Por Odalys Troya Flores (*) Havana (Prensa Latina) O senador do Polo Democrático Iván Cepeda assegurou que o Acordo de Paz na Colômbia foi uma conquista histórica do povo, mas fazer um balanço de sua implementação nos convida a ver suas luzes e sombras.
‘Foi um acordo inédito, não só na Colômbia, mas também no mundo, reconhecido por diferentes instâncias da comunidade internacional’, disse o deputado. No entanto, disse ele, a implementação é muito difícil porque há setores que querem viver no passado, continuar a promover a guerra e o conflito.
São setores que viveram a guerra e a violência na Colômbia, que fizeram da violência um sistema político e econômico, afirmou o político da oposição.
A implementação do Acordo é ameaçada não apenas pelas tentativas de impedir o seu endosso, mas também pelos assassinatos sistemáticos daqueles que procuram implementação nos territórios em conflito e dos próprios signatários que demitiram as armas e entraram na vida civil.
Ele lamentou que ex-guerrilheiros e ex-guerrilheiros sejam perseguidos e suas famílias também assassinadas.
O defensor dos direitos humanos também destacou que há mais de 250 ex-guerrilheiros que sacrificaram suas vidas para cumprir o processo de paz. ‘Os números são assustadores porque ocorre um massacre a cada três dias, especialmente em locais onde o governo deveria implementar o Acordo de Paz’, explicou Cepeda.
A cada três dias um líder ou líder social é assassinado e a cada seis dias morre em ação violenta alguém que pertencia às FARC-EP.
‘Isso é de natureza sistemática e muitas vezes há setores mafiosos políticos e econômicos por trás que não querem que ocorram mudanças políticas, reformas agrárias, ou que as vítimas camponesas possam recuperar suas terras’, frisou à Prensa Latina.
Para o filósofo, são muitos os interesses por trás desses assassinatos e o governo nesta situação continua a aplicar o mesmo esquema e o que faz é militarizar as regiões e territórios ainda em conflito.
Isso significa que a violência continua se reproduzindo e não é possível passar às mudanças formuladas no Acordo de Paz alcançado após quase quatro anos de diálogos e negociações em Havana, Cuba.
Um descumprimento sistemático por parte do governo Iván Duque persiste em promover o ataque ao processo em diferentes momentos e de diferentes formas, comentou.
PONTOS DE ACORDO MAIS LONGOS
‘Existem violações gravíssimas ao primeiro ponto do Acordo, relativo à reforma agrária rural abrangente, que previa a recomposição da posse da terra’, explicou.
Em muitos lugares da Colômbia, o governo teve que entregar terras aos pobres, despossuídos e aqueles que roubaram suas terras, cerca de três milhões de hectares, legalizar e titular e impulsionar a economia camponesa, ele recapitulou.
Nada disso é cumprido de forma satisfatória, nem os programas de desenvolvimento implícitos no Acordo, como planos de desenvolvimento ou programas com enfoque territorial, e em qualquer caso são executados de forma bastante fragmentada, afirmou.
‘O mesmo pode ser dito do segundo ponto: a reforma política democrática não se cumpriu em seu conteúdo essencial, a norma que deveria reformar o sistema político não foi levada ao Congresso’, acrescentou o senador.
Sobre a mudança na abordagem do tráfico de drogas, ainda há graves descumprimentos porque a substituição de lavouras ilícitas por lavouras da economia camponesa é tratada de forma bastante fragmentada, acrescentou.
‘Não foi conseguido desde que o governo do presidente Iván Duque deixou de destinar recursos a essas tarefas e, pelo contrário, pensa em voltar ao esquema de fumigação para uso ilícito, que é um retrocesso aos tempos difíceis vividos no passado , ‘ele disse.
A fumigação dessas lavouras gera processos de deslocamento das comunidades que estão nos territórios de cultivo da coca, disse Cepeda.
No tocante às vítimas e à justiça e ao direito à verdade e à reparação, embora tenha sido parcialmente cumprido, foram observados avanços muito importantes porque se criou um sistema integral de justiça e reparação verdadeira, que vem produzindo decisões, afirmou.
‘A Comissão da Verdade trabalhou intensamente nestes anos, assim como a Jurisdição Especial de Paz e a unidade de busca de pessoas desaparecidas’, afirmou.
Também constatou o andamento do processo de reincorporação dos ex-guerrilheiros das FARC-EP, embora não tenham sido cumpridos de forma satisfatória em uma série de programas relacionados a esse processo de transição à vida civil.
ALIANÇA HISTÓRICA
Para o Cepeda, o Acordo ainda está para ser cumprido em um percentual elevado, mas a implementação não se limita apenas a esses pontos de cumprimento ou não cumprimento, mas também traz efeitos políticos benéficos.
Nesse sentido, o processo de paz significou uma mudança democrática no país, criou condições para que as forças políticas alternativas e democráticas tivessem mais espaço para sua ação, afirmou.
‘Despertou um grande movimento favorável à paz e, apesar de todos os ataques, o processo de paz consegue irromper até hoje’, frisou. Destacou que trabalhamos todos os dias para que o maior número de forças políticas, sociais e cidadãs forjem uma grande aliança com vistas a uma mudança histórica na Colômbia, já que há uma série de fatores e oportunidades que é significativo aproveitar
em consideração.
Ele garantiu que o país vive uma crise agravada pela pandemia Covid-19, com grande indignação da sociedade com a forma como este governo trata os problemas da crise de saúde.
‘As forças progressistas e alternativas têm crescido nestes anos, têm ganhado experiência, têm governado cidades, inclusive a capital do país, Bogotá, são figuras muito importantes de mulheres e homens que hoje têm um papel protagonista na vida do país’, descreveu.
Mas há um programa que está sendo proposto ao país para as mudanças que são necessárias em todos os setores, disse a senadora.
Espero que este caminho de convergência e de definições programáticas abra oportunidades no processo eleitoral que terá lugar em 2022, considerou Cepeda ao referir-se ao Pacto Histórico que se forja na Colômbia, ao qual se somam várias figuras e forças políticas.
‘Não estamos lutando apenas para ganhar uma eleição, ou para eleger algumas pessoas para o Congresso, ou para eleger uma pessoa para a Presidência. Queremos uma mudança de época, uma mudança histórica na Colômbia’, disse ele.
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(*) Jornalista da Redação Sul-americana da Prensa Latina


