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Papo do Dia

Postado em 18/06/2021 8:32

NÃO FAZES O QUE O TIO SAM MANDA? ENTÃO ÉS TOTALITÁRIO E DITADOR. PIM!

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Por Daniel Vaz de Carvalho

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Totalitarismo foi um termo criado em Itália por G. Amendola , um antifascista, mas adotado pelos fascistas para descrever o seu próprio sistema. Na segunda metade do século XX, o termo foi reinventado para denegrir e diabolizar o socialismo e de uma forma geral todos os sistemas políticos que se afastem do que é determinado pelo imperialismo.

Totalitarismo define-se comummente como: “toda a organização estatal cujo regime político não seja de carácter democrático ou liberal, isto é, em que o governo não é eleito democraticamente e onde não se admite o exercício de certas liberdades fundamentais”. Note-se que nas “certas liberdades fundamentais” é condição sine qua non a liberdade para a “iniciativa privada”, eufemismo para o grande capital transnacional e monopolista proceder como melhor lhe convier.

Outras definições referem sistemas em que o Estado exerce um elevado grau de controle na vida pública e privada dos cidadãos, que proíbem partidos de oposição, recorrendo a campanhas de propaganda difundidas por meios de comunicação de massa detidos pelo Estado.

A parcialidade destas definições é evidente. Se a esfera privada detiver os “meios de comunicação em massa” e controlar a vida pública dos cidadãos (e privada por intermédio do Estado ao seu serviço) já não será totalitarismo.

Aquelas definições servem para justificar o apoio às agressões, ingerências e crimes, cometidos pelo capitalismo transnacional, o imperialismo e seus agentes. Os crimes cometidos pelas ditaduras na América Latina, Ásia (Indonésia, Vietnã e Laos – antes da libertação) por governos fascistas como em Israel, Colômbia, Ucrânia, para só referirmos a atualidade, ou são escamoteados ou relativizados colocando no mesmo plano agressores e agredidos.

Definições que consideram totalitarismo sistemas em que “todas” as atividades sociais são dominadas pelo o Estado, visam deturpar os princípios do socialismo colocando-o no descrédito, na ignomínia de totalitário. São definições instrumentais, destinadas a diabolizar sistemas que a oligarquia não domina.

O totalitarismo é também utilizado pelo imperialismo e a oligarquia para imporem como sistema universal – e “fim da História” (!) – a “democracia liberal”. Substituem a discussão sobre os sistemas políticos à sua forma, em vez dos conteúdos, dos métodos e finalidades. Assim, a discussão perde sentido, já que os fins são estabelecidos como postulados pela ideologia e os interesses da classe dominante.

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Cimeira do G7.

No G7, Washington reuniu os principais vassalos para uma união das “democracias” contra a China. Segundo a propaganda “a dinâmica internacional é entre o totalitarismo e a democracia e não há equidistância”. Totalitários são então todos os Estados que se “afastam do modelo liberal”, o único que admitem como democracia, um neoliberalismo totalmente falhado tanto na teoria como na prática, ou o que vai sendo distorcido à medida das conveniências da oligarquia.

Na manipulação informativa os eufemismos são regra. As palavras perdem o sentido estabelecido pelo léxico original. Assim, concretamente, “modelo liberal” significa capitalismo monopolista transnacional sob a égide do dólar, e é isto que nos querem convencer ser o grau máximo e definitivo de “democracia”.

A participação popular no progresso social, a soberania nacional, enfim formas socialistas ou socializantes de governo, são apontadas como “totalitarismo”. Pelo contrário, ditaduras militares, fascismos, domínio da extrema-direita, não são identificados como “totalitários”, pois alinham com o imperialismo e violentamente combatem as lutas populares por transformações progressistas. Brutal repressão de cariz fascista passa mesmo por “defender a democracia”.

O aparente pluralismo político ou informativo, do “modelo liberal” não passa de um totalitarismo controlado pela oligarquia que não admite que os seus interesses sejam minimamente beliscados, pondo em campo, contra as ideias que não lhes sejam favoráveis, os seus agentes políticos e mediáticos, mesmo argumentistas de séries da TV. O resto fica sujeito à censura do chamado “critério editorial” que a oligarquia domina.

