um dos argumentos com que defende a própria candidatura, é que teria mais experiência de política externa que qualquer dos outros candidatos. Sim, mas… que experiência é essa, que Hillary possui em tão altas doses?

A parte mais importante de seu currículo são os quatro anos que serviu como secretária de Estado na primeira presidência de Obama. Os momentos chaves da carreira dela mostram-na sempre empenhada em detonar interesses democráticos de outros países, em nome de promover interesses globais dos EUA. Em 2009, o departamento de Hillary Clinton teve papel ativo no golpe de estado contra Manuel Zelaya, presidente democraticamente eleito de Honduras.

A desgraça da América Latina não desencorajou Hillary Clinton, que furiosamente se dedicou a forçar novas eleições depois do golpe, para “derrubar de uma vez por todas o assunto Zelaya” – como ela mesma registra em sua autobiografia. O golpe foi mensagem clara para toda a América Latina: EUA não se esqueceriam de defender seus interesses empresariais e militares contra qualquer desafio aostatu quo.

Golpe soft

No ano seguinte, ela teria papel chave na demissão de Yukio Hatoyama, primeiro-ministro do Japão, eleito democraticamente. Hatoyama prometera eliminar a base militar norte-americana de Okinawa. Hillary esteve no Japão quando Hatoyama tentava cumprir a promessa de retirar de lá a base e fomentou o máximo de agitação que pôde entre os políticos. Um dos aliados de Hatoyama rompeu com ele. E Hatoyama teve de se demitir em poucas semanas, depois que Hillary Clinton já deixara o país. Esse foi golpe soft. A guerra contra a Líbia em 2010 foi a ação mais potente de La Clinton. Quando o governante líbio Muamar Gadafi foi assassinado nos arredores de Sirte, ela riu: “Chegamos, vimos, ele morreu”. Não há notícia de afirmação mais imoral do poder dos EUA. É amostra do que pode ser um governo de Hillary Clinton como presidenta: punho de ferro contra qualquer desafio ao poder dos EUA.

Hillary Clinton é a medida do ponto de vista doestablishment norte-americano no que tenha a ver com a autoridade dele e a absoluta necessidade de comandar a agenda do mundo. No Partido Republicano quem mais se assemelha a ela é Marco Rubio, o jovem senador cubano-norte-americano da Flórida. Tanto Rubio como Hillary são convictos de que os EUA são país excepcional e que, sem a liderança deles o mundo se afundaria na escuridão. Adoram repetir que os EUA são “a nação indispensável” e sugerir que poucos problemas no mundo podem ser resolvidos sem a colaboração dos EUA. “Há uma e única nação sobre a Terra”, disse Rubio em 2014, “capaz de reunir todas as pessoas livres do planeta e fazer frente à propagação do totalitarismo”. Só os EUA podem fazer tal coisa. Todas as demais vias existentes são, elas mesmas, terrível perigo.

China e Rússia são ameaças vivas, para Rubio e Hillary Clinton. “Em Moscou governa um gângster que não ameaça só a Europa” – disse Rubio entusiasmadíssimo, ano passado –, mas “também ameaça destruir e dividir a OTAN”. E Hillary Clinton, quando ainda secretária de Estado, comparou Vladimir Putin a Adolph Hitler. O establishment está decidido e completamente empenhado em fazer a Rússia retroceder. Nisso, o consenso é total.

Mas, se esse establishment norte-americano não vacila ao pintar a Rússia como nação sinistra, com a China o tom é muito mais cauteloso. Tanto Hillary Clinton como Rubio são admiradores de Henry Kissinger, ex-secretário de Estado, o qual prega, em seu livro China, que as duas superpotências devem aproximar-se e cooperar. Dada a interpenetração das economias chinesa e norte-americana, ninguém recomenda o confronto.

