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quarta-feira, 30 setembro 2026

O golpe estava em andamento.

Uma trincheira antifascista: o depoimento do ex-comandante da Força Aérea confirma as ações para impedir a posse do presidente eleito e desmantela o discurso daqueles que hoje pedem anistia e prometem perdoar os golpistas.

Por Paulo Cannabrava Filho*

Prensa Latina – O golpe aconteceu. Estava em curso. E o governo Bolsonaro era, na prática, um governo militar, liderado por um grupo de generais instalados no Palácio do Planalto. Agora, às vésperas das eleições, quando alguns tentam negar essa realidade, pedem anistia para os golpistas e até oferecem indultos em troca de votos para Bolsonaro, surge um novo depoimento de alguém que esteve no centro dos acontecimentos.

O tenente-brigadeiro da Força Aérea Carlos de Almeida Baptista Júnior, comandante da Força Aérea no final do governo Bolsonaro, compilou suas memórias no livro *Eu Disse Não: Uma Trincheira Antifascista*, com lançamento previsto para setembro. Nele, ele relata os momentos em que foi pressionado a participar da conspiração para impedir a posse do presidente eleito e manter o grupo governista no poder.
Seu depoimento é particularmente importante porque vem de dentro das próprias Forças Armadas. Não se trata de uma interpretação de adversários políticos nem de especulação jornalística. É o comandante de um dos três ramos das Forças Armadas relatando o que testemunhou durante a conspiração.

E é preciso enfatizar: isso não foi uma piada, uma bravata ou uma simples discordância com os resultados da eleição. O golpe estava sendo orquestrado. Primeiro, o processo eleitoral e as urnas eletrônicas foram sistematicamente desacreditados. Após a derrota, tentou-se criar uma base legal e política para rejeitar os resultados da eleição. Ao mesmo tempo, esforços estavam em andamento para garantir o apoio dos comandantes militares para uma ruptura que impediria o presidente eleito de assumir o cargo.

Simultaneamente, o país testemunhou uma radicalização dos protestos de rua e a criação de uma atmosfera de caos. Houve acampamentos em frente a quartéis militares exigindo intervenção das Forças Armadas. Houve uma tentativa de detonação de uma bomba perto do aeroporto de Brasília. E, finalmente, em 8 de janeiro de 2023, ocorreu a invasão e o saque das sedes dos três poderes. A desordem poderia servir de pretexto para uma intervenção militar. Não se tratava de uma série de eventos isolados. Era uma tentativa de derrubar a ordem constitucional.

Contudo, naquele momento crucial, Bolsonaro não conseguiu o apoio necessário dos comandantes das Forças Armadas. Baptista Júnior recusou. O então comandante do Exército, General Marco Antônio Freire Gomes, também se recusou a participar da ruptura e, segundo depoimentos e documentos revelados durante as investigações, chegou a advertir Bolsonaro sobre as consequências de persistir com o golpe.

A posição do então comandante da Marinha, Almirante Almir Garnier Santos, era diferente. Testemunhos indicavam que ele estava disposto a colocar a Marinha à disposição do projeto. A resistência dos comandantes do Exército e da Força Aérea tornou-se, portanto, um obstáculo decisivo para a conclusão da cisão.

Isso também ajuda a entender a natureza do próprio governo Bolsonaro. Não se tratava simplesmente de um governo civil que havia convidado alguns militares para ocupar cargos. Os militares estavam distribuídos por toda a administração. Generais ocupavam posições centrais no Palácio do Planalto e nos ministérios; milhares de oficiais da ativa e da reserva foram incorporados ao funcionalismo público. Em áreas como o Ministério da Saúde, a presença militar tornou-se evidente. Muitos militares somavam seus soldos militares aos salários que recebiam no governo.

Era um governo militarizado até a medula.

Por isso, a publicação de *Eu Disse Não* é tão oportuna. O livro chega pouco antes das eleições e num momento em que os setores políticos tentam reescrever a história diante dos nossos olhos. Alguns candidatos defendem a anistia, enquanto outros prometem perdoar os condenados, numa clara tentativa de conquistar os apoiadores de Bolsonaro.

Conceder anistia não reconcilia o país quando sequer há reconhecimento do crime cometido. Houve uma conspiração para desconsiderar os resultados das eleições, impedir a posse do presidente eleito e romper com a ordem constitucional. Houve planejamento, coordenação política e uma tentativa de obter o apoio das Forças Armadas. E houve militares que disseram não.
Essa é, talvez, a maior importância do depoimento de Baptista Júnior. Num momento em que se tenta retratar os golpistas como vítimas e apagar a gravidade do ocorrido, um comandante militar se apresenta para dizer, de dentro do quartel: o golpe aconteceu e encontrou resistência.

A democracia brasileira sobreviveu porque houve resistência: da sociedade, das instituições e também dos militares que se recusaram a ultrapassar os limites da legalidade.

Uma democracia que esquece uma tentativa de golpe abre caminho para a próxima.

rmh/pcf

*Paulo Cannabrava Filho jornalista editor da revista virtual Diálogos do Sul Global

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