Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
César Fonseca
As mobilizações sociais progressistas que começam a adensar as ruas, como neste domingo, em todo o país, estão atuando como forças políticas pluripartidárias em ensaio geral de carnaval político pré-eleitoral que tende a dar o mote geral das mobilizações de massa em 2026; é o prenúncio de que emergirá o debate sobre o futuro do Brasil; a esquerda tem seu programa social formal, que garante Lula na dianteira das pesquisas, mas carece de programa para o país, como bandeira nacional aglutinadora; a direita não tem programa algum, senão o de sempre, entregar as riquezas nacionais para o capital estrangeiro; essa transferência tem sido cada vez mais cruel, como reconhece o economista americano Joseph Stiglitz, que vê canal de transmissão sanguínea direta de riqueza do sul global para o norte global por meio da financeirização econômica especulativa.
Neste status quo neocolonial financeiro neoliberal não se abre espaço para projeto nacional desenvolvimentista, como deseja a esquerda, salvo diante de mobilização de massas como poder emergente em ano eleitoral; a precarização dos partidos no cenário neoliberal, que predomina no Congresso desvinculado dos interesses sociais, produz dialeticamente, no entanto, a emergente mobilização social como a que se realiza hoje em todo o país.
Ocorre emergência de um basta da periferia capitalista superexplorada pelo rentismo aos mecanismos econômicos estabelecidos por Washington, que deixaram ter validade/utilidade diante das circunstâncias novas, que mudam a realidade da outrora hegemonia americana sobre o mundo; os países que fugiram da austeridade fiscal imposta por Washington, estão com mais liberdade para sobreviver economicamente; é o caso dos países do sudeste asiático, que assimilam mais de perto a influência chinesa, anti-Washington; mas, os que, como o Brasil, continuam ainda prisioneiros do Consenso de Washington, do tripé neoliberal e das regras ditadas de fora para dentro ao Banco Central “Independente”, para manter ortodoxia ultrarradical, ditada pelo mercado financeiro, caminham para a perigosa debacle.
Os movimentos sociais emergentes, como os que se espalharam pelo Brasil, neste domingo, é o antídoto dialético da anarquia econômica fixada pela financeirização econômica neoliberal, antinacionalista, sem projeto de nação.
As massas querem um projeto de nação para distribuir a renda nacional, o que não ocorre por estar o Estado prisioneiro do mercado financeiro, incapaz de organizar e planejar desenvolvimento econômico sustentável.
ELITE SEM CABEÇA E SEM PROJETO
Sem projeto, as elites econômicas tupiniquins pensam com a cabeça de Washington, que exige subordinação completa aos interesses do império; são sócias menores, subordinadas aos fundos financeiros de Wall Street, que manipulam as ações dos investidores na periferia dominada pelo rentismo; o Estado sequestrado pelo mercado, pelo sistema financeiro, por meio da dívida pública remunerada por juros de agiota, está subordinado ao mercado; o mercado governa o governo, é o poder de fato; o poder financeiro multiplicado pela Selic de 15% governa de fato; as mobilizações sociais são o antídoto a esse poder jurista, que afoga a economia.
REAÇÃO POPULAR À CORRUPÇÃO
O sufoco social imposto pelo mercado financeiro gera a contradição: reação popular; as movimentações e mobilizações sociais se transformam em fogueiras de indignação popular; o poder do mercado sobre o Estado democrático, condicionando a democracia aos interesses totais do mercado financeiro, gera reação social contra a corrupção, que se expressa aberta e despudoradamente no Poder Legislativo; o Congresso virou balcão de negócios às claras; a indignação popular emergiu para repudiar a PEC da Bandidagem; agora, mobiliza-se, novamente, diante do descarado projeto de lei da Dosimetria.
Dosimetria é o novo neologismo sinônimo de novo golpe político da direita e ultradireita no Congresso; a reação popular frente a esse estado de coisas é o fato novo político que avança para se expandir no ano eleitoral; quem está capitalizando essa nova força política, expressa na reação popular, são as mobilizações sociais como novo protagonista social, na ausência dos partidos políticos; a sociedade, diante do Congresso corrupto inimigo do povo, tem novo instrumento político de resistência nos movimentos sociais, não mais nos partidos.
A população descobre na carne que a sua precarização econômica decorre da roubalheira econômica amparada por Congresso inimigo do povo.
