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quinta-feira, 22 janeiro, 2026

Museu Casa de África como memória viva

Havana (Prensa Latina) A herança africana de Cuba não é apenas história, mas um componente essencial do presente cultural e espiritual da ilha.

Por: Yodeni Masó Águila
Editorial África e Oriente Médio

Da música e religião à comida e folclore, o legado africano permanece vivo na vida cotidiana cubana.

Localizado no centro histórico de Havana, o Museu Casa de África desempenha um papel fundamental como espaço de memória, protesto e reafirmação de identidade.

NEGRITUDE, PARTE ESSENCIAL DA IDENTIDADE CUBANA

“A cultura cubana brilha em sua escuridão”, disse Nicolás Guillén (1902-1989), Poeta Nacional de Cuba, defendendo a mestiçagem como essência da identidade do país.

“Negro de cara grande/ Por que você fica tão bravo/ quando te chamam de negro de cara grande,/ se ele tem uma boca sagrada, negro de cara grande?” escreveu o autor de Motivos de Son (1930).

Essa visão foi reforçada pelo etnógrafo e polímata Fernando Ortiz (1881-1969), que descreveu Cuba como um “ajiaco” cultural: uma mistura de raízes europeias e africanas que define o que é cubano.

Segundo o intelectual Miguel Barnet, havia preconceito contra os negros e contra as culturas de origem africana, e Dom Fernando foi um pioneiro no estudo dessas culturas.

Ele foi “um homem que lutou contra muitos estereótipos e abriu novos caminhos para entender precisamente o termo que ele também chamou neste ensaio de ajiaco; aquele caldo onde se cozinham produtos de todos os tipos, de todos os elementos: uma panela aberta”.

Milhares de africanos chegaram à ilha durante a escravidão, trazendo consigo crenças, práticas e formas de resistência que se expressam até hoje no cotidiano: dos tambores que soam nos bairros às divindades presentes nos altares domésticos.

MEMÓRIA, CULTURA E DIGNIDADE

Fundado em 6 de janeiro de 1986, o Museu Casa de África, em Havana Velha, oferece um espaço de diálogo entre a cultura cubana e o continente africano.

Segundo seu diretor, Alberto Granado Duque, o museu rompe com a perspectiva colonial ao apresentar as culturas africanas como civilizações ativas e protagonistas de sua história.

Ao percorrer seus salões, o público pode ver as peças organizadas por região e práticas culturais, com ênfase em sua continuidade na vida cubana contemporânea, observou ele.

Em entrevista exclusiva à seção Scanner da Prensa Latina, ele enfatizou que as peças expostas — tecidos, instrumentos e objetos cerimoniais — foram doadas por comunidades africanas, reforçando seu valor simbólico.

Granado destacou que a instituição recebeu essas peças durante o processo de descolonização e que Cuba participou ativamente delas com médicos, professores e brigadas de solidariedade.

“Hoje, fala-se em recuperar muitos artefatos africanos que estão em exposição ao redor do mundo, mas nós temos esses artefatos por vontade deles”, enfatizou.

RELIGIÕES AFRO-CUBANAS, ESPIRITUALIDADE COMO FORMA DE RESISTÊNCIA

Segundo o especialista, em Cuba, religiões como Santeria, Palo Monte e Abakuá têm raízes nas cosmogonias iorubá, bantu e carabali.

Nas palavras do diretor, essas expressões foram criminalizadas durante séculos, mas sobreviveram graças ao sincretismo, à tradição oral e à transmissão comunitária.

Para o especialista-chefe do museu, essas práticas representam não apenas espiritualidade, mas também uma afirmação de identidade.

Nesse sentido, afirmou que o Museu Casa de África reconhece e dignifica esse legado, conectando as gerações atuais com os saberes ancestrais.

A herança africana em Cuba se expressou, sobretudo, como resistência cultural, comentou o executivo.

EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA E TRABALHO COMUNITÁRIO

Um dos pilares da fundação é seu trabalho educacional. Programas como a sala de aula-museu e oficinas de antropologia social permitem que crianças e jovens aprendam sobre a história africana com respeito e pertencimento, observou ele.

Segundo Granado, o centro atua como uma ferramenta pedagógica contra o racismo estrutural, promovendo uma visão inclusiva da nação.

Além do trabalho educativo, o Museu Casa de África é um espaço de encontro solidário com o continente africano. Em 1987, ele sediou o Comitê Cubano Antiapartheid e recebeu figuras importantes do pan-africanismo, ele observou.

Desde a sua criação, disse ele, a instituição se estabeleceu como um centro político e cultural comprometido com o Sul Global e a luta por justiça.

O LEGADO AFRICANO COMO UM PRESENTE EM MOVIMENTO

A existência do Museu Casa de África ressalta que a negritude é parte constitutiva do ser cubano, reafirmou a pesquisadora.

“Não foi por acaso que, desde o início da Revolução, os principais líderes percorreram a África e a Ásia, defenderam alguns conceitos importantes e contribuíram para fortalecer os movimentos de libertação nacional em apoio ao processo de descolonização”, acrescentou.

Em sua opinião, “o museu, desde o seu início, foi uma casa de unidade, não de um país específico, nem de uma atividade cultural, nem de Cuba, mas sim a casa da África”.

Em um contexto onde o preconceito e a invisibilidade persistem, este espaço reafirma que a herança africana não pertence apenas ao passado: é um presente ativo, dinâmico e transformador.

Colaboradores neste trabalho:
Amélia Roque
Editor Especial Latin Press

Laura Esquivel

Editor Web Latin Press

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