Daniel Vaz de Carvalho
1 – 2015, o ano da viragem
Ano de 2014. O mundo pertencia aos EUA. As bases e as esquadras navais “americanas” cobriam o globo. Washington ditava as regras pelas quais os países eram divididos em “comunidade internacional” e “Estados párias”. Os seus exércitos ou dos seus vassalos da OTAN, tinham vencido em múltiplos cenários: Iugoslávia, Iraque, Afeganistão, Líbia.
A Rússia era suspeita, mas o poder dos oligarcas e dos que queriam a todo o custo ser do “ocidente”, eram garantia contra impulsos de insubmissão, caso contrário havia sanções, quintas colunas ditas democráticas ou nacionalistas, etc. Quanto à China, o império estava tranquilo e impante: a convicção era que seguiria uma via idêntica à da Rússia de Ieltsin: capitalista, oligárquica, paraíso de transnacionais, em suma: democrática. Caso contrário: sanções, revoluções coloridas (Hong Kong), nacionalismos (Tibete, iugures).
Em 2014, com uma “revolução colorida” em Kiev, os EUA colocaram aí um seu homem e atingiam a fronteira russa, fazendo no xadrez geopolítico xeque à Rússia. Mas a Rússia tinha peças e sabedoria bastante para não perder o jogo. A Crimeia foi reincorporada na Rússia mediante um referendo (processo que tinha servido para os EUA usurparem o Kosovo à Sérvia e aí instalarem a maior base naval do Mediterrâneo). As regiões do Donbass não aceitaram o golpe anticonstitucional (para a mídia “revolução colorida” pró-democracia) e lutaram derrotando os batalhões “nacionalistas” (forma como os neonazistas ucranianos são qualificados pela mídia).
Os EUA terem perdido o que perspectivavam como seu – a base de Sebastopol, na Crimeia – configurava um crime de lesa majestade. Mais grave iria acontecer em 2015 na Síria, a Rússia atreveu-se a ir defender Bachar-al-Assad, declarado pelo ocidente tirano e vetar uma moção no CS da ONU para a sua destituição, que conduziria a Síria e ele ao destino “democrático” da Líbia e de Kahdafi.
Em 2018, Putin fez um discurso em que, procurando um relacionamento em pé de igualdade com os países do ocidente, referiu-se às novas armas hipersónicas russas. O discurso foi assumido como bravata, propaganda para consumo interno e uma prova do temor que o poder dos EUA/OTAN lhe infundia. Era, contudo, um país rebelde que, embora considerado economicamente desprezável no contexto mundial tinha armas nucleares, era preciso meter na “ordem baseada em regras”. Solução: mais sanções e mais Ucrânia que entraria para a UE e a OTAN, evidentemente com bases EUA de potencial nuclear.
Que a população ucraniana queria relações pacíficas com a Rússia era evidente, caso contrário Zelensky não teria sido eleito. Mas o guião do comediante era uma rábula escrita em Washington e Langley. Os ataques ao Donbas intensificaram-se e no início de 2022, Zelensky reivindicava armas nucleares (a Ucrânia soviética tivera-as). A Rússia interveio de seguida, consagrando a viragem geopolítica que vinha sendo desenhada.
Sobre a guerra propriamente dita não há muito a dizer: a Ucrânia sofre perdas militares devastadoras e não tem uma força de reserva treinada para entrar em ação; não tem nem reservas de equipamentos terrestres (tanques, artilharia, mísseis) nem meios aéreos de combate.

Em 28 de julho, escrevia Scott Ritter: a contraofensiva ucraniana formada em torno de uma força central de cerca de 60 000 soldados ucranianos que receberam treino especial da OTAN e de militares europeus, dispondo de armas e táticas projetadas para derrotar as defesas russas, fracassou. Desde que a contraofensiva começou, em 8 de junho, a Ucrânia perdeu quase metade dessas tropas e um terço do equipamento fornecido – incluindo dezenas dos principais tanques Leopard e veículos de combate de infantaria Bradley, vistos por muitos como tecnologia revolucionária.
O ex-veterano da CIA, Larry Johnson, diz-nos: já em 2018, se podia ver que era improvável que a estratégia dos EUA para lidar com a Rússia fosse bem-sucedida. 1) Os Estados Unidos careciam das fábricas necessárias para uma guerra industrial; 2) Os Estados Unidos careciam de armas avançadas para combater os hipersónicos da Rússia; 3) A aplicação de sanções iria mostrar-se contraproducente. Os EUA deveriam ter uma estratégia alternativa (Plano B), mas nenhum plano parece estar disponível. Os EUA seguiram com o seu Plano A, com o resultado de que não apenas falhou em afundar a Rússia, mas também arruinou qualquer hipótese de um Plano B realista. Os EUA enfrentam agora outro desastre militar na Ucrânia, uma Rússia ressurgente, um ambiente doméstico americano em colapso e um Leste e Sul globais deixando o ocidente para trás. Para piorar a situação, pode-se dizer que não há nenhuma alternativa publicamente a ser considerada que possa funcionar.
