Helena Iono
Após a aprovação no Congresso, em 19 de março, do decreto presidencial de um novo acordo com o FMI, assinando um cheque em branco com incógnitas sobre valor, prazos e condições de pagamento, chegou em 14 de abril à Argentina o Secretário de Tesouro dos EUA, Scott Bessent, para definir as incógnitas em papel, a portas fechadas com o governo de Milei: o novo programa, dito de Facilidades Estendidas, consiste num empréstimo de 20 bilhões de dólares, com adiantamento de 15 bilhões neste ano. Contraditoriamente, o anúncio do presidente em cadeia nacional de TV parecia um funeral, enquanto a foto de grupo, após a visita do enviado norte-americano, e a assinatura do acordo, era uma grande festa. O que festejavam?
Os libertários do Liberdade Avança (LLA), festejam a liberdade de comprar dólar, o fim do dito “cepo” (limitação à quantidade de compra do dólar oficial)? A festa é para os empresários, importadores e exportadores, os especuladores financeiros, não o cidadão comum. A fumaça do “fim do cepo” serviu a desviar a atenção sobre o fracasso econômico, a ocultar alta inflacionária, justificar as manobras cambiárias e receber o apoio do FMI.
Quem não festeja é a maioria do povo argentino, dos trabalhadores, aposentados e pequenos empresários e comerciantes, que constataram o que o INDEC anunciou: a alta de 3,7% na inflação de março, e uma grave subida do custo de vida e caída do poder aquisitivo dos salários. São os mesmos que já viveram este filme de terror, pagadores da dívida, nos governos do menemismo, e do Macri, privando-se dos seus direitos. A foto da realidade dos supermercados e comércios vazios, pós remarcação automática dos preços com a subida do dólar; rumo à recessão.
Coube aos governos peronistas/kirchneristas, posteriores à contração das dívidas com o FMI por governos neoliberais anteriores, pagar as heranças malditas, sem poder cumprir plenamente seus programas transformadores, em meio a críticas internas dos movimentos sociais. E agora, um novo endividamento, sem que a Argentina tenha pago os 45 bilhões de dólares contraídos por Macri (boa parte escapada pelos devedores aos paraísos fiscais).
Um novo acordo com o FMI, não implica festejar dólares que entram, mas, chorar e apertar os cintos do trabalhador argentino que pagará a dívida, ao longo dos anos, do custo das privatizações, da redução do Estado (na área da saúde, educação, da cultura, das obras públicas e dos direitos humanos), da reforma previdenciária, da redução dos salários e do desemprego massivo. Outras exigências do FMI são: maiores impostos e regulações, reforma tributária e freio às negociações livres das paritárias. Enfim, deve-se acelerar o que já ocorre no governo atual. Segundo dados oficiais, divulgados por C5N, desde o início do governo Milei a janeiro de 2025, houve 194.479 desempregos de assalariados formais; as negociações paritárias -6,8% por trimestre; o consumo massivo caiu -5,4.
Tudo, num contexto de crise do dólar e da matriz central norte-americana perdendo sua hegemonia, levando Trump a decretar a guerra da taxa alfandegária ao mundo. Não há o que festejar, senão, prever catástrofes. Se nem Trump consegue um embate pacífico contra a nova potência chinesa, nem restabelecer a sua indústria nacional sem exclusão e contestação social interna, o que esperar de Milei, presidente que renega a soberania da Argentina sobre as Ilhas Malvinas, criando mal-estar nos ex-combatentes argentinos?
Quem festeja é o FMI, que é um dos braços da dominação norte-americana para apoiar governos subalternos que garantam a usurpação, via privatização dos minerais, do lítio, cobre, petróleo, etc.., como já dito pela ex-comandante Laura Richardson, e reiterada por Marcio Rubio que não oculta querer instalar bases militares na América Latina. O Equador, El Salvador e Argentina são candidatos.
Não faltaram pronunciamentos da ex-presidenta, Cristina Kirchner e do governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, contra Milei e o acordo com o FMI. Tudo isso, soma-se ao mal-estar no campo da oposição, às declarações da diretora do FMI, Kristalina Georgieva elogiando Milei por ter “alcançado grandes avanços” … “reformas estruturais e disciplina fiscal”. Prometeu apoio às mudanças econômicas e ajustes. Ou seja, ficou claro que por trás dos elogios públicos de Georgieva, estão as condições do empréstimo e exigências nas visitas fechadas dos Secretários-EUA.
Há boas matérias de informação e análise de economistas argentinos, entre eles, Ricardo Aronskind, como “Festejando o fracasso”. Leiam no Tecla@ene.