Sobre Cuba e Vietnã, Rubio disse que o compromisso não levara a liberdade àqueles países. Perguntado sobre a China, Rubio disse: “De uma perspectiva geopolítica, nossa aproximação com a China terá de ser necessariamente diferente de Cuba”. A palavra “necessariamente” é sinal da precaução de que Kissinger tanto fala. Ano passado, Hillary Clinton causou irrupções cutâneas em Pequim, ao questionar o compromisso dos dirigentes chineses com os direitos da mulher. Mas foi oportunismo. Nada disso define as relações dela com a China, que são muito mais pragmáticas, alinhadas com os interesses empresariais norte-americanos. O cruzar dos sabres é mau para os negócios, interesses que preferem um bom acordo ao duelo declarado.

O isolacionismo Republicano

Se Rubio e Hillary Clinton são reflexo da posição doestablishment em relação à guerra e ao comércio, o candidato Republicano à presidência, Donald Trump, chega à política externa com postura muito específica e particular. No plano superficial, Trump parece ser isolacionista, alguém que deseja que os EUA se afastem de confusões pelo mundo. Quer construir um muro gigante em torno do território dos EUA e usar o poder aéreo para disciplinar os povos do mundo. Ted Cruz, fanático religioso, fez comentários genocidários sobre o tal uso do poder aéreo. Disse que quer bombardear sem trégua o Estado Islâmico, para verificar “se a areia brilha no escuro”. Trump disse que seus soldados banhariam as balas em sangue de porco, antes de executar muçulmanos. Essa é sua retórica de ódio. Mas, ao mesmo tempo, Trump criticou a guerra de George Bush no Iraque em 2003, que para ele teria sido “um erro bem grande e gordo, não é mesmo?”

Trump e Cruz são incoerentes no isolacionismo deles. Não querem enredar os EUA em guerras, mas só falam de bombardear os adversários. O isolacionismo dos dois também é anacrônico. O exército dos EUA não só se estenderá por todo o planeta como, também, nos seus respectivos governos, seria a Polícia planetária. Esse papel de polícia baseia-se em manterem-se várias relações financeiras e comerciais pelo mundo. Quer dizer: a presença militar dos EUA estabelece as condições do poder norte-americano, que é impulsionado pela Organização Mundial do Comércio e pelo Fundo Monetário Internacional, FMI (para o qual os EUA muito apoiaram um segundo mandato de Christine Lagarde).

Verdadeiro isolamento teria de romper com essa política externa dedicada a proteger interesses externos das grandes empresas transnacionais dos multimilionários norte-americanos. Mas os isolacionistas do Partido Republicano querem só os benefícios e vantagens do poder militar, sem os riscos de exercê-lo. Daí brotam todas as incontáveis confusões dos discursos deles.

O candidato Democrata Bernie Sanders partilha os pontos de vista de Trump sobre a guerra do Iraque, mas aborda as raízes do poder a partir de perspectiva diferente. Sanders disse que os EUA “não podem ser nem devem ser a Polícia do mundo”. É ideia que supõe uma ruptura no consenso. No que tenha a ver com o poder de Wall Street no plano nacional interno, Sanders é claro como o mais puro cristal. Mas logo perde toda a clareza em público, quando o assunto é as vantagens financeiras e comerciais que os EUA obtiveram e obtêm por sua presença militar em todo o mundo.

O único caminho real para controlar o poder militar dos EUA implica conceder que terminarão também os tempos de vantagens financeiras e comerciais para o país, em todo o mundo. Há algo de profético na voz de Sanders quando fulmina Wall Street e os multimilionários. Mas quando o assunto é o mundo, ele anda com passo mais leve.

Não é que – como Hillary nunca se cansa de repetir – lhe falte experiência. Todos os candidatos com possibilidades de suceder Obama estão unidos monoliticamente em torno da ideia de que o poder dos EUA é intocável. Sanders parece sugerir que a era do poder absoluto dos EUA tenha de ter fim, mas não se permite expressar essa ideia nesses termos claros.*****

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