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Postado em 21/11/2021 8:12

O esquerdismo, estado supremo do imperialismo (2)

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A ‘ajuda’ dos EUA.

Bruno Guigue [*]

A crise no na Venezuela tende a fazer as pessoas esquecerem, mas o chavismo foi apoiado por um poderoso movimento social que está longe de ter desaparecido. Desde a primeira eleição de Chávez, em 1998, ele lutou contra os preconceitos raciais e de classe. Reduziu dramaticamente a pobreza e o analfabetismo. Nacionalizando o petróleo, restaurou o controlo dos recursos naturais para a nação. Alterando a política externa do país, rompeu com Israel, constituiu a aliança bolivariana e desafiou o Tio Sam no seio de seu “quintal” sul-americano. Aprovado pelo povo venezuelano, o chavismo abalou a desordem secular da América Latina em proveito das multinacionais norte-americanas e da burguesia racista. Claro que a revolução bolivariana não erradicou todos os males da sociedade venezuelana da noite para o dia e traz consigo a sua quota de erros e imperfeições.

Usou o maná do petróleo para tirar da pobreza as camadas sociais mais desfavorecidas, mas desistiu de transformar as profundas estruturas sociais do país. Uma nova burguesia aproveitou a sua proximidade com o poder para capturar benefícios e consolidar privilégios. Pior ainda, a economia está nas mãos de uma burguesia reacionária que organiza a sabotagem para intensificar a crise e tirar Maduro do poder. Mas de qualquer forma, a revolução bolivariana não tinha revolução só no nome, por isso só poderia desencadear o ódio vingativo dos ricos e despertar a hostilidade mortal de seus oponentes. Quando a esquerda ocidental se indigna com as – alegadas – vítimas da repressão policial em vez das operações sangrentas da ultradireita, esquece que um protesto de rua nem sempre é progressista, que uma exigência democrática pode servir de cartaz para a reação e uma greve pode contribuir para a desestabilização de um governo de esquerda, como demonstrou o movimento camionista chileno em 1973.

A lição foi esquecida pela esquerda aburguesada dos países ricos, mas os verdadeiros progressistas latino-americanos sabem disso: se nós queremos mudar o curso das coisas, devemos agir sobre as estruturas. Nacionalização de setores-chave, rejeição das receitas neoliberais, restauração da independência nacional, consolidação de uma aliança internacional de Estados soberanos, mobilização popular para uma melhor distribuição da riqueza, educação e saúde para todos, são as diferentes facetas do projeto progressista.

Ao contrário do que afirma uma ideologia que recicla as velhas loas da social-democracia, não é o radicalismo que condena o projeto à derrota, mas o medo de assumi-lo. Uma revolução raramente perece por excesso de comunismo, mas muito mais frequentemente, pela sua incapacidade de conduzi-lo. Assim que ataca os interesses geopolíticos e geoeconómicos das potências dominantes, o projeto progressista cruza a linha vermelha. Uma vez ultrapassado, qualquer imprudência pode tornar-se fatal. O imperialismo e seus implementadores locais não oferecem brindes. Franco não deu nenhuma oportunidade à República Espanhola (1936), nem a CIA a Mossadegh (1953), nem Mobutu a Lumumba (1961), nem Suharto a Sukarno (1965). Allende cometeu o trágico erro de nomear Pinochet para o Ministério da Defesa e Chávez deveu sua salvação em 2002 à lealdade da guarda presidencial.

Não basta estar ao lado do povo, devemos proporcionar-nos os meios para não perdê-lo, deixando que nossos inimigos ganhem a vantagem. Como disse Pascal, não basta que a justiça seja justa, ela também deve ser forte. Tantas questões para as quais a esquerda ocidental finge não entender nada. Pseudo-internacionalista, recusa-se a ver que o respeito pela soberania dos Estados não é uma questão acessória e que é a principal reivindicação dos povos diante das reivindicações hegemónicas de um ocidente em vassalagem perante Washington. Pretende ignorar que a ideologia dos direitos humanos serve de cortina para o intervencionismo ocidental, principalmente interessado em hidrocarbonetos e riqueza mineral.

Faz campanha pelas minorias oprimidas em todo o mundo, sem perguntar por que algumas são mais visíveis do que outras. Prefere os curdos sírios aos sírios, simplesmente por serem minoria, sem ver que essa preferência serve a instrumentalização por Washington e endossa o desmembramento da Síria de acordo com o projeto neocon.

