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Papo do Dia

Postado em 26/09/2021 9:29

O IDEAL DA DISTOPIA

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Pedro Pinho*

Nos anos 1950, estudante do nível médio, cinéfilo, criamos um cineclube no colégio. O nome que brotou espontaneamente, como pensamento comum, ideal de todos, foi “Mundo Melhor”.

Não havia entre nós a consciência que a pedagogia colonial da época – onde a predominância estadunidense imperava com sua noção de progresso, de modernidade – não deixava espaço para um mundo que não fosse melhor. E melhor significava romper o atraso, seguir as etapas que o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América (EUA), com trabalho acadêmico financiado pela Agência Central de Inteligência (CIA), Walt W. Rostow (1916-2003) definia como “Os estágios do desenvolvimento econômico”. 

Transcrevo da dissertação de mestrado de Rodrigo Oliveira Salgado, “Constituição e desenvolvimento: o mercado interno na Constituição de 1988”, apresentada ao Departamento de Direito Econômico e Financeiro, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação do professor Gilberto Bercovici, em 2013:

“a ideia de desenvolvimento de Rostow, apesar de não ser absolutamente linear, comporta um alto grau de etapismo, ou seja, a adoção de uma ideia de etapas a serem superadas para que determinada sociedade alcance altos níveis de desenvolvimento. Porém, a importância do conceito de Rostow talvez tenha sido a possibilidade de mapeamento das mais diversas economias mundiais. Suas listagens de dados sobre economias subdesenvolvidas, o bloco ocidental e o bloco soviético, propiciaram o entendimento dos diversos processos de crescimento existentes à época”.

A pedagogia colonial, então adotada, procurava eliminar os nacionalismos, dar conteúdo universal aos processos para o qual os EUA tinham controle, como se lê no prosseguimento da transcrição da tese:

“talvez sua maior contribuição tenha sido a noção de decolagem: para o economista, seu início se dá com um particular sharp stimulus, que será responsável por uma transição decisiva na história daquela sociedade. Mais do que isso, Rostow se preocupou em demonstrar o processo de países como Japão, Canadá e Suécia passaram por seus processos de decolagem, demonstrando como as altas taxas de investimento e de poupança permitiram a estes países um crescimento sustentado no tempo” (teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2133/tde1202201153854/publico/Rodrigo_Salgado_dissertacao_final).

Outra tese acadêmica, de Flávio Diniz Ribeiro, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, para obtenção do título de Doutor em História, sob orientação da professora Maria Amélia Mascarenhas Dantes, em 2007, “Walt Whitman Rostow e a problemática do desenvolvimento – Ideologia, política e ciência na Guerra Fria” considera Rostow “um intelectual importantíssimo para o capital num momento crucial para a expansão capitalista pós segunda Guerra Mundial e para a construção/consolidação da hegemonia norte-americana nesse processo” (teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-04072008-160534/publico/Tese_Flavio_Diniz_Ribeiro).

Jessé Souza (Como o racismo criou o Brasil, Estação Brasil, RJ, 2021) afirma: “Rostow queria que seu livro fosse lido como um substituto do Manifesto Comunista, com a diferença de que o fim da história fosse representado pelo consumo de massas como ponto final do desenvolvimento econômico. Cada vez mais, seus colegas do “Center for International Studies” (CIS), do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), passaram a refletir sobre os meios para se atingir a “modernização”, chegando, inclusive, a considerar golpes militares os reais parteiros da modernização, desde que se acomodassem à nova ordem americana”.

Como aquela perspectiva alvissareira de futuro transformou-se na distopia que vivemos no Brasil, nestes últimos anos, e que também influenciam as opções estadunidenses e europeias?

No jornal Folha de S.Paulo, sábado, 18 de setembro de 2021, estão na primeira página as seguintes notícias: “57% afirmam nunca confiar nas falas do presidente”, “Prevent omitiu 7 mortes em estudo de kit Covid”, “Para analistas, alta do IOF eleva inflação e mina economia”, “46 milhões vivem em lares sem renda do trabalho”, “Decisão de suspender vacinação de adolescentes contraria pais”, “Obra discute por que a geração millennial está à beira do esgotamento”, “Mesmos irritados, evangélicos não recorrem a Lula”, “Falta de água faz cidades de SP multarem quem lava carro e calçada”.

Quão longe do Mundo Melhor! E, em pouco mais de meio século, saímos de uma utopia para a realidade desta distopia!

Podem-se enumerar causas de diversas origens. Haverá quem diga que o consumismo, decorrente da abundância (que nunca chegou a mais do que 20% dos brasileiros), afastou o povo da religião. Também que não se conjugou a economia com a educação, embora tenha ocorrido, nestes 60 anos, inegável avanço tecnológico no Brasil e no mundo. Até quem, incrivelmente, atribua à substituição do desenvolvimento luso-brasileiro pelo anglo-saxão!

Como escrevemos recentemente (Um Estado para o Brasil, portal Pátria Latina, 17/09/2021), na última década do século passado houve grande transformação no mundo, a substituição do poder industrial pelo poder financeiro, que era urdida desde o final da I Grande Guerra.

E esta mudança não se restringiu ao mundo da economia, ela atingiu fortemente o psicossocial das sociedades, o modo como as pessoas se colocam no mundo.

