Crianças enjauladas nos EUA.
Hugo Dionísio [*]
Donetsk? Mariupol? Belgorod? Pequim? Teerã? Caracas? Pyongyang? Havana? Não! Não! Não! Para o Tribunal Penal Internacional (TPI) é crime contra a humanidade: retirar crianças órfãs de um local de guerra, afastando-as de milhares de minas antipessoais e ilegais armadas, pelas forças do regime bandeirista; dar-lhes alojamento digno, comida, cuidados de saúde e, mais importante, educação de qualidade. Já, para o mesmo TPI, apreendê-las numa fronteira, separá-las dos seus pais, enjaulá-las por tempo indeterminado, apenas com água e alimentação, para, no final, deporta-las, à sua sorte, no país de origem… é um ato humanitário e de grande solidariedade com os povos oprimidos!
Foto: ICE Foto: Tomas Ayuso / Bloomberg
Estas fotos foram tiradas na fronteira dos Estados Unidos com o México, num dos inúmeros centros de detenção para crianças “desacompanhadas”, criados, a partir de 2009, não por Trump, não por Bush, mas pelo “democrata”, “humanista” e “pacifista” Barack Obama, cujo vice-presidente se chamava Joe Biden.
De acordo com alguns relatórios americanos, como o do Council for Foreign Relations, foram mais de 150.000 as crianças detidas, em 2021, 24% com idade inferior a 15 anos, sendo o fato mais relevante que: se o número de casos pendentes diminuiu sob o governo Biden; já o número de detenções aumentou a pique, sendo mais do dobro do que eram aquando da chapelada vitoriosa de Biden sobre Trump, nas sempre irregulares eleições dos EUA.
Estas crianças podem ser detidas em qualquer altura, não sendo necessária uma guerra senão a que opõe ricos e pobres. A esmagadora maioria são deportadas para o país de origem sem qualquer garantia de acompanhamento (72%) e, aquando da sua “estadia” nos campos de concentração (mascarados de “detenção”) criados para o efeito, estas apenas têm direito a água, alimentação e cuidados médicos, à americana, claro. De resto, têm um chão duro para dormir, uma manta para se tapar e nada mais.
Dá vontade de perguntar onde andam, então, os defensores dos direitos humanos, aqueles “honrados” juízes do morto TPI? Bem…. Esses, tempos a fio e, já sob o governo férreo de Biden – e da sua reduzida cúpula de plenipotenciários –, manifestaram-se, denunciaram e queixaram-se, até que o executivo que diz liderar as democracias contra as autocracias, emitiu uma lei a prever a possibilidade de pena de prisão, por atividade subversiva contra os interesses do estado – e sabemos que garantísticas são tais leis. A partir de então, problema resolvido. Nem mais um jornalista pôde captar tais imagens. Diria eu, que, fosse sob o reinado de Trump e que nunca teria acontecido…. Contraditório? Nem por isso.
O braço político da OTAN que é hoje a UE, encarregou-se de fazer o que Bush (e mais tarde Trump) tinha ameaçado fazer, em 2002, quando o TPI revelou a intenção de prosseguir as investigações de violação de direitos humanos – e que tão bárbaras foram, a fazer corar um qualquer exército medieval –, de que eram acusadas as forças militares americanas. A UE, literalmente, bombardeou o TPI… E bombardeou-o de tal forma que, a explosão não incidiu sobre a sua estrutura física, mas antes, sobre a sua credibilidade, a qual já estava pelos dias da morte. A UE e seus vice-governadores mataram, de vez, o TPI.
Se o “American Service-Members Protection Act” de Bush, revelou em toda a extensão, a dualidade de critérios relativamente à atuação do TPI, cuja ação, apenas incidindo, quase maioritariamente, sobre “criminosos” de países pobres da África, ou, como sucedeu com Milosevic, com países tomados por traidores à sua pátria; a ameaça de Trump em bombardear as instalações do tribunal, a propósito da intenção de investigação de figuras de proa do apartheid israelense, retirou-lhe qualquer margem de prestígio, transformando-o num mero instrumento publicitário. Diga-se que, até a TV francesa tinha financiado uma série televisiva sobre esta dualidade do TPI (Crossing Lines).
Ora, com a recente acusação, ao Presidente da Federação Russa (como se fosse ele, o responsável direto por tais atos), coloca-se uma questão muito importante, a respeito da imparcialidade, objetividade e ponderação a que está sujeito o funcionamento deste “tribunal”. Se os EUA não reconhecem a sua jurisdição e tal argumento funcionou para que os casos fossem arquivados… Porque não foi tal lógica aplicada a respeito da recente acusação? Mas a jurisdição dos EUA tem um valor distinto da Rússia? Como pode um órgão que pretende ser respeitado como “tribunal”, distinguir níveis de soberania, níveis de liberdade jurisdicional e diferentes motivos de exclusão da responsabilidade criminal, consoante os casos, as encomendas ou as disposições?
