Lima, 23 de julho (Prensa Latina) O fenômeno El Niño, que ameaça o Peru com grandes danos humanos e econômicos, pode levar Lima a questionar sua antiga reputação de cidade onde nunca chove durante o próximo verão austral.
Luis Vásquez, porta-voz da Comissão Multissetorial responsável pelo Estudo Nacional do Fenômeno El Niño (Enfen), disse à agência de notícias estatal Andina que o chamado El Niño Costeiro – que normalmente afeta o norte do país com chuvas e inundações e os Andes centrais e do sul com secas – também pode trazer chuvas para a parte central do litoral, em cujas margens vivem os habitantes de Lima.
No inverno, Lima costuma ser permanentemente nublada, o que, aliás, parece influenciar aspectos como as fachadas um tanto monótonas e os carros que são quase sempre pretos, azul-escuros ou cinza, e aquele céu cor de “barriga de burro”, como já foi chamado, deve-se aos efeitos do encontro, no mar peruano, das correntes frias de Humboldt e quentes do El Niño.
A camada de nuvens não é permanente, pois essas nuvens avançam para o interior, em direção aos Andes, onde se dissipam; isso pode se tornar coisa do passado devido ao aquecimento global, que, segundo previsões científicas, transformará Lima em uma cidade tropical, considerando que está na mesma latitude que a cidade brasileira de São Paulo.
Até alguns anos atrás, a capital peruana recebia apenas, no inverno, o que se chamava de garúa, uma garoa leve que durava horas e era mais incômoda do que prejudicial. Mas em 1975, um aguaceiro torrencial atingiu a cidade e durou 30 horas, segundo moradores antigos de Lima.
Como nunca chovia, as casas tinham apenas telhados planos e não telhados de duas águas, então não só as casas ficavam cheias de goteiras, como muitos telhados desabavam devido ao peso da água acumulada e as ruas alagavam porque, como nunca chovia, só havia redes de drenagem e não reservatórios que absorviam as águas da chuva, como acontece hoje em dia.
A única via expressa da época, construída em um nível diferente, transformou-se em uma verdadeira piscina onde centenas de carros ficaram presos, e nas colinas dos subúrbios, onde viviam migrantes andinos, o aguaceiro varreu moradias precárias, e as colinas amanheceram com uma cor azulada nunca antes vista porque – mais uma vez – como não choveu, a poeira acumulada nas rochas deu-lhes uma cor marrom.
Segundo Enfen, tal cenário poderia trazer novamente chuvas torrenciais, para as quais a antiga Villa de los Reyes não está preparada. Essa previsão poderia se concretizar em outubro e dezembro, quando a temperatura sobe para 38 ou 39 graus, desde que a previsão, por ora, seja apenas motivo de alarme e não se torne realidade.
Por enquanto, o El Niño praticamente eliminou o inverno nestas paragens, prolongando um verão que se estenderá até o primeiro trimestre de 2027 e que se manifesta no forte calor predominante.
O fenômeno também começa a afetar a economia e o emprego, com uma queda de mais de 70% na pesca (devido à fuga dos peixes do calor do mar) e o declínio nas vendas da importante indústria têxtil, que preparou roupas de inverno que ninguém compra por causa do calor opressivo trazido pelo El Niño.