Vamos refletir sobre esta modificação, o afastamento do sentido humanitário para a competição desmedida. Escreveu o professor Adriano Benayon (Globalização versus Desenvolvimento, Escrituras Editora, SP, 2005): “a tendência da competição é gerar seu contrário: a concentração” e “ao contrário do que costuma dizer, a ação direta do Estado na economia foi essencial para o desenvolvimento dos EUA”.

Temos, portanto, na pedagogia colonial usada pelo sistema financeiro, informações discordantes da realidade factual e incongruências dos objetivos com os fins verdadeiramente alcançados. A continuidade e insistência em teses falsas, contraditórias com suas manifestações visíveis, a mentira entronizada no lugar da verdade provocaram um desconcerto, no mínimo uma inquietação, sobre o que se podia esperar na sociedade, de tão contestáveis ou incompatíveis princípios, meios e resultados.

Embora as referências acadêmicas e estatísticas estimem que 1% da população seja psicopata, geralmente estes são encontrados nos níveis mais altos das organizações e suas ações, muitas vezes, causam efeito cascata por toda estrutura administrativa, levando a sua característica para a cultura corporativa (wikipedia, Psychopathy in the workplace).

As desregulações no sistema financeiro, iniciadas na década de 1980, no Reino Unido e nos EUA, trouxeram para a formalidade os capitais das drogas, dos contrabandos, das corrupções e de toda sorte de ilícitos da economia marginal.

Se era possível entender no capitalismo uma competição leal, de forças equilibradas, o que sabemos não ocorria na quase totalidade dos embates, com a entrada no sistema oficial dos capitais marginais, a astúcia e a corrupção passaram a dominá-lo. Não apenas pela falta de escrúpulo nas ações, mas pela razão de terem dinheiro a vista, “cash”, e não imobilizado em bens ou títulos de dívidas. Quem compra cocaína ou um contrabando a prazo ou sem pagar em espécie?

O que estamos vendo, desde a última década do século passado e em crescente amplitude, são consequências inteiramente opostas às que foram anunciadas como objetivos.

A desregulação dos direitos trabalhistas não acarretou mais empregos, ao contrário, escravizou os poucos que mantiveram emprego formal, este sim, em acelerada extinção.

A saída do Estado em diversas áreas produtivas apenas fez aumentar o preço do produto ou do serviço, piorar a sua qualidade, provocar danos ambientais e desnacionalizar aquele setor econômico, com perdas tributárias para as despesas nacionais.

O capital financeiro deveria ser consequência de uma função produtiva, um bem ou serviço que precisa existir, atender a demanda. Mas com a dominação econômica pelas finanças, e dentro destas o crescente domínio dos capitais ilícitos, o que se vê é dinheiro produzindo dinheiro, acima de tudo a especulação, um cassino. E uma quantidade gigantesca, sempre crescente, de papéis sem lastro produzindo crises seguidas, como desde 1987 tem ocorrido em âmbito mundial. Crises que sempre irão arruinar maiorias para concentrar renda em minorias, cada vez mais estreitas.

Tem-se hoje o absurdo de colocar como a principal atividade do Estado o pagamento de uma dívida que nunca foi auditada, exceto no Estado Novo, governado por Getúlio Vargas, e sua origem e formação deixam muitas dúvidas quanto a legalidade e o seu próprio valor. Para saudá-la, que nem é objetivo do sistema financeiro, dos “gestores de ativos”, se fixam “tetos de gastos” para todas demais despesas, tais como, a saúde, a educação, a moradia, o transporte e, mesmo, a garantia de direitos para toda população nacional; prejudicando principalmente os desvalidos, os mais pobres e desprotegidos. Mas os juros a serem pagos por esta dívida são sagrados, constam como prioridade nos orçamentos públicos, mesmo em época de pandemia.

A presença brasileira na abertura da 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, pela fala do presidente e pelo comportamento da numerosa comitiva – deste ano só perde para a da Assembleia de 2019, do próprio Bolsonaro acompanhado de 19 integrantes do governo – foi uma sucessão de falas e atos desonrosos para seres humanos, o que se dirá para representantes de um País. Entre os auxiliares que estavam em Nova York com o presidente brasileiro, nove registraram “sem compromissos oficiais” em suas agendas ou replicaram a agenda de Bolsonaro. Só o ministro do Turismo, Gilson Machado, e o do Meio Ambiente, Joaquim Pereira Leite, divulgaram compromissos oficiais paralelos à agenda do presidente. 

Perguntado por jornalistas sobre um balanço da viagem, conforme noticiou a Folha de S.Paulo (21/09/2021), Bolsonaro, em tom de crítica, falou: “olha aí a imprensa e as distorções que vocês fizeram, então tá bom” (!). O Brasil parece ser, talvez com Israel, no pensamento do Presidente, os únicos no mundo que não se submeteram ao “comunismo” ou às “esquerdas”.

Manchete de O Estado de S. Paulo, em 19 de setembro de 2021, domingo: “Universidades vivem sob tensão com escolhidos por Bolsonaro”. É somente uma ponta desta distopia, porém, parodiando a Itabira do poeta Carlos Drummond de Andrade, “são apenas manchetes de jornal, mas como doem”!

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

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