Procuraremos por muito tempo na literatura da esquerda ocidental, artigos que expliquem por que em Cuba, apesar do bloqueio, a mortalidade infantil é menor que a dos Estados Unidos, a expectativa de vida é a de um país desenvolvido, a alfabetização é de 98% e há 48% de mulheres na Assembleia do Poder Popular. Nunca leremos por que Kerala, este estado de 34 milhões de pessoas governado pelos comunistas e seus aliados desde a década de 1950, tem de longe o maior índice de desenvolvimento humano na Índia, e por que as mulheres desempenham um papel social e político de liderança. As experiências de transformação social realizadas longe dos holofotes, em países exóticos dificilmente interessam a esses progressistas fascinados pela escória televisiva.

Movida pela moral, intoxicada pelo formalismo pequeno-burguês, a esquerda ocidental assina petições e lança anátemas contra chefes de Estado que têm o infeliz hábito de defender a soberania dos seus países. Este maniqueísmo elimina a dolorosa tarefa de analisar cada situação concreta e de olhar além da ponta do nariz. Age como se o mundo fosse um, homogéneo, atravessado pelas mesmas ideias, como se todas as sociedades obedecessem aos mesmos princípios antropológicos, evoluindo segundo os mesmos ritmos. Ela prontamente confunde o direito dos povos à autodeterminação com o dever dos Estados cumprirem as exigências do ocidente que se apresenta como juiz supremo.

No drama sírio, este tropismo neocolonial levou a extrema esquerda a desviar-se pateticamente. Praticando a negação da realidade, engoliu avidamente a falsa versão dos media ocidentais. Baseou-se em fontes questionáveis cujos números não verificáveis e afirmações gratuitas repetiu continuamente. Disciplinadamente, acreditou na narração ridícula do carniceiro-de-Damasco-que-massacra-seu-povo. Acreditou sem pestanejar na mentira do ataque químico como engoliu a mistela onusiana do Sr. Powell. Caiu na armadilha da propaganda humanitária que descaradamente faz a triagem entre as boas e as más vítimas.

A espantosa cegueira desta esquerda (como a) francesa deve-se, antes de mais, à sua postura moral indecifrável. Uma grelha de leitura maniqueísta entorpeceu a sua mente crítica, isolou-a do mundo real. Desesperada para identificar os bons (rebeldes) e o mau (Assad), recusou-se a entender um processo que ocorre noutro lugar que não no limbo das suas ideias. Quando se designam os protagonistas de uma dada situação histórica usando categorias como bem e mal, descartamos toda racionalidade. Certamente podemos ter preferências, mas quando essas preferências inibem o pensamento crítico, deixam de ser preferências, são inibições mentais.

A segunda razão para esta cegueira decorre de uma falta abissal de análise política. Essa esquerda radical não quis ver que o equilíbrio de poder na Síria não era aquilo em que acreditava. Reconstruiu a narrativa dos eventos como achou por bem dar forma à fantasia de uma revolução árabe generalizada que varreria o regime de Damasco como havia varrido outros, ignorando precisamente o que tornava única a situação síria. Aqueles que se orgulham de conhecer os clássicos deveriam ter aplicado a fórmula com a qual Lenine definiu o marxismo: “a análise concreta de uma situação concreta”. Em vez de se submeter a esse exercício de humildade diante da realidade, a extrema esquerda ocidental acreditou ver o que tinha vontade de ver.

Abusando da sua própria retórica, apostava numa onda revolucionária que varreria tudo no seu caminho, como na Tunísia e no Egito. Ruim escolha. Privada de uma base social consistente no país, a gloriosa “revolução síria” não estava próxima. Uma verdadeira farsa sangrenta, uma invasão de desesperados tomou seu lugar. Esta invasão do berço da civilização por hordas de gente sem cérebro tomou o lugar, na imaginação esquerdista, de uma revolução proletária.

