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sábado, 20 julho, 2024

O chavismo, a esquerda pequeno-burguesa e a luta revolucionária

Venezuela – Diário Liberdade – [Alejandro Acosta] Às vésperas das eleições nacionais que acontecerão no dia 6 de dezembro na Venezuela, a campanha da direita pró-imperialista está esquentando.

Foto: Télam

A Administração Obama tem focado os esforços na tentativa de estabilizar o Oriente Médio, perante as eleições nacionais que acontecerão nos Estados Unidos no próximo ano. Por esse motivo, o golpismo na América Latina tem sido desescalado, mas de maneira alguma tem sido eliminado. As engrenagens golpistas continuam em movimento, mas em velocidade de cruzeiro, sem a histeria do ano passado ou do primeiro semestre deste ano. 

A direita apertou a propaganda antichavista e a esquerda pequeno-burguesa, que representa os interesses das camadas médias da sociedade, começou a repetir, que nem papagaio, os mantras direitistas.

Recentemente, um dos deputados mais esquerdistas do Psol, o ex-BBB Jean Wyllys, se especializou em defender abertamente o golpismo antichavista. Entre outras várias pérolas: “Maduro expressa seu desprezo pela democracia e pelas liberdades democráticas”.

A limitação principal do chavismo não está na “falta de democracia” e “liberdade”. Esse é o discurso da direita.

Qual é o caráter de classe do chavismo?

Hugo Chávez é um elemento de extração militar e ligado ao Estado burguês, um representante do nacionalismo burguês, embora ele mesmo seja um elemento da pequena burguesia.

Os setores da burguesia nacional obtêm lucros da exploração dos recursos nacionais e, por esse motivo, têm contradições com o imperialismo. Para enfrentar essa força poderosa, o imperialismo, fazem algumas concessões às massas com o objetivo de usá-las como massa de manobra para os próprios interesses. Devido ao temor à organização independente das massas, o nacionalismo burguês nunca é consequente na luta contra o imperialismo e tende a buscar acordos.

Nicolás Maduro, apesar da extração operária, é um representante do chavismo, um movimento nacionalista burguês que não tem na base os sindicatos ou as lutas operárias independentes, mas no movimento nacionalista surgido do exército. Uma avaliação similar também se aplicaria para os governos Kirchner, de Rafael Correa, de Humala, de Mujica e Tabaré Vázquez, de Michele Bachelet, de Humberto Ortega e os demais governos nacionalistas burgueses latino-americanos.

Diferentemente de Chávez, Lula (em 1989) era um candidato operário, surgido das lutas dos metalúrgicos do ABC e, nesse sentido, fazia, objetivamente, a luta pela formação de um partido independente avançar. A campanha de 1989 de Lula foi uma campanha proletária e da pequena burguesia de esquerda. Lula teve grande votação nas fábricas. Os trabalhadores que levavam adiante uma luta sindical e política contra a burguesia tomaram a candidatura Lula como um instrumento da sua luta, embora apenas servisse de maneira muito limitada e parcial. Como o próprio Lula declarou anos mais tarde, se ele tivesse vencido em 1989 teria havido duas opções, ou um golpe de estado ou o avanço no sentido da revolução. O governo do PT de 2003 foi fruto de um acordo com a direita e o imperialismo.

A esquerda pequeno-burguesa e a “democracia”

A campanha da direita propaga que as eleições na Venezuela seriam, supostamente, antidemocráticas. A democracia somente existiria nos países imperialistas. Jean Wyllys, ecoando a direita, chegou a declarar: “Pode chorar. O símbolo capitalista opressor está se tornando cada vez menos opressor das liberdades individuais”.

Na realidade, se houve alguém que ganhou eleições, na Venezuela e no mundo, esse foi Hugo Chávez. E mais transparência que nas eleições venezuelanas é quase impossível. Nas eleições que a direita tentou boicotar após a morte de Chávez, foram recontados muitos mais votos do que a lei contemplava. Nas seguintes eleições locais, a diferença se alargou bastante e mais ainda nas municipais. O repúdio da direita na Venezuela é grande.

Chávez não precisou do BBB para ganhar as eleições. Ele encabeçou a luta contra o regime neoliberal em colapso na década de 1990.