Escandalosas ingerências, sanções, agressões militares, são insistentemente justificadas nos media, ocorrendo sem que a generalidade das pessoas tenha a mínima ideia do que realmente se passa, abrindo caminho à extrema-direita.

Determinadas ONG, não passam de extensões de serviços secretos, assumindo formas legais, alegadamente defensoras da democracia e direitos humanos. O seu objetivo é a desestabilização social e a fabricação de bem pagos “democratas”, dramatizando quaisquer problemas existentes ou ficcionados, anunciando cataclismos que resultariam de medidas socializantes ou consideradas como tal.

Exemplo da instrumentalização das ONG, já não falando da NED , é a Amnistia Internacional, especialista em silenciar os crimes do imperialismo, que ignora Julian Assange, e alterou as suas próprias regras para voltar a incluir o ativista de extrema-direita Navalny como “prisioneiro de consciência” (na realidade condenado por corrupção).

Presstitutes.

A CIA controla os principais veículos de comunicação dos EUA desde 1950. Os media não fornecem notícias, fornecem explicações de acordo com a oligarquia, garantindo que informações reais não interferem nos seus objetivos. O livro Jornalistas comprados (Gekaufte Journalisten,   Presstitutes Embedded in the Pay of the CIA) do jornalista alemão Udo Ulfkotte mostra que a CIA também controla a imprensa europeia.

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Presstitutes.

Marx referiu-se ao “cretinismo parlamentar, a forma não de dar expressão à vontade do povo, mas de bloquear essa vontade”. Um parlamentarismo alheado do povo, reduzindo a democracia a uma retórica por representantes que renegam praticamente tudo o que prometem antes de eleitos.

Na “democracia liberal” não é problema a existência de vários partidos desde que não ponham em causa os interesses do grande capital. Os programas de governo não se afastam do que a classe dominante permite, que em última análise decide sobre as leis laborais, sobre os gastos do Estado, que a finança controla por via do endividamento público, ou sobre as receitas atendendo à livre circulação de capitais e paraísos fiscais. É a mesma partitura, mudando o maestro e a orquestra.

A “democracia liberal” é um efetivo totalitarismo, disfarçado com vários partidos que não passam de fações do mesmo partido único neoliberal-imperialista, o “modelo liberal”. O fato de existirem partidos marxistas-leninistas em alguns países em que a oligarquia não os conseguiu eliminar, não invalida o quadro anterior: a marginalização mediática, a calúnia, a distorção histórica, colocam acrescidas dificuldades à sua expansão junto das massas populares. Porém, se tal não é conseguido a oligarquia e o imperialismo fazem uso dos seus processos de ingerência, chantagem económica e financeira e recorrem à sua tropa de choque: a extrema-direita.

Mesmo social-democratas minimamente coerentes não são tolerados. No Reino Unido, J. Corbyn, que queria levar o partido trabalhista para a sua matriz tradicional ligada ao sindicalismo e com nacionalizações, foi alvo de uma caluniosa campanha mediática acusando-o de antissemitismo – imagine-se… – por ter criticado Israel. Os EUA são exemplo de como democratas ou republicanos são simplesmente fações do partido único oligárquico-imperialista.

A social-democracia atinge por vezes o governo. Aparentemente tem o poder por ter ganho as eleições. Pura ilusão. A oligarquia aceita alguns compromissos transitórios face à crise económica e à contestação social que as suas políticas originam. Mas é uma situação a prazo. Neste processo a social-democracia enreda-se em tais contradições para agradar à oligarquia que acaba por preparar o caminho à direita, sendo desencadeada ampla cobertura mediática com este objetivo.

E como a oligarquia e o imperialismo no “jogo democrático”, não admitem correr riscos que não controlem, se não saem a bem saem a mal. O processo brasileiro, os golpe de Estado nas Honduras, Guatemala, Bolívia (silenciados pelos media), são exemplos do que expomos.

