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domingo, 21 julho, 2024

O afundamento de Israel e dos Estados Unidos

Thierry Meyssan [*]

Pela primeira vez, o mundo assiste em direto pela televisão a um crime contra a Humanidade, Os Estados Unidos e Israel, que há muito tempo uniram a sua sorte, serão ambos tidos como responsáveis dos massacres em massa cometidos em Gaza. Por todo o lado, salvo na Europa, os aliados de Washington retiram os seus embaixadores em Telavive. Amanhã, eles fá-lo-ão de Washington. Tudo se passa como durante a desagregação da URSS e terminará da mesma maneira: o Império americano está ameaçado na sua existência. O processo que acaba de se iniciar não poderá ser parado.

Enquanto temos os olhos fixos nos massacres de civis em Israel e em Gaza, não apreendemos nem as divisões internas em Israel e nos EUA, nem a mudança considerável que este drama provoca no mundo. Pela primeira vez na história, mata-se massivamente e em direto civis na televisão.

Por todo o lado — salvo na Europa — os judeus e os árabes se unem para gritar a sua dor e apelar à paz.

Por todo o lado, os povos dão-se conta que este genocídio não seria possível se os Estados Unidos não estivessem a fornecer em tempo real bombas ao Exército israelense. Em todo o lado, os Estados chamam de volta seus embaixadores em Telavive e interrogam-se se deveriam chamar de volta aqueles que enviaram para Washington.

Escusado será dizer que os Estados Unidos aceitaram este espetáculo a contragosto, mas eles não o autorizaram simplesmente, eles tornaram-no possível através de subvenções e de armas. Eles estão com medo de perder o seu Poder depois da sua derrota na Síria, da sua derrota na Ucrânia e talvez, em breve, da sua derrota na Palestina. Com efeito, se os exércitos do Império não mais provocam temor, quem é que continuará a realizar transações em dólares em vez de na sua própria moeda? E, nessa eventualidade, como é que Washington fará com que os outros paguem aquilo que despende, como é que os Estados Unidos manterão o seu nível de vida?

Mas o que é que se passará no fim desta história? Será que o Oriente Médio se revolta ou será que Israel esmaga o Hamas ao preço de milhares de vidas?

Devemos recordar que primeiro o Presidente Joe Biden apelou a Israel para renunciar ao seu plano de deslocar os palestinos para o Egito ou, na impossibilidade, de erradicar o povo palestino da face da Terra, e que Telavive não lhe obedeceu.

Os « supremacistas judaicos » comportam-se hoje em dia como em 1948. Quando as Nações Unidas votaram a criação de dois Estados federados na Palestina, um hebreu e um árabe, as Forças Armadas auto-proclamaram o Estado hebreu antes que se tivessem fixado as fronteiras. Os « supremacistas judeus » expulsaram imediatamente milhões de palestinos das suas casas (a « Nakhba ») e assassinaram o representante especial da ONU que tinha vindo criar um Estado palestino. Os sete exércitos árabes (Arábia Saudita, Egito, Iraque, Jordânia, Líbano, Síria e Iémen do Norte) que a eles se tentaram opor foram rapidamente varridos.

Hoje em dia, eles já não obedecem aos seus protetores e continuam a massacrar, sem se dar conta que, desta vez, o mundo os observa e que mais ninguém virá em seu socorro. No momento em que os xiitas admitem o princípio de um Estado hebreu, a sua loucura põe em perigo a existência deste Estado.

Lembramos a maneira como a União Soviética se afundou. O Estado não tinha sido capaz de proteger a sua própria população durante um acidente catastrófico. Morreram 4 000 soviéticos na central nuclear de Chernobyl (1986), salvando os seus concidadãos. Então, os sobreviventes perguntaram-se por que é que continuavam a aceitar, 69 anos após a Revolução de Outubro, um regime autoritário. O Primeiro Secretário do PCUS, Mikhail Gorbachev, escreveu que foi quando viu este desastre que compreendeu que o seu regime estava ameaçado.