A propaganda do imperialismo, que sempre esteve de olho no petróleo venezuelano, é assimilada em cheio pela esquerda pequeno-burguesa (aquela que representa os interesses das classes médias). O fracassado golpe de Estado de 2002 e o fracassado lockout (greve patronal) de 2003 na PDVSA jogaram a direita numa crise da qual não tem conseguido se recuperar até hoje.

As críticas ao governo chavista para terem um caráter revolucionário devem ser direcionadas aos aspectos negativos, às limitações do chavismo. Os pontos fracos do chavismo passam pelo não rompimento com o imperialismo e pelo controle da organização independente das massas por meio dos programas sociais, que consomem 40% do orçamento público (para desespero da direita), e são assistencialistas. As políticas econômicas são muito frágeis e mantêm a dependência dos monopólios. O chavismo sempre pagou a corrupta dívida pública sem mais. A dependência do petróleo é absoluta. As importações ameaçam fazer o país entrar em colapso.

Os verdadeiros socialistas nunca devem repetir a crítica da direita que, principalmente na Venezuela, está ligada por cordão umbilical aos interesses do imperialismo: I) que “o chavismo não é democrático”; II) que “a RCTV não teve a concessão renovada”; III) que “não há liberdade na Venezuela”; IV) pior ainda, que “não há liberdade de imprensa”; V) que “o Leopoldo López é um coitadinho encarcerado”; VI) que “o chavismo é comunista”. Além de outras imbecilidades imperialistas parecidas.

O chavismo e a direita

Jean Wyllys escreveu: “O que me espanta, por isso, é o esquematismo de parte da esquerda (e digo isso como militante e deputado de um partido de esquerda), que divide o mundo em bons e maus, amigos e inimigos, e acha que a retórica anti-imperialista de Maduro é suficiente para estar ao lado dele, sem levar em consideração situações graves como o culto à figura do líder, que lembra os totalitarismos do século XX, a militarização da sociedade, com milícias ‘bolivarianas’ armadas pelo Estado que respondem ao partido, a repressão aos estudantes (tão ou mais violenta que a que nós do PSOL denunciamos quando ocorre no Brasil), a prisão de dirigentes da oposição (já tem até um promotor do Ministério Público venezuelano exilado, que denuncia ter sido pressionado para inventar provas contra um dirigente da oposição hoje preso) e uma lógica política autoritária que identifica como ‘inimigo da pátria’ todo aquele que se opõe ao governo.”

A esquerda pequeno-burguesa é uma grande apaixonada pela “liberdade” e a “democracia” em abstrato, isto é, a liberdade e a democracia imperialista.

Para a esquerda pequeno-burguesa (aquela que representa os interesses das camadas médias da sociedade), os Estados Unidos, a Alemanha, a França e a Inglaterra, entre outros, seriam democráticos porque respeitam os direitos das mulheres, dos homossexuais. Os governos nacionalistas burgueses seriam antidemocráticos: chavistas, Rafael Correa, Evo Morales, PT. Nem falar da Irmandade Muçulmana, que não gostava de homossexuais. 
A análise, a concepção do mundo, dessa esquerda, é moral. A visão dos interesses das classes sociais envolvidas é igual a zero. Não há uma única palavra sobre imperialismo, sobre a farsa da democracia burguesa, sobre a NSA (agência nacional de segurança norte-americana), sobre a cada vez mais brutal exploração capitalista, sobre o ultraparasitismo financeiro, sobre o Estado policialesco etc. E o que falar ainda sobre o Brasil? Sobre a Rede Globo? Sobre esse verniz democrático que encobre a “nossa” brutal ditadura?

Ao analisar os interesses materiais das forças políticas envolvidas na Venezuela, vemos que, os chavistas, para se manterem no poder, repassam 40% do orçamento estatal aos programas sociais. Os recursos vêm do petróleo e é exatamente isso o que está em jogo. A direita, unificada na MUD, é ligada aos Estados Unidos, sendo que a extrema-direita (Leopoldo López e outros) é ligada ao Tea Party, a extrema-direita norte-americana. Essa direita quer entregar de bandeja a PDVSA (a empresa estatal de petróleo) para os monopólios. O modelo a seguir seria o México.

