Ministro da Fazenda, Dario Durigan – Foto: Washington Costa/MF
César Fonseca
Juros de 1,99% ao mês para inflação de 0,88%(IPCA de março), como proposta de renegociação de dívidas dos endividados, com desconto de 90%, nos cartões de crédito e no crédito direto ao consumidor, não são lá grande negócio.
É mais que o dobro da inflação a taxa de juro que será cobrada, conforme discussão entre o governo e os banqueiros, realizada, hoje, sob comando do ministro da Fazenda, Dario Durigan.
A inflação subirá de escada, mas o juro, de elevador.
Ou seja, jurismo sufocante!
Certamente, é um desafogo em relação ao juro mínimo de 6%, indo até mais de 10%, em certos casos, ao mês, como ocorre, atualmente, no endividamento popular no cartão de crédito e no crédito direto ao consumidor, sob agiotagem brutal.
Mesmo assim, a proposta em debate continua sendo uma agiotagem minorada.
Por que , para essa solução extraordinária que o presidente Lula procura construir, para melhorar sua popularidade, com vista à eleição, não se cobra taxa de juro no mesmo patamar do IPCA mensal?
Juro do tamanho da inflação, por que não?
Se o salário mínimo está sendo reajustado apenas pela inflação – já que a conquista politicamente progressista de acrescentar a correção do PIB nos dois anos anteriores foi suprimida, neoliberalmente -, por que a dívida dos trabalhadores, sufocados pelo financismo especulativo, não pode merecer o mesmo tratamento?
Destaque-se que os salários dos aposentados, este ano, estão sendo reajustados não pelo IPCA, mas pelo INPC, mais baixo, sofrendo maiores arrochos nos seus rendimentos.
Os banqueiros continuariam ganhando, pelo menos, o dobro da inflação, o que, no cenário de insuficiência do salário mínimo, como redutor crescente do poder de compra dos assalariados, representaria extração abusiva de mais valia dos trabalhadores.
PERIGO NA ESQUINA PARA O TRABALHADOR
Além disso, os banqueiros exigem que os endividados utilizem percentual do FGTS(qual?) para liquidar endividamento.
Ou seja, a poupança que os trabalhadores acumulam para o futuro, quando estiverem aposentados – sonho que se mostra cada vez mais distante, depois das reformas neoliberais que esvaziaram a Previdência Social -, será canalizada para o caixa da bancocracia, que continuará usufruindo Selic na casa dos 14,75%, a taxa mais alta do mundo, inferior, apenas, à vigente na Turquia.
Não seria a hora do capital financeirizado especulativo, já excesssivamente, abastecido, dar contribuição maior aos que são sanguessugueados pela agiotagem desenfreada em curso no Brasil, desde a vigência do tripé neoliberal, imposta pelo Consenso de Washington, nos anos de 1990?
De lá para cá, as metas inflacionárias, o câmbio flutuante e os superavits primários, que compõe tal tripé, convivem com taxa de juro exorbitante bem acima das taxas de crescimento do PIB.
Eis porque se acelera, descontroladamente, no Brasil a desigualdade social e a superconcentração da renda nacional, traduzidas em lucros permanentes e incessantes para a banca.
Não seria a hora de o mercado financeiro contribuir mais com o esforço do governo para aliviar os assalariados, distribuindo parte da renda supercumulada por juros sobre juros que recebe, para financiamento da dívida pública, que não se traduz em investimentos produtivos, mas, apenas, em pura agiotagem?
A HORA DOS SINDICATOS
Chegou ou não o momento dos sindicatos laborais entrarem em cena para pressionar o governo e o Congresso em favor de uma negociação decente do endividamento geral dos trabalhadores, que atinge mais de 80% da sua totalidade?
Se a taxa de juro sobre a dívida continuar o dobro da inflação mensal incidindo sobre o total do endividamento, continuará insuficiente a capacidade de pagamento dos trabalhadores, no cenário econômico em que o salário mínimo é insignificante, sob impacto do sob ajuste fiscal draconiano das contas públicas, em nome da inflação, que mantém a agiotagem expressa na Selic elevada.
Os sindicatos têm que se alinharem, agora, ao governo para que ele possa falar mais duro com os agiotas, a fim de aliviarem os trabalhadores, especialmente, isentando utilização da sua poupança futura(FGTS), trazendo-a ao sacrifício presente, para liquidar dívida sobreacumulada na agiotagem bancária, mais valia extraída a forceps da classe trabalhadora.
O problema não é, meramente, econômico, mas, sobretudo, político.
Do contrário, o pobre endividado comparecerá diante do seu algoz sem as armas necessárias para negociar.
Será o encontro da faca amolada contra o pescoço.
Representaria repetição mal ajambrada do programa Desenrola que não desenrolou nada, como a realidade do sobreendividamento popular consagra nesse momento pré eleitoral.
O presidente Lula que se cuide para não cair na armadilha da Faria Lima.