Crédito: Juan Barreto/AFP
A trajetória humana e política de Nicolás Maduro culmina em seu sequestro, um crime de guerra que expõe a face brutal do imperialismo americano.
Por: Wagner França
A madrugada do dia 3 de janeiro de 2026 ficará gravada na história da América Latina como um dos momentos mais infames do século XXI. Enquanto Caracas dormia, o céu foi rasgado por bombas norte-americanas. O alvo não era apenas uma infraestrutura militar; era o coração da soberania venezuelana. O objetivo declarado: capturar e extrair, à força, o presidente constitucional Nicolás Maduro e sua companheira de vida e lutas, Cilia Flores. Este ato de guerra, um sequestro de Estado executado com frieza imperial, busca apagar não só um líder, mas um símbolo vivo da resistência de um povo. Porém, para entender a magnitude deste crime, é preciso olhar para além do político e encontrar o homem: o operário, o sindicalista, o filho da Revolução Bolivariana cuja vida se confunde com a própria luta pela segunda independência da Pátria Grande.
Nicolás Maduro não nasceu nos palácios da oligarquia caribenha. Sua formação vem do suor e do calor humano dos autocarros de Caracas. Trabalhando como motorista do Metro, ele aprendeu a conduzir não apenas um veículo, mas as esperanças de seus companheiros, organizando-se no sindicato em uma empresa que reprimia os direitos laborais. Esse chão de fábrica e terminal foi sua primeira escola política, onde forjou a convicção inabalável de que a dignidade só se conquista com organização popular. Dessa trincheira sindical, ele viu emergir, como um farol para a América Latina, a figura do comandante Hugo Chávez. A conexão foi imediata e profunda. Maduro não era um teórico de gabinete; era um homem do povo que reconheceu em Chávez a voz daquele mesmo povo. Juntamente com Cilia Flores, então uma advogada comprometida com a causa bolivariana, dedicou-se de corpo e alma à campanha pela liberdade de Chávez quando este estava preso. Dessa parceria, nasceu uma dupla indissociável, cujo amor e projeto político se fundiram na mesma missão: servir à Venezuela.
Com a vitória de Chávez em 1998, Maduro assumiu responsabilidades gigantescas com a humildade de quem nunca esqueceu suas origens. Como presidente da Assembleia Nacional e, posteriormente, como Chanceler, sua mão foi firme e sua visão, estratégica. No cenário internacional, enfrentou o hegemon com uma coragem rara, diversificando alianças e afirmando o direito soberano da Venezuela de escolher seus parceiros, aproximando-se de Rússia, China e Irã. A confiança que Chávez depositou nele foi total e pública. No leito de morte, o comandante não teve dúvidas: apontou Maduro como seu sucessor, pedindo ao povo que elegesse “aquele motorista de autobus”. Era a passagem do bastão do próprio povo, simbolizada na figura de um homem comum elevado à máxima responsabilidade. Assumir a presidência em 2013 foi herdar não apenas um país, mas uma guerra não declarada. Uma guerra económica, mediática e diplomática, orquestrada desde Washington e executada pela oligarquia local, que utilizou todos os mecanismos para asfixiar a economia, gerar desespero e derrubar um governo legítimo. As sanções, ilegais e genocidas, são o principal instrumento desta agressão, um castigo coletivo aplicado a todo um povo por ousar desafiar a ordem imperial.
Apesar do cerco brutal, o governo de Maduro manteve o compromisso social. Programas de alimentação, saúde e educação continuaram a ser o pilar da sua gestão, ainda que sob uma pressão extrema que qualquer outra nação teria sucumbido. A lealdade das bases populares chavistas, dos trabalhadores, das comunidades organizadas, não é um acidente. É o reconhecimento de que Maduro nunca traiu sua classe, nunca capitulou e permaneceu na linha de frente, defendendo cada conquista da Revolução. Ele é o guardião da herança de Chávez, e o povo venezuelano, que saiu massivamente às ruas para defendê-lo em momentos críticos, sabe disso. O sequestro executado pelos Estados Unidos é, portanto, a confissão suprema do fracasso. Fracassaram em derrotá-lo nas urnas, em derrubá-lo com golpes brandos, em estrangulá-lo com sanções. Restou-lhes apenas o recurso da força bruta e ilegal, da agressão militar direta, violando todas as normas do direito internacional e a própria Carta das Nações Unidas. Bombardear a pátria de Bolívar para raptar seu presidente eleito é um crime de guerra, um ato de terrorismo de Estado que mancha irremediavelmente a história dos EUA.
Por trás do presidente está o homem. O companheiro de Cilia, o militante que chora ao recordar Chávez, o líder que carrega a enorme dor de ver seu povo sofrer sob um bloqueio desumano. O sequestro de Maduro é também o sequestro dessa humanidade. É a tentativa de despersonalizar a luta, de transformar um símbolo vivo em um prisioneiro de guerra. Mas eles subestimaram o povo venezuelano. As ruas de Caracas e de toda a Venezuela voltaram a encher-se, exigindo o retorno imediato de seu presidente. A vice-presidente Delcy Rodríguez, assumindo a charge constitucional, declarou firmeza na defesa da soberania. A resposta uníssona de condenação por parte de nações latino-americanas, como Brasil e Cuba, e de todo o mundo multipolar, mostra que a linha vermelha da soberanía foi ultrapassada. A história de Nicolás Maduro, do sindicato à presidência e desta a uma cela de detenção ilegítima, é hoje a metáfora mais crua da luta entre o direito dos povos à autodeterminação e a ambição imperial que ainda pretende dominar o nosso destino. E, como ele mesmo ensinou, é uma luta que não se perderá, porque está fundada na mais justa das causas: a da liberdade.