Qual liberdade de imprensa?

Jean Wyllys declarou: [Na Venezuela], “há eleições periódicas e funcionam lá jornais e canais de televisão oposicionistas. Contudo, essa liberdade foi ameaçada mais de uma vez pelo governo, por exemplo quando ordenou cortar o sinal do canal de notícias colombiano NT24 e anunciou que poderia expulsar do país os repórteres da CNN e cancelar as licenças da emissora, ou quando usa a televisão pública para difamar opositores e promover o ódio, como foi feito contra o ex-candidato presidencial Henrique Capriles”

A rede televisiva RCTV tinha se envolvido diretamente no golpe de 2002 contra Hugo Chávez. Henrique Capriles esteve envolvido no golpe de 2002 e no lockout da PDVSA. Ele é ligado ao Partido Republicano, apesar de que comparado com Leopoldo López, podemos dizer que ele é um esquerdista. A família de Capriles controla uma parte importante da imprensa pró-norte-americana.

Leopoldo López já é um fascista, ligado ao Tea Party, a extrema-direita norte-americana. Ele esteve envolvido diretamente em operações contra o governo. Foi preso e, posteriormente, anistiado por Chávez. E novamente preso há um ano e pouco. Na realidade, de tão reacionário, nem o Capriles tem boas relações com ele.

Sobre a imprensa é preciso lembrar a questão das concessões. Apesar de algumas famílias, ligadas aos monopólios, considerarem essas concessões como propriedade, elas são prerrogativas do Estado que pode concedê-las, renová-las ou não. A tal “liberdade de imprensa” não passa da liberdade dos capitalistas comprarem tudo. E mais ainda no Brasil, onde a grande imprensa é grotescamente nojenta.

A política dos verdadeiros socialistas não pode levantar a bandeira da liberdade de imprensa para os capitalistas como o faz a esquerda pequeno-burguesa. A bandeira revolucionária é a da estatização total da imprensa, o controle dos trabalhadores, a divisão dos tempos na imprensa eletrônica entre as organizações sociais, pelo fim dos repasses de recursos públicos para os capitalistas, pelo fim do monopólio do papel etc.

A crise capitalista e a oposição de esquerda ao chavismo

O aprofundamento da crise capitalista alterou em termos quantitativos as relações do chavismo com a burguesia nacional e com as massas. O racha na base do chavismo foi impulsionado pelo imperialismo sobre setores que com os quais se aproxima por serem contrários aos repasses gigantescos para os programas sociais. Já a direita, o que teria a oferecer além da entrega da PDVSA aos vampiros capitalistas?

O racha no chavismo não tem na base o repúdio popular que estaria buscando um governo “moderno”, “neoliberal”. Esse racha passa, em primeiro lugar, pela política geral do governo norte-americano que busca rachar a base eleitoral de todos os governos latino-americanos de cunho nacionalista. Essa política fica ainda mais evidente no caso do PT/PMDB no Brasil ou do kirchnerismo na Argentina, os dois países mais importantes da América do Sul.

As questões colocados são: 1- Reduzir o repasse para os programas sociais, os subsídios ao consumo de petróleo (US$1= 50 litros de gasolina) e outros. Direcionar esses recursos para investimentos na PDVSA, pagar a dívida pública etc. O efeito colateral é a escalada do descontentamento social. E deve-se considerar que parte da população se armou em 2002 para enfrentar o golpe de Estado que acabou fracassando. Essa é a política do setor do chavismo que se aproxima do imperialismo. 2- Entregar tudo em bandeja para o imperialismo. Essa é a política da direita. 3- Manter tudo como está. É o que o governo tenta fazer, devido ao temor das massas, mas enfrenta muitas dificuldades por causa dos preços do petróleo.

As massas apoiam o chavismo, por causa dos programas sociais. O “engessamento” é grande, tanto no PSUV (Partido Socialista Unido), como nos sindicatos, nas organizações sociais e nas Misiones. As massas são práticas e querem resultados materiais imediatos. Não gostam das conversas típicas de intelectuais universitários. Esse é um problema gigantesco para a luta independente dos trabalhadores, mas que deverá evoluir conforme a crise capitalista continuar se aprofundando e a política chavista encontrar mais dificuldades para ser mantida.

