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Postado em 15/08/2021 9:16

O câncer em um corpo critico: Jean-Claude Bernardet

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José Bessa Freire

“Não virar objeto da doença, recusar o papel de vítima. Dialogar com a doença, viver a doença com intensidade. E agora? Ainda não conheço o meu novo câncer”. (Jean-Claude Bernardet, O corpo crítico).

Num país doente que luta contra o covid-19 e o bozovírus, “O corpo crítico” de Jean-Claude Bernardet é um livro que traz algum alento para o campo da saúde e da vida política. Nele o escritor trata de várias doenças que contraiu: a aids nos anos 80 quando ainda não havia o “coquetel”, a meningite – “terrível doença oportunista da aids”, a cegueira quase total, o câncer na próstata extraída em 2016 e a recidiva do câncer na glândula já inexistente, portanto um “câncer-fantasma”. Tais experiências vividas pelo autor assomam aqui em linguagem ficcional.

Minha geração conhece bem Jean-Claude nascido na Bélgica em 1936, filho de um cidadão francês que lá trabalhava. Passou a infância em Paris e a adolescência no Brasil, para onde a família veio de mala e cuia com o filho então com 13 anos. Acabou se naturalizando brasileiro, em 1964, e contratado como professor no curso de cinema da Universidade de Brasília (UnB), de onde pediu demissão junto com 222 colegas, logo após a intervenção militar na instituição. Foi, então, convidado pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, cujo chefe de departamento, Rudá Andrade, lhe deu guarida contra as investidas do estado policialesco.

“Aposentado” compulsoriamente da USP pelo AI-5 e proibido de ensinar em universidades públicas, deu cursos de cinema no Instituto Goethe e em uma faculdade privada, codirigiu filmes, quatro deles com João Batista de Andrade, publicou livros e artigos em jornais, entre os quais o semanário Opinião, onde foi editor de Tendências e Cultura. Com a anistia, retornou à USP onze anos depois. Agora, este crítico de cinema, ator, diretor, roteirista e escritor nos convida a ouvir a voz irônica, bem-humorada e nada lamurienta do seu “corpo octogenário, aidético e canceroso”. 

A fala do corpo

A voz do seu corpo aparece ao lado de outras vozes. Vários personagens desfilam diante do leitor com suas doenças e suas histórias. O pai que havia lutado na Resistência contra a ocupação nazista na França, mas não resistiu ao câncer de próstata. O irmão que se defendeu bem do tumor maligno na próstata, mas sucumbiu ao câncer de pulmão. Duas amigas septuagenárias, cada uma com câncer no pâncreas: a escritora Emilie que pouco antes de morrer disse num e-mail ao autor: “A vida não gosta mais de mim e eu não gosto mais da vida” e a graciosa Suzana que “enfrentou médicos, hospital, amigos e família”, resistindo até a morte à hospitalização.

Diante de tal quadro, ele relativiza:

– “Eu estava com um câncer chinfrim que complicaria a minha vida sem me levar a uma solução drástica”.

A partir daí faz variadas reflexões: como encarar de frente a doença, os problemas na relação médico x paciente, a indústria farmacêutica, os laboratórios, o hospital, todos eles “precisam de nossa ‘bio’ para lucrar, sendo que a manutenção da bio independe da qualidade de vida. Uma forma de resistência a essa ala do capitalismo consistiria em privá-la da nossa bio, isto é, da sua fonte de riqueza”.

Com sua filha Lígia e o geriatra, Jean-Claude assinou um documento, que chamou de “Carta sobre a não prorrogação artificial da vida”, baseado em Resolução do Conselho Federal de Medicina, de 2012, manifestando que não quer ser submetido a “procedimentos que não tragam benefício claro à minha qualidade de vida”, incluindo aí a radioterapia e a hormonioterapia, das quais ele se escafedeu.

No segundo câncer, a previsão médica era de 35 sessões de radioterapia feitas simultaneamente com hormonioterapia. Ele se submeteu apenas duas vezes, o suficiente para descrever todo processo: a ingestão dos quatro copos de água regulamentares, o papo com outros pacientes na sala de espera, as enfermeiras “que conversam sobre o par de meias que uma delas comprou, enquanto a outra me tira sangue sem me olhar”, o vestiário, o avental, o escaninho para guardar seus pertences, a tatuagem no seu corpo para orientar a máquina Varian – um dinossauro com longo pescoço, que cuspia raios fulminantes.

Tirar o corpo fora

Quem passou por isso, sabe bem do que o autor está falando e conhece os efeitos colaterais do tratamento agressivo também fulminantes: diarreia, sistema urinário em frangalhos, cansaço descomunal, dores ósseas, falta de apetite. Nada de lamentos. Jean-Claude ouve o seu corpo:

– Meu corpo tomou a iniciativa de se manifestar e sinalizar que recusava o tratamento – ele diz, o que provocou comentário do crítico de cinema da Folha de SP, Inácio Araújo, em seu blog:

– “JC tem um corpo crítico por excelência”.

Foi este corpo que o levou a interromper o tratamento:

– Tirei o corpo fora, literalmente tirei meu corpo fora da máquina da Varian – ele escreve, citando o site da empresa que se apresenta como “salvando vidas ao redor do mundo”. Sua decisão deixou embasbacados atendentes, enfermeiras, oncologistas, que “não eram médicos do paciente, eram médicos do meu câncer, o qual os preocupava mais que o portador do tumor”. 

No texto “Longevidade e Capitalismo”, ele comenta sobre “os raros médicos que aceitam essa discussão, porque a ideologia os leva a pensar não no paciente, mas na sua cura. De algum modo, são sacerdotes de uma forma de religião que podemos chamar de vitalismo”, que consiste em prolongar a longevidade a qualquer custo, independente do bem-estar do paciente.

Plantar bananeira

Define o seu medo:

– “Talvez morra logo, o que não me importa demais, só me atemorizam meses de agonia, camas de hospital, a tez embaçada, o olhar dos outros”. É uma pena – ele comenta – que a morte por aids ou câncer não seja tão rápida como a de enfarte. Constata que os pacientes não podem avaliar tecnicamente o médico e que o único juízo que podem fazer se baseia na eficiência do tratamento e na confiança.

– O que me matava, talvez mais que a doença, era a desconfiança”. No entanto, diz do seu geriatra em quem confia:

– “Se ele me pedir para plantar bananeira no parapeito da janela, faço sem hesitar”.

Interpela o segundo câncer:

– “Câncer nº 2, eu ainda não sei quem você é, como dialogar com você, como nós dois vamos nos relacionar. O que você me traz, que estímulos, que inquietações. Estou aberto para suas propostas”.

Reage ao tratamento de “remédios (a longo prazo), mais remédios (pra corrigir os efeitos dos primeiros remédios), aí outros remédios (pra corrigir os efeitos dos outros-outros remédios) e aí vamos ver como corrigir (com outros-outros-outros remédios) os efeitos do tratamento e não se sabe se o câncer se vai”.

– “Vivo num clima de morte, respiro a morte. Não é o câncer. O nosso maior inimigo é a depressão, que vem de dentro de nós”, mas é reforçada e fomentada por fatores externos, entre eles – o autor cita Sérgio Augusto – “o projeto de governo que quer exterminar-nos, artistas, intelectuais, cineastas, professores”.  

Quanto às doenças do Brasil e às suas, o personagem Jean-Claude Bernardet reafirma a sua disposição de sair pro pau:

– “Enquanto permanecer ativo e com a aparência pelo menos resguardada, vou em frente”.

Cita seu outro livro “A doença é uma experiencia” publicado em meados da década de 1990 em torno da aids, no qual ele avalia que o enfrentamento da doença é uma fonte de energia:

– “Naquele período, tive uma produção intensa e criativa. Uma atividade frenética. Não porque precisasse aproveitar ao máximo o tempo que me restava, mas porque a proximidade da morte me libertava.

O cineasta Luiz Rosemberg, pouco antes de morrer, enviou uma mensagem ao seu amigo Bernardet:

– Você é uma fortaleza escondida! Vá em frente que viver é ousar.

Ele está ousando. Seu livro mais recente é uma prova disso.

P.S. 1 – Podem confiar e plantar bananeira no vão central da ponte Rio x Niterói, se isso for a recomendação de algum dos médicos aqui indicados:  Elisa de Oliveira Campana, Mirna Bezerra Calazan, Claudio Calazan, Ronaldo Damião, Eduardo Paulino e Pedro Abreu.

Referências: Acompanho a produção de Jean-Claude Bernardet desde a época em que eu era correspondente do Opinião em Paris. A atenção sobre seu livro mais recente, presenteado por minha neta no Dia dos Pais, foi despertada por resenha de Tati Bernardi, de quem sou fiel leitor:

1. Jean-Claude Bernardet: O corpo crítico. São Paulo. Companhia das Letras. 2021. 126 pgs.

2. Tati Bernardi. Bernardet questiona longevidade de pacientes em relação ao capitalismo. FSP. 02/08/2021.

2.Eduardo Escorel: Questões cinematográficas – Jean-Claude Bernardet . Revista Piaui. Edição 61. Outubro 2011.

3. Naief Haddad. Jean-Claude Bernardet fala de Aids e de câncer em novo livro sem meias-palavras. Folhapress 26/06/21 e Diário de Cuiabá, 29/06/21

4.Jornal da USP. Jean-Claude Bernardet se descontrói diante das câmeras.https://jornal.usp.br/cultura/jean-claude-bernardet-se-desconstroi-diante-das-cameras/

5.Pedro Marques e Claudia Priscilla. Documentário A Destruição de Bernardet. Longa-metragem (Brasil, 2018, 72 min)

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