A “democracia liberal” é um “produto” do qual o povo não é suposto ser parte ativa, sendo quando muito chamado no período eleitoral a validar a situação vigente tutelada pela oligarquia. Trata-se de um efetivo totalitarismo, imposto pelas relações capitalistas de produção. A riqueza está nas mãos dos oligarcas, os media e sectores estratégicos sob seu controlo. O proletariado é sujeito a um constante processo de alienação, em que a cidadania é vergada (dirão flexibilizada…) às necessidades de sobrevivência.

Todos os direitos e liberdades políticas do proletariado foram e são obtidos através de duras lutas, inclusive com sacrifícios de vidas. O que existe de democracia na “democracia liberal”  resultou de lutas populares que no passado impuseram formas e constituições democráticas, subvertidas depois pelos critérios do capitalismo, mantendo embora certos formalismos democráticos. Formalidades que não impediram que os detentores da riqueza se transformassem em novos senhores feudais aos quais quase tudo é permitido em nome dos “mercados”, de “dar confiança aos investidores” ou dos “riscos sistémicos”.

O financiamento de candidatos favoráveis aos interesses da oligarquia constitui também um grave ataque à democracia. As eleições nos EUA são disto mais um gritante exemplo: em 2016 os bancos despenderam 2 bilhões de dólares a favor dos “seus” candidatos. Em 2020 mais de 3 bilhões.

A universidade de Princeton publicou um estudo, evidenciando que os Estados Unidos funcionam muito mais como uma oligarquia do que como uma democracia. De fato, nos EUA como na UE, a maioria da população não tem nenhuma ideia que vive em função de um império que se pretende global e que recorre se necessário ao fascismo e à guerra para se exercer.

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O puritanismo é quase sempre uma forma de hipocrisia ou arrogância fundamentalista. As suas teatrais indignações, com ampla cobertura mediática, não abrangem nada que possa melindrar a oligarquia e o imperialismo.

Estes pruridos democráticos caem também pelo apoio ou silenciamento perante os neofascismos e partidos de extrema-direita, com glorificação de nazistas, supressão de elementares regras democráticas, disseminação do racismo e xenofobia. Caem enfim no alinhamento com a agenda conspirativa e belicista do imperialismo.

Na Colômbia, a repressão abate-se sobre um povo heroico e sofredor há muito sob um jugo fascista, mas os media escamoteiam os acontecimentos, a Amnistia Internacional, a Human Riggts Watch ou a UE nunca classificaram a Colômbia de ditadura, mas Cuba sim , de totalitarismo. [1]

Com o horroroso Plano Condor, para derrubar dirigentes progressistas eleitos democraticamente e liquidar tudo o que tivesse laivos de progresso, a América Latina tornou-se um antro de prisões, torturas, assassinatos políticos. Procedimentos análogos foram levados para outros continentes, deixando os seus povos na pobreza e na opressão. [2]

Estes países não deixaram de ser considerados do “mundo livre”. Tal como Israel, que despreza resoluções da ONU, destrói, ocupa e mata o povo palestiniano em constante repressão e sucessivas guerras de agressão.

Nada disto incomoda os puritanos de democracia. Quando muito, apenas se atrevem a referi-los com inócuos moralismos e indignações que não passam de fogos de palha.

São estes os “valores” arrogantemente proclamados, mas que morrem nos muros para deter mexicanos, em resultado do “comércio livre” NAFTA, ou nas tragédias dos que fogem do Médio Oriente ou África em resultado das agressões de países da OTAN.

O puritanismo demo liberal faz do “menos Estado” uma questão central. Menos Estado – mais Estado nada tem que ver com as liberdades e direitos democráticos. No capitalismo, a ação do Estado destina-se a assegurar que o poder económico – a infraestrutura social – se mantém nas mãos do grande capital.

O poder do Estado não está em exibir ou exercer a força, está na sua capacidade de unir a sociedade em torno de objetivos e ideais comuns. O reforço do papel do Estado pode significar e significou em muitos momentos a forma de libertação das classes mais oprimidas face aos poderes feudais ou oligárquicos.