A oposição pela esquerda ao chavismo é muito fraca. A esquerda pequeno-burguesa é nanica e muito paralisada. Orlando Chirino foi do PSUV. Rachou e formou a Unidad Socialista de Izquierda que agora se chama Partido Socialismo y Libertad. Sem qualquer mera coincidência, aplica a mesma política oportunista típica do Psol no Brasil.

Em quem um socialista deveria votar na Venezuela?

Chamar a votar na direita golpista, como a MUD, liderada por Capriles, que Jean Wyllys defende, é o cúmulo do pró-imperialismo. Mas, chamar ao voto no PSUV gera enorme confusão, apesar do apoio da população ao chavismo ser massivo. Está colocado o problema da contraposição entre a independência de classe e o apoio condicional e crítico a determinadas reformas chavistas.

Votar nas eleições burguesas para os socialistas revolucionários não passa de uma plataforma de propaganda. O golpe que a direita pró-imperialista e o imperialismo estão tentando viabilizar não será contido votando no chavismo, na Dilma ou em Scioli, mas pela reação popular nas ruas.

A luta central é contra a direita que aposta no fracasso do chavismo para retomar o poder, com consequências nefastas para os trabalhadores. Ela está indo às eleições com esse objetivo. É preciso derrotá-la, mas sem sacrificar a independência da classe operária diante do chavismo, que corresponde a outra classes social, a burguesia nacional.

A tática do socialismo revolucionário nas eleições deve seguir o mesmo princípio da luta geral, ou seja, a luta pelo desenvolvimento da consciência de classe e, portanto, de uma organização política de classe, a forma prática da consciência de classe. As eleições não passam de uma questão secundária da luta da classe operária, uma vez que o capitalismo não pode ser eliminado em forma parlamentar e eleitoral e a época das reformas parlamentares ficou há muito no passado. Tratam-se apenas de uma tribuna de propaganda pelo programa revolucionário.

Deveria ser sacrificada a independência de classe por uma tribuna de propaganda? Se tivermos força suficiente para eleger um deputado, o próprio processo da eleição já seria uma tribuna importante.

A preocupação fundamental dos revolucionários deve ser a separação da classe operária da burguesia, a delimitação permanente, achar e aplicar a política que permita avançar em direção à independência da classe operária e à revolução. É necessário mostrar os interesses diferentes, a necessidade dela ser uma classe independente. Por esse motivo, nunca devemos chamar a votar em candidatos de partidos burgueses ou em candidatos pequeno-burgueses e burgueses de esquerda, mesmo que se apresentem sob o rótulo de “socialistas”.

Sobre a questão nacional e a luta democrática há duas soluções, a da burguesia e a operária. Há políticos que estão vinculados à luta operária, apesar da política burguesa. Os únicos candidatos do nacionalismo burguês latino-americano em quem os revolucionários operários poderiam chamar a votar, neste momento, seriam Lula e Evo Morales, pois ambos têm raízes vinculadas às lutas operárias e camponesas. Mesmo assim trata-se de uma questão meramente tática que deve ser analisada, caso a caso, no sentido da evolução da luta revolucionária pela independência da classe operária.

O ideal seria lançar um candidato proletário próprio, levando em conta que as eleições burguesas, sob o ponto de vista marxista, não passam de uma tribuna propagandística. É neste sentido que os revolucionários deveriam ter trabalhado para estas eleições ou em vista ao futuro, independentemente de ter poucos votos.

Encarando o processo eleitoral como uma tribuna, é preciso focar-se na divulgação do programa revolucionário ao invés de “eleger um deputado de esquerda” como propõe, por exemplo, a frente de esquerda argentina ou brasileira.

A política da frente de esquerda é uma política centrista, oportunista e focada em questões eleitorais que visa mostrar um tamanho desses grupos numericamente maior. Não tem nada a ver com a política de frente única operária e anti-imperialista da III e da IV Internacional, nem com a experiência revolucionária prática posterior, por exemplo, a da revolução boliviana de 1952.

Alejandro Acosta é cientista social, colaborador do Diário Liberdade e escreve para seu blog pessoal.

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