O movimento trotskista não queria ver que as manifestações populares mais marcantes de 2011 foram a favor de Bashar Al-Assad. Desdenhosamente rejeitou a posição do Partido Comunista Sírio, que se aliou ao governo na defesa da nação síria contra seus agressores. Empurrando a negação da realidade para as fronteiras do absurdo, este esquerdismo declarou-se solidário, até ao fim, com uma “revolução síria” que existia apenas na sua imaginação. O secretário-geral do Partido Comunista Sírio, Ammar Bagdash, respondeu antecipadamente em 2013: “Na Síria, ao contrário do Iraque e da Líbia, sempre houve uma forte aliança nacional. Os comunistas trabalham com o governo desde 1966, sem interrupção. A Síria não poderia ter resistido confiando apenas nos militares. Ela resistiu porque pôde contar com uma base popular. Além disso, contou com a aliança do Irão, da China, da Rússia. E se a Síria continuar de pé, “tronos” cairão porque ficará claro que existem outras vias. A nossa luta é internacionalista. Disse-me um especialista russo: o papel da Síria é como o da Espanha contra o fascismo”.

Teste cruel para o esquerdismo europeu. Para analisar a situação síria, um comunista sírio que contribui para a defesa de seu país será sempre melhor do que um esquerdista francês que fantasia a revolução num bar do Quartier Latin. Incapaz de compreender o que se passa no local, a extrema esquerda é vítima de um teatro de sombras para o qual escreveu um guião imaginário. Não ouviu o que os marxistas locais estavam a dizer-lhe, representou a revolução por procuração, sem perceber que essa revolução só existia nos seus sonhos. Visto que o mito da oposição democrática e não violenta tinha que ser preservado, o relato dos eventos foi expurgado de qualquer coisa que pudesse alterar sua pureza. A violência dos ativistas wahhabistas foi mascarada com um dilúvio de propaganda. As provas do terrorismo, uma explosão de ódio, verdadeira face dessa falsa revolução, foi apagada dos ecrãs.

Da mesma forma, essa esquerda bem pensante desviou hipocritamente o olhar quando os fogos da guerra civil foram atiçados por uma avalanche de dólares das petromonarquias. Pior ainda, fez vista grossa à perversidade das potências ocidentais que apostaram na escalada do conflito incentivando a militarização da oposição, enquanto uma imprensa recebendo ordens profetizava com alegria a queda iminente do “regime sírio”. Sem vergonha, esta esquerda decalcou a sua leitura parcial do conflito sobre a agenda da NATO de “mudança de regime” exigida pelos neocons.

Enquanto se autodenominava anticolonialista, deixou-se arregimentar por um imperialismo determinado a causar o caos num dos poucos países árabes não comprometido com o ocupante sionista. A história lembrará que a esquerda radical serviu de respaldo à NATO na tentativa de destruir um Estado soberano sob o falso pretexto dos direitos humanos. Mas é verdade que ao movimento trotskista nunca têm faltado argumentos.

Para o académico Gilbert Achcar, a causa é compreendida seguindo o “roteiro” da Guerra Fria, o novo roteiro consiste em apoiar “qualquer regime que seja objeto de hostilidade de Washington”. A lógica era:   “o inimigo do meu amigo (a URSS) é meu inimigo”; o novo roteiro é:   “o inimigo do meu inimigo (os Estados Unidos) é meu amigo”. Segundo ele, uma receita para o “cinismo sem limites”, esta atitude política “centrada exclusivamente no ódio ao governo dos Estados Unidos”. Pior, isso levaria a “oposição sistemática a qualquer coisa que Washington faça no cenário mundial e levaria a um apoio crítico para regimes totalmente reacionários e não democráticos, como o sinistro governo capitalista e imperialista da Rússia (imperialista de acordo com todas as definições do termo)”.

Gostaríamos de conhecer essas “definições” de imperialismo, mas nunca o saberemos. A Rússia não invade nenhum território estrangeiro, não impõe a outros Estados nenhum embargo, não pratica nenhuma “mudança de regime”. O orçamento militar da Rússia é 8% do da NATO. A Rússia tem quatro bases militares no exterior, enquanto os EUA têm 725. O retorno da Crimeia ao regaço russo não é mais chocante do que a adesão do Havai aos Estados Unidos ou a adesão de Mayotte à França. Mas é diante da tragédia síria que Gilbert Achcar exala a sua hostilidade para com Moscovo.

A intervenção russa, de facto, prestou uma ajuda inestimável ao Estado sírio na reconquista do território nacional às milícias extremistas apoiadas pelos países da NATO. A acusação não comprovada contra a Rússia é então acompanhada, de forma bastante lógica, por uma absolvição dos Estados Unidos: “Washington manteve-se discreto na guerra na Síria, apenas intensificando a sua intervenção quando o chamado Estado Islâmico lançou uma grande ofensiva e cruzou a fronteira com o Iraque, após a qual Washington limitou sua intervenção direta na luta contra o ISIS”.