Em capitalismo, os direitos e liberdades do povo trabalhador estão sempre em risco, enquanto a população é mantida numa atmosfera de alienação e velhas calúnias. O trabalho semiescravo e o crime organizado coexistem para além de inócuas ações de combate. Nenhuma destas políticas é apelidada de “totalitarismo”, tal como o não são ditaduras oligárquicas mascaradas de democracia meramente formal.

A UE na esteira dos seus patronos de Washington, pretende obrigar todo o mundo a seguir a sua democracia de oligarcas. Contudo a UE basicamente é um sistema totalitário, estabelecido à margem da vontade popular, controlado por uma burocracia ao serviço do grande capital. Dotou-se de mecanismos para se perpetuar através da chantagem financeira, ameaça de sanções, não permitindo que eleições ou referendos alterem as regras que asseguram o domínio das transnacionais e da finança sobre os povos. O resultado teria de ser, como é: desastroso, caótico.

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A reação usa o argumento de totalitarismo, segundo os critérios que previamente definiu para atacar processos de transformação tendo em vista o socialismo. O Estado socialista tem de ter autoridade para salvaguardar a soberania, a segurança e os interesses do Estado, impedindo atos que minem a ordem constitucional e os seus princípios de democracia participativa.

De acordo com o marxismo, o Estado de classes é uma entidade repressiva. O socialismo não vai abolir as classes sociais, que coexistem com contradições resolvidas por processos não antagónicos, ao contrário do capitalismo. Aliás não devemos falar em socialismo, mas sim em processos de transição em que derrubando o poder da oligarquia se dá início à construção do socialismo.

No socialismo existem também contradições entre as relações de produção e as forças produtivas da sociedade, uma vez que o desenvolvimento das relações de produção atrasa-se em relação ao desenvolvimento das forças produtivas. Com uma política justa estas contradições não se tornarão antagónicas e não se chegará a um conflito entre as relações de produção e as forças produtivas da sociedade. O caso será diferente se forem seguidas políticas incorretas. [3]

Na construção do socialismo, o Estado terá em conta fatores históricos e sociais preexistentes. No que respeita às pequenas e médias empresas, produtores individuais e cooperativas será respeitado o seu estatuto, sendo progressiva e voluntariamente integrados nas estruturas do planeamento económico.

Claro que é fácil apontar a processos de transformação socializantes, erros, falhas problemas. Isto – além das imperfeições humanas – por duas razões intimamente ligadas: a resistência dos oligarcas e o imperialismo. As elites oligárquicas não abandonam os processos políticos efetivamente totalitários que garantem o seu poder, sem a luta, sem o esclarecimento militante do proletariado. Quanto ao imperialismo encarrega-se de proceder a descaradas ingerências, caluniar, financiar conspirações, recorrer à agressão.

O Estado em nome da defesa da soberania nacional, dos interesses do proletariado e de todas as camadas não monopolistas, é obrigado a seguir uma política de vigilância e defesa do carácter patriótico e progressista da Constituição. Esta ação, meramente defensiva, é desde logo classificada pelos os puritanos de uma esquerda social-democrata dita radical e da direita como totalitarismo.

No socialismo a participação dos cidadãos nos processos sociais é fundamental. O que as oligarquias mais temem é que a sua “democracia liberal” seja substituída por formas de democracia participativa. Sem a participação consciente e ativa dos cidadãos, a democracia corre o risco de se tornar uma ficção política e as diatribes parlamentares não irem além de uma competição por lugares ao serviço da oligarquia.

Daqui que o esclarecimento militante, seja necessário, opondo-se à trágica disfuncionalidade de um sistema que terá de ser substituído: o capitalismo. Em termos democráticos, o socialismo tem de ser considerado uma livre opção, concretizada na soberania do Estado e no aprofundamento da democracia e em todas as suas vertentes: política, económica, social e cultural.

[1] rebelion.org/un-paro-que-anuncia-al-nuevo-poder/

[2] As balas de Washington: Uma história dos golpes e assassinatos da CIA

[3] Problemas Econômicos do Socialismo na URSS, o autor e a obra

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

18/Jun/21

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