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quarta-feira, 4 novembro 2026

Milícia, faixa presidencial, Eclesiastes, e a derrota da vaidade

Emiliano José

stava tudo certo: o miliciano vestiu a faixa, começou a falar como presidente da República logo após ter chegado ao segundo turno com ligeira vantagem sobre o presidente Lula.

Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, mas não é o caso de quadrilhas organizadas, sempre apressadas, e raramente cuidadosas. Embora uma organização criminosa constituída já há muito tempo, fundada em raízes familiares, a quadrilha miliciana apressou-se, certa de já poder sentar à cadeira presidencial.

Havia vários ministros nomeados, ou assim se pensavam, o mais destacado nome o da Fazenda, Daniella Marques. Ela me fez lembrar o Eclesiastes, linda e pequena peça bíblica, a dar lições de desapego aos bens terrestres, a negar felicidade aos ricos, prepara o mundo, ou pretende prepará-lo para a ideia de a bem-aventurança pertencer aos pobres.

Há momentos do Eclesiastes, com desculpa de uma espécie de licença poética, e sem receio de anacronismos, há passagens no livro a lembrar uma atitude anticapitalista – formulação minha decorrente do uso do cachimbo, a deixar a boca torta.

Devia ser mais lido, e não apenas por esse lado, mas, ao pensar na ministra da Fazenda, me valho da abertura e da finalização do pequeno livro: “Vaidade das vaidades” – diz Coélet – vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.

Me senti tentado a valer-me, quase com deleite, de algumas belas passagens do pequeno livro, mas me reprimi para não fugir muito da vaidade da ministra. Nele, há muita poesia.

Tão ministra quanto o filho do golpista: antes do resultado final e na pátria de escolha dele para abrigo após a fuga covarde, auto-declarado presidente. Só recua nos EUA por conta de uma admoestação do próprio Trump, interessado, no final de contas em não romper com o Brasil, por nada fosse porque há imensos negócios a preservar, e capital não rasga dinheiro, muito menos o bilionário presidente norte-americano.

A vaidade da ministra auto-imposta deixa-a refém do Eclesiastes, não quanto à imensa poesia nele contida, mas por conta desse sentimento a engolir muita gente, levar muita pretensão à derrocada, a provocar vergonha alheia, não fosse a dela própria.

Mas, quanto à vaidade, não há nada de novo sob o sol, como afirma a sabedoria bíblica, logo no começo do nosso livro.

A ministra deitou falação. Quem já é ministra, e ela se considerava, quem está autorizada pelo presidente da República, e o filho do golpista assim pensava ser, podia falar abertamente do projeto de sangria do povo brasileiro.

Ataque de sincericídio: cortar sem dó nem piedade, tirar o couro do lombo do já tão castigado andar de baixo, de modo a preservar os “sagrados direitos” do andar de cima, não os tivesse tantos, e de alguma maneira sempre preservados.

Acabar com todas as políticas públicas voltadas ao atendimento dos mais pobres, implementar com rigor as chamadas políticas de austeridade, essencialmente políticas protetoras do capitalismo, sólido sustentáculo do capitalismo moderno, como diria com propriedade Clara Mattei no indispensável ” Ordem do capital : como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo”, de autoria dela.

Tais políticas foram superradicalizadas sob o neoliberalismo, especialmente com a chamada independência, ou autonomia, como se queira chamar, dos bancos centrais, a se contraporem sempre a quaisquer medidas dos Estados voltadas a atender aos mais vulneráveis, num óbvio atentado à democracia

Faltou à organização criminosa combinar com os russos. Pretensiosa, acreditou na impossibilidade de reversão da vantagem obtida no primeiro turno – ao contrário, tinha certeza fosse ampliá-la.

Deu ruim.

Aconteceu o milagre de que fala Hannah Arendt – o milagre da ação política, Corações e mentes do povo brasileiro se uniram, provavelmente de maneira jamais vista em nossa história e aqui, cabe acentuar, de modo essencialmente espontâneo.

Enquanto escrevia, recebo telefonema do querido Waldemar Oliveira, notável militante, ex-PCB, ex-vereador, ex-presidente da Federação das Associações de Bairro de Salvador (FABS), maior liderança da Fazenda Grande, promotor da Festa do Lixo, conhecedor de todos os botecos da cidade, os antigos e atuais. Conhecedor e frequentador assíduo, já passados dos 81 anos, e com disposição de luta, um incansável batalhador das melhores causas.

Ele falava das inúmeras caronas dadas por ele no dia das eleições para pessoas mais velhas e com deficiência, todas rogando para votar. Contou o caso de uma amiga, cuja dedicação levou-a a fazer 20 viagens no carro dela, levando e trazendo pessoas de Dias D’Ávila, município da Região Metropolitana de Salvador, modo a cumprirem o sagrado direito do voto, em Lula, naturalmente.

Exemplos que se multiplicaram aos milhões Brasil afora, a permitir aos mais velhos, aos deficientes, a todas as pessoas com dificuldades de locomoção, a permitir o voto – eis o resultado da ação política, levada adiante pelo sentimento de amor ao Brasil, pela disposição de não permitir o retorno à barbárie, ação disposta a derrotar a arrogância e as propostas criminosas do fascismo, presentes ali na esquina, felizmente projeto derrotado.

O povo brasileiro realizou o milagre de que fala Hannan Arendt, derrotou a vaidade recriminada no Eclesiastes, consagrou a maior liderança da história do Brasil, ao lhe conferir inédito quarto mandato pelo voto. Milagre a ser atribuído rigorosamente à disposição de luta do andar de baixo, enfrentando a arrogância dos de cima.

#vidamorte

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