Sabermos que o Juiz presidente do TPI é um cidadão polaco, de seu nome Piotr Hofmański, não deixa de ser relevante para o caso. A decisão de funcionar como lança rockets contra o seu próprio tribunal, não estará desligada da sua nacionalidade e da natureza dos critérios que presidiram à sua seleção, promoção e eleição. Mas o que mudou, então? Porque razão os EUA, que não pretendiam, sequer, a investigação do ICC no âmbito da “Operação Militar Especial”, agora permitiram precisamente isso?
Bem, para além do costumeiro e desusado complexo de superioridade, arrogância e prepotência, o que aconteceu é que, quando olhamos para o ocidente, destes dias, ficamos com dúvidas de que se não terá havido, aqui, alguma troca geográfica, sem que, de tal, nos apercebêssemos. O facto é que, as sanções do “inferno”, visavam:
Criar o pânico nos mercados financeiros, o que está a acontecer, precisamente, com a banca, toda em queda, já tendo o SVB rebentado com mais três bancos e continuando a corrida ao dinheiro; segundo relatos diversos, num só dia foram levantados mais de 8,8 bilhões de dólares do DB – na sexta-feira, os mercados fecharam com o Deutche Bank a valer 18 vezes menos do que o JP Morgan;
Criar o pânico nos mercados de bens e serviços, o que, com a subida da inflação e a desvalorização da moeda, tal faria os preços aumentarem e começarem a escassear determinados bens de primeira necessidade, como sucede, em Inglaterra, com o racionamento dos vegetais;
Com as dificuldades económicas viria a turbulência social, de que é um exemplo o que se está a passar em Paris, com a repressão e a prisão de centenas de manifestantes, ou em Lisboa, com uma manifestação de largas dezenas de milhares de trabalhadores, bem como na Holanda, Alemanha, Bélgica, República Checa, Itália ou Espanha;
A instabilidade levaria à repressão, bem repercutida na intenção de se prender um líder da oposição (Donald Trump), não pelos crimes cometidos pela CIA, NSA, ICE ou FBI, mas por ter estado com prostitutas, quando no caso de Biden se esconde, censura e omitem as provas – factuais e documentadas – de corrupção, especialmente no âmbito do território ocupado pelos EUA, que é, hoje, a Ucrânia;
Com a repressão viria o autoritarismo, como sucedeu com o reizete tirano Macron, cuja “democraticidade” o levou a sobrepor-se ao parlamento e, sabendo que perderia a votação, optou por fazer sair a lei sob a forma de decreto, não cumprindo os requisitos da consulta pública, para, desta forma, aplicar uma medida que sabe ser contrária às pretensões de quem o elegeu; não contente, o empregado dos Rothschild, ainda proibiu as manifestações, em Paris, relacionadas com o sistema de pensões – em “democracia” temos de aprender a comer e a calar;
No calor da conflituosidade social, viria a censura dos canais de comunicação externos – casos da RT, Sputnik e todas as TVs do “inimigo” ou da perseguição à cadeia PRESS iraniana –, o condicionamento da opinião nas redes sociais, com a perseguição das figuras que se opõem ao regime – qualquer um que hoje vá ao Twitter, pode constatar a autêntica perseguição de opinião a que os bernardotes “liberais” sujeitam todos os que pensam de modo diferente;
Com a repressão e a opressão, viriam as quedas de governos, sendo já longa a lista de malditos governantes em queda por causa da “maldição” de Z e, ainda mais longa, aqueles “governantes”, meros funcionários servidores, cujos povos, já não podem ver à frente, por incapacidade total destes em resolverem os reais problemas (ainda hoje, num tribunal, um funcionário judicial me disse, a respeito da ministra da Justiça: é uma funcionária, com uma missão encomendada, e só lá está para isso mesmo e não para tomar decisões políticas);
Com o andamento da guerra, viria a crise de munições, aviões e outras armas pesadas, bem como a mortandade em catadupa, cada vez mais difícil de esconder…
Ora, toda esta factualidade, absolutamente apocalíptica, faz-me perguntar onde, afinal, se situa o ocidente e o oriente, e se não terá havido aqui alguma troca nas placas tectónicas, com o sismo da Turquia e Síria. É que, parece que, no ocidente, é que está a ocorrer o “inferno”, o mesmo que eles queriam que ocorresse na Rússia.
Ao contrário, na economia russa, tudo corre como se fosse este país a sancionar e não o inverso. A economia cresce desde Julho passado, no segundo trimestre, deste ano, o PIB já vai crescer de forma efetiva; o comércio exterior cresceu 8% em 2022 e em 2023 ainda será maior o salto, ao passo que, por causa das sanções, os países ocidentais estão com as balanças comerciais desequilibradas; a procura interna russa está a crescer e de forma sustentável, prevendo-se que o crescimento homólogo, em Abril, será de 5%; o superávit comercial em 2022 foi de 332 bilhões de dólares; a inflação, em 2023, já será de 4%, o défice de 2% e a dívida pública externa nos 17 ou 18%.
Nesta realidade invertida temos a explicação última da acusação do TPI. Uma bomba de areia para os nossos olhos. A verdade, é que é preciso retirar os olhares da crise profunda e estrutural que se