NEOTROPICALISMO:
ARTE VIRA ARMA POLÍTICA
Novo protagonista político no cenário emergente dos movimentos sociais é a cultura, por meio da qual as mobilizações se ampliam; hoje, o líder das mobilizações é Caetano Veloso, puxador de massa nas movimentações político-culturais contra o status quo dominado pelo fascismo corrupto de ultradireita bolsonarista financista em crise; a arte se ergue como fator político fundamental na tarefa de mobilização das massas; a nova revolução está sendo dada pelas artes, contribuindo, decisivamente, na mudança da correlação de forças; Caetano ressuscita o neo tropicalismo social que mistura todas as raças para fortalecer o grito de indignação contra a corrupção que tomou conta do Congresso, desde o golpe neoliberal de 2016, que derrubou a presidenta Dilma Rousseff por impeachment sem crime de responsabilidade capaz de caracterizá-la.
A direita tomou o poder na mão grande, na manipulação das instituições dominadas pelo pensamento neoliberal golpista que desembocou no bolsonarismo; o neotropicalismo militante da arte revolucionária brasileira apoia as decisões da justiça que colocaram Bolsonaro na cadeia; aplaude o STF que cumpriu seu papel constitucional; o ministro Alexandre de Moraes foi eleito personagem do ano pelo Financial Times e, agora, o presidente Donald Trump volta atrás na decisão de punir o ministro brasileiro com a Lei Magnitski; derrota fragorosa do bolsonarismo, desmoralizado em seu moralismo barato enganador diante da crítica mundial; Tramp se desfez de um incômodo.
DESENCANTO COM TRUMP
A direita e ultradireita estão politicamente órfãs diante da decisão de Trump, que representou tiro na cabeça do bolsonarismo; o presidente americano deixou os bolsonaristas de lado porque a aproximação com Lula se revelou de maior utilidade para a realpolitik de Washington; diante desse novo quadro das relações Brasil e Estados Unidos, as elites tupiniquins estão atordoadas; são obrigadas a admitir que Trump não tem preconceitos em negociar com Lula, a partir de sua condição social; Lula, ao contrário, é tratado com preconceito social pelas elites tupiniquins, o que revela atraso cultural subdesenvolvido, evidência de que a direita capitalista periférica sem cabeça para pensar por si própria gera instabilidade econômica e risco ao investidor; a esquerda, com Lula, ao contrário, estabiliza e permite avanço de investimentos sem tumultos reformistas e revolucionários desestabilizadores.
Pragmático, Trump está demonstrando que precisa se dar bem com o Brasil, ao contrário do que está acontecendo com Venezuela e Colômbia, porque o Brasil, simplesmente, é o país mais forte e rico da América Latina; ele usa a linguagem da força; pela mesma razão, ele está tendo deferência especial com Putin, Rússia; Xi Jinping, China ; e Modi, Índia, porque são países líderes da economia mundial, junto com os Estados Unidos; o chefe da Casa Branca sabe que a hegemonia americana acabou; precisa barganhar, e prefere a negociação com os mais fortes; Lula é forte porque o Brasil é forte; o líder americano é pragmático e fixou a química que considera ideal para atrair Lula como aliado, não o deixando ser atraído pelo poder econômico asiático liderado pela China.
EXEMPLO DE GETÚLIO PARA LULA
Getúlio Vargas, na segunda guerra, negociou com Roosevelt vantagens comparativas: liberou o território nacional(Rio Grande do Norte), como base militar temporária dos Estados Unidos para ter acesso mais fácil à África, na guerra contra Hitler, em troca da instalação de siderúrgica nacional como base da industrialização futura do Brasil; dirigente de país capitalista periférico, Getúlio negociou com dirigente máximo de uma superpotência capitalista(EUA) o futuro desenvolvimentista nacionalista, que seria comandado pelo trabalhismo, capitalismo com perfil social; depois da guerra, Getúlio desarmou a base militar americana em perfeita sintonia com Roosevelt, admirador do presidente brasileiro, que lhe influenciou no plano econômico do New Deal, como reconheceu, publicamente.
Mutatis mutandis, Lula, como Getúlio, está em negociação com Trump em meio à debacle bolsonarista; o titular da Casa Branca quer as riquezas minerais, mas Lula quer a negociação que envolva industrialização no Brasil dos minerais estratégicos; Lula, presidente que pensa como sindicalista metalúrgico, como escola política, quer exportar valor-trabalho agregado como o suprassumo da riqueza nacional; ou Trump paga esse preço ou Lula tem a China como opção preferencial; como Trump não quer perder Brasil e América Latina para China, fará o que fez Roosevelt: contribuir para a industrialização brasileira.