Quando chegou a vez da terceira turma – menina, tu não vais acreditar – eis que surge aquele que iria ser teu avô, pedindo para assistir outra vez História da Amazônia como ouvinte. Ele já conhecia de trás pra frente o conteúdo e a bibliografia. Impus uma condição: “Fica, mas vai me ajudar como se fosse estágio-docência”. Ele ficou. E ajudou. Muito. Pergunta do Balkar e da Luísa que eles te contam.
Sempre dava carona pro teu avô quando ele era estudante. A gente saía do campus e ia jogando conversa fora durante o trajeto. Criamos um grupo de estudos com alunos, todos unidos na amizade e na paixão pela História da Amazônia, com a esperança de que assim contribuiríamos para melhorar a vida dos amazonenses. Produzimos coletivamente vários artigos, algumas traduções e dois livros. Vais estudar mais tarde em um deles adotado pelas escolas de Manaus: A Amazônia Colonial (1616-1798), que tem coautoria do teu avô. Avisa coleguinhas e professora: – Esse é meu vô.
Minha bisa Amazonina sempre estimulou a independência do filho, mas devido as sequelas da poliomielite recomendava que ele evitasse brincadeiras arriscadas. O conselho entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Intrépido, ele apostava corrida de bicicleta com os amigos, saindo da rua Vista Alegre rumo à Colônia Oliveira Machado, passando pelo aeroporto de Ponta Pelada e voando de volta para o Educandos.
Quando meu vô foi internado no hospital, pedi da mamãe uma foto dele e montei um oratório com um abajur astronauta que replica o sistema solar no teto, um terço, duas velas e uma escultura de Nossa Senhora em madeira balsa feita pelos indígenas de São Francisco do Bujaru, em Iranduba. Minha mãe e eu rezávamos todas as noites pela saúde do “Bom Velhinho”, assim eu chamava meu vô. Era a hora de ele ir embora, mas a reza deixava a gente mais serena e confortada.
1.Francisca Deusa Sena da Costa. Quando viver ameaça a ordem urbana: Trabalhadores urbanos em Manaus 1890-1915. Dissertação de Mestrado orientada por Heloísa Faria Cruz. São Paulo. PUC. 1997