Os EUA/OTAN enfrentam, portanto, um dilema – uma situação que não previram de forma alguma – ou fazer concessões à Rússia ou intervir diretamente na Ucrânia, mesmo que seja através da Polónia, Estados Bálticos, Roménia, iniciando uma guerra total entre a OTAN e a Rússia, em que o confronto nuclear se tomaria iminente.
Há ainda a questão do Mar Negro, cuja parte central, leste e norte está controlada pela Rússia, situação que representa uma derrota geoestratégica dos EUA para a sua presença na Ásia Central e pressão sobre a Rússia. Com a sua arrogância e vigarices (acordo sobre os cereais) os EUA/OTAN colocaram-se também aqui na situação de ceder ou enfrentar o poder naval da Rússia e os hipersónicos Kinzhal contra alvos navais, para os quais a OTAN não tem defesa.
2 – A luta geopolítica em curso envolve todo o Globo
A guerra na Ucrânia veio mostrar as fragilidades do ocidente perante a Rússia. As outras nações vêm a superioridade do armamento russo face às “armas maravilha” dos EUA/OTAN e o ridículo de uma propaganda constantemente negada pela realidade. Veem ainda a fragilidade do dólar e as crises económica, financeira e social dos países da UE/OTAN. As bravatas de que a economia russa seria “reduzida a escombros” em resultado das sanções, caíram no descrédito perante o resto do mundo – algo que a mídia teima em não reconhecer.

Pelo contrário, de acordo com dados do Banco Mundial a Rússia passou a estar entre as cinco maiores economias do mundo e a maior da Europa, em termos PPP. A China é a maior economia do mundo, seguida pelos EUA, Índia e Japão. Na Rússia o rendimento individual voltou a crescer e empresas russas substituem as transnacionais. O comércio com países que não seguem as sanções do ocidente aumentou várias vezes. Nas novas regiões russas do Donbass, Kherson e Zaporozhye a reconstrução prossegue. (Ukraine Watch, 16/06) A Alemanha ficou fora das cinco maiores economias do mundo, cedendo perante a Rússia, enquanto a França e o Reino Unido caíram para o 9º e 10º lugar, respetivamente. A Ucrânia, 38ª em 2012, caiu para o 50º lugar. (Ucrânia Watch, 25/08)
Os EUA, falharam a guerra econômica e a financeira e estão a perder militarmente na Ucrânia. A “bomba atómica” das sanções contra a Rússia afundou a economia da UE/OTAN. A Rússia desenvolveu sistemas financeiros alternativos e conduziu um consistente programa de substituição de importações. Quanto ao armamento supostamente mais sofisticado da OTAN, é destruído na Ucrânia, levando ao seu descrédito para exportação.
A guerra na Ucrânia evidencia perante o mundo que o “império vai nu”. O ex-embaixador britânico Alastair Crooke escreve: “A Ucrânia serviu como solvente para a velha ordem e tornou-se uma pedra pendurada ao pescoço da Administração Biden: como transformar o iminente desastre da Ucrânia em “missão cumprida”. Isso pode ser feito? Em suma, a “guerra de Biden” não pode continuar como está, mas também não a podem fazer de “outra maneira” sem enfrentar humilhação. O mito do poder americano, da competência da OTAN e a reputação do armamento americano estão em jogo”.
Ásia, África, América Latina, o ocidente confronta-se com a concorrência geopolítica da aliança China-Rússia. Quatro em cinco países da Ásia Central – excetua-se o Turcomenistão – são membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCS): Cazaquistão, Usbequistão, Quirguistão e Tajiquistão e podem tornar-se membros do BRICS.
Da Ásia Central à África diplomatas e empresários russos percorrem os países. Os presidentes de todos os cinco países da Ásia Central estiveram na Praça Vermelha no Dia da Vitória em maio. Independentemente de cavilosa propaganda, a Rússia reuniu em Moscou 49 dos 54 países africanos. Em junho, realizou-se em Pequim um Fórum Internacional sobre o tema “Cooperação internacional e governação global de direitos humanos”. Participaram mais de 300 personalidades representando 100 países.
Mas o que poderá ser o xeque-mate ao imperialismo vem da expansão dos BRICS e dos princípios definidos na Cimeira de Joanesburgo. Os BRICS movem-se no sentido da desdolarização, orientando-se para a utilização de moedas locais e sistemas de pagamentos alternativos. O Presidente do Quénia, William Ruto, pede às nações africanas para usarem as moedas locais no comércio intercontinental em vez do dólar.
A Cimeira incumbiu os ministros das Finanças e/ou governadores dos Bancos Centrais, de analisarem questões como as moedas locais, instrumentos de pagamento e plataformas financeiras, apresentando um relatório até a próxima Cimeira. O SWIFT, tornado uma ferramenta de ameaças e chantagem contra qualquer país, deixará de ser um perigo existencial.
Os países dos BRICS procuram, portanto, estabelecer mecanismos para saírem de uma ordem mundial que apenas serve os interesses dos ultraricos do ocidente. É espantoso como a mídia praticamente ignoraram tudo isto, embora 40 países manifestassem interesse em aderir aos BRICS tendo 23 deles apresentado formalmente candidaturas.