Perfil discreto dos Estados Unidos na guerra na Síria? Obviamente, Gilbert Achcar nunca ouviu falar dos (falsos) “Amigos da Síria”, do plano de Wolfowitz de pulverizar o Médio Oriente em entidades religiosas, da operação “Timber Sycamore”, dos milhares de milhões de dólares pagos à nebulosa jihadista via CIA, das entregas de armas por países ocidentais a milícias extremistas e o embargo infligido ao povo sírio, privado de medicamentos por democracias corajosas que escoam o seu material de guerra para os reis do petróleo.

Pior ainda, lemos nos escritos do académico de esquerda que “a influência mais decisiva de Washington na guerra na Síria não foi a sua intervenção direta – de importância primária apenas para os “novos roteiristas”, focados exclusivamente no imperialismo ocidental – mas sim proibindo os seus aliados regionais de entregarem armas antiaéreas aos rebeldes sírios, principalmente devido à oposição de Israel”.

Portanto, o papel de Washington, sob a influência benéfica de Israel, foi privar esses pobres rebeldes de armas antiaéreas que teriam permitido lutar contra o exército de Bashar Al-Assad. É preciso realmente estar obcecado pelo “imperialismo ocidental”, que o autor coloca entre aspas, para imaginar que os Estados Unidos têm algo a ver com a guerra na Síria. De facto, Gilbert Achcar transpõe para o caso americano a tese absurda do estudioso pró-islamista François Burgat a respeito das petromonarquias: elas não desempenharam nenhum papel no drama sírio, é bem conhecido. Quanto ao papel de Israel, único Estado a bombardear a Síria continuamente desde 2012, Achcar apenas o menciona para ilibá-lo.

Com tais suposições, não é surpreendente que a maioria das organizações de esquerda tenha feito campanha pela “revolução síria”, apoiando entusiasticamente uma oposição fantoche paga pelos Estados Unidos, exigiram entregas de armas antiaéreas aos “simpáticos rebeldes”, imploraram à NATO para bombardear a Síria com mísseis, reprovaram os governos ocidentais por não terem destruído o legítimo Estado sírio, gritaram contra a Rússia, China e Irão, claramente culpados a seus olhos, por defenderem um Estado soberano atacado por hordas de mercenários lobotomizados.

Se insistimos no caso da Síria, é por destacar o colapso de uma esquerda que às vezes se afirma “comunista”, embora atenda aos desejos de seus piores inimigos. Tal como Trotsky pedindo a “liquidação” do grupo dominante soviético em 1939, esta esquerda pseudo-revolucionária serviu os interesses imperialistas com dedicação inabalável. Influente em alguns meios de comunicação, espalhou uma falsa imagem dos Estados e governos visados por Washington. Em 2020, bastou o secretário de Estado dos EUA acusar o governo chinês de “genocídio” em Xinjiang para o Liberation publicar na primeira página: “Em Xinjiang, genocídio em andamento”.

A submissão desta chamada imprensa livre à agenda imperialista atingiu níveis sem precedentes. Liderada por ex-esquerdistas, ela analisa todos os governos que desagradam a Washington por meio de uma jurisdição de direitos humanos cujas regras são definidas pelo Congresso dos Estados Unidos. A demonização de Hugo Chávez, Nicolas Maduro, Daniel Ortega e Evo Morales coexiste com a de Xi Jinping, Vladimir Putine, Bashar Al-Assad e Kim Jong-un, todos culpados de defenderem a soberania dos seus países. Basta imputar-lhes uma violência real ou imaginária contra oponentes ou jornalistas para torná-los tiranos impiedosos e sem princípios, incorrendo na ira vingativa do mundo livre e do seu braço armado, os EUA.

Nesta configuração ideológica, o imperialismo toma como pretexto a defesa dos direitos humanos para desestabilizar os Estados recalcitrantes. A ideologia esquerdista assume a função de cobrir essa ingerência com vestes progressistas.

[*] Analista político e autor de vários livros, com mestrados em filosofia e em geopolítica. Em 2008, o ministro do Interior demitiu-o do cargo de sub-prefeito depois de ter publicado numa tribuna livre críticas à política israelense. Atualmente ensina filosofia num liceu.

O original encontra-se em www.legrandsoir.info/le-gauchisme-stade-supreme-de-l-imperialisme.html

Este artigo encontra-se em resistir.info

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