“É uma grande atração para os políticos da oposição enfatizarem a inflação crescente que o próprio Milei colocou como bandeira da maior demanda possível para as massas. O paradoxo é que falar apenas de inflação e ignorar os problemas estruturais do país — quase invisíveis para a maioria despolitizada e desinformada — continua a reforçar os mantras que a direita conseguiu impor.” ….
“E está estragando tudo porque, desde que o governo anunciou uma “faixa” de câmbio flutuante entre 1.000 e 1.400 pesos, começou uma corrida abusiva de preços digna de catástrofes maiores, gerando um fenômeno econômico ainda mais danoso: os preços dos produtos comercializados localmente em dólares estão subindo! Enquanto as pessoas comuns estão sentindo o peso de uma desvalorização que ainda não atingiu oficialmente os 30% que poderiam ter sido previstos. Os exportadores agrícolas, como sempre, querem esperar que a taxa de câmbio da moeda suba para o nível mais alto possível.”
O FMI vem para reforçar a direita na América Latina contra a China
A nova intromissão do FMI chega num contexto global em que os EUA estão perdendo a hegemonia frente à nova potência que é a China, apoiadora de um mundo multipolar. O enviado norte americano elogiou o governo Milei, os ajustes e pediu que a Argentina cancelasse o Swap com a China, um dos maiores sócios comerciais.
O protagonismo da China, baseada numa planificação estatal socialista, centralizando a conformação do BRICS e da Nova rota da seda, apoiado pela Rússia, põe em xeque mate as pretensões imperialistas na América Latina. Enquanto Milei assinava o acordo com o FMI, a IX Cúpula da CELAC se reunia em Honduras, com fortes pronunciamentos de integração latino-americana de Lula, Maduro, e Claudia Sheinbaum, entre outros; e elegia Gustavo Petro da Colômbia como seu novo presidente pró-tempore. “Resgatando o espírito plural e pragmático que nos uniu nos anos 2000 e que levou a construção da Unasul e da própria Celac“, disse Lula.
Pergunta-se como se organizam as forças de oposição, o peronismo, os sindicatos e movimentos sociais para dar uma saída ao que não se pode denominar “crise”, mas um “saqueio” à vida e aos direitos humanos, acompanhado de repressão policial contra as manifestações semanais dos aposentados. A CGT, CTAs, ATE e vários sindicatos as têm apoiado e realizaram um dia de greve nacional (10 de abril) contra o governo. Programam para o dia 30 de abril uma manifestação por ocasião do dia do trabalhador (1 de maio).
Houve, recentemente, reações e aprovações congressuais impostas pela União pela Pátria e aliados: em 3 de abril a votação pela desaprovação de um juiz (Manuel Mansilla) da Corte Suprema nomeado por decreto presidencial; e a formação de uma Comissão Política para investigar o envolvimento de Milei e seu gabinete na estafa do caso $Libra. O PJ (Partido Justicialista) prepara-se para um Congresso Nacional com chances de reordenar as forças internas e buscar uma unidade programática para enfrentar o governo.
O legado do Papa argentino à humanidade
A Argentina conseguiu gerar, além de Peron/Evita, figuras históricas que transcenderam fronteiras, como o Papa Francisco, que do bairro popular de Flores, chegou e rompeu masmorras do Vaticano e despertou sentimentos e vontades de justiça social, deixando o legado e a tarefa para a humanidade materializar – com políticas concretas contra o poder hegemônico – os preceitos religiosos em benefício dos pobres e excluídos. Francisco não foi um mero pregador, mas um comunicador político universal e revolucionário; defendeu o povo palestino em Gaza, o povo e a história cubana; estimulou a romper passividades e ocupar as ruas, e os sindicatos a ser a voz dos que não têm voz. Francisco não voltou a pisar na Argentina, mas enviou mensagens de amor a seu povo, seu país e suas origens, e preocupações pelo momento atual.
“Volte às tuas raízes e arme o teu futuro desde as raízes desde onde te querem lançar. Não renegues a história da tua pátria. Não renegues a história da tua família. Não negues a teus avós. Busque as raízes. Busque a história. E a partir daí, construas o futuro. E aqueles que te dizem que os heróis nacionais já passaram, que não tem sentido, que agora começa tudo novamente… Ria-lhes na cara. São palhaços da história.” (Papa Francisco)
As perdas e mortes podem dar uma sacudida na consciência social. Há personagens insubstituíveis, mas a comoção e a sensação de orfandade que sentiu o povo argentino, frente ao poder vigente, estará por transformar-se e fazer jus à sua história. Não há hipocrisia dos poderosos que poderá encobrir os verdadeiros caminhos pela transformação social propostos pelo Papa Francisco.


Helene Iono
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