Depois foram os motins de dezembro no Cazaquistão, as manifestações de independência nos países Bálticos e na Arménia. Gorbachev modificou a Constituição para afastar a velha guarda do Partido. Mas as suas reformas não bastaram para deter o incêndio que se propagou no Azerbaijão, na Geórgia, na Moldávia, na Ucrânia e na Bielorrússia. A revolta dos Jovens Comunistas leste-alemães contra a Doutrina Brejnev levou à queda do Muro de Berlim (1989). O desmoronar do Poder em Moscou levou à paragem da ajuda aos aliados, entre os quais Cuba (1990). Por fim, deu-se a dissolução do Pacto de Varsóvia e o desmembramento da União (1991). Em pouco mais de 5 anos, um Império, que todos julgavam eterno, ruiu sobre si mesmo.[NR]

Este processo inelutável acaba de começar para o « Império Americano ». A questão não é de saber até onde os «sionistas revisionistas» de Benjamin Netanyahu irão, mas até quando os imperialistas norte-americanos os apoiarão. Em que momento, Washington estimará que tem mais a perder em deixar massacrar civis palestinos do que em corrigir os dirigentes israelenses?

O mesmo problema se coloca para ela na Ucrânia. A contraofensiva militar do governo de Volodymyr Zelensky falhou. Agora, a Rússia não busca mais destruir as armas ucranianas, que são imediatamente substituídas pelas armas oferecidas por Washington, mas sim em matar aqueles que as manejam. As Forças Armadas russas agem como uma gigantesca máquina de triturar que, lenta e inexoravelmente, mata todos os soldados ucranianos que se aproximam das linhas de defesa russas. Kiev já não é capaz de mobilizar combatentes e os seus soldados recusam-se a obedecer a ordens que os condenam à morte certa. Os seus oficiais não têm outra escolha senão a de fuzilar os pacifistas.

Desde já muitos líderes dos EUA, ucranianos e israelenses falam de uma substituição da coligação « nacionalista integralista » ucraniana e da coligação «supremacista judaica», mas o período de guerra não se presta a isso. No entanto, será necessário fazê-lo.

O Presidente Joe Biden deve substituir a sua marionete ucraniana e os seus bárbaros aliados israelenses, tal como o Primeiro-Secretário Mikhail Gorbachev teve que substituir o seu insensível representante no Cazaquistão, abrindo a via à generalização da contestação aos dirigentes corruptos. Assim que Zelensky e Netanyahu forem afastados, todos saberão que é possível obter a cabeça de um representante de Washington e cada um destes saberá que deve fugir antes de ser sacrificado.

Este processo não é apenas inelutável, ele é inexorável. O Presidente Joe Biden pode justamente fazer tudo o que está ao seu alcance para o abrandar, para o fazer durar, mas não para o parar.

Agora, os povos e os dirigentes ocidentais devem tomar iniciativas para sair deste vespeiro, sem esperar ser abandonados, tal como Cuba fez à custa de privações do seu «período especial». Há urgência: os últimos a reagir terão de pagar a conta de todos. Desde logo, inúmeros Estados do «resto do mundo» fogem. Eles fazem fila para entrar no BRICS ou na Organização de Cooperação de Xangai.

Pior ainda que a Rússia, que teve de se separar dos Estados Bálticos, os Estados Unidos devem se preparar para revoltas internas. Quando já não conseguirem impor o dólar no comércio internacional e o seu nível de vida se afundar, as regiões pobres recusarão obedecer enquanto os ricos assumirão a sua independência, a começar pelas repúblicas do Texas e da Califórnia (as únicas que, segundo os Tratados, têm juridicamente a possibilidade disso) [1]. É até provável que a dissolução dos EUA dê lugar a uma guerra civil.

O desaparecimento dos Estados Unidos provocará o da OTAN e da União Europeia. A Alemanha, a França e o Reino Unido terão que fazer face às suas velhas rivalidades, à mingua de não as ter resolvido enquanto era tempo.

Em poucos anos, Israel e o «Império Americano» desaparecerão. Aqueles que lutarem contra o sentido da História provocarão guerras e mortes desnecessárias em massa.

19/novembro/2023

[1] “A guerra civil torna-se inevitável nos EUA”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 15/Dez/2020.
[NR] Resistir.info não tem de concordar com tudo quando publica um artigo.

[*] Presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace.

A tradução de Alva encontra-se em www.voltairenet.org/article219985.html

Este artigo encontra-se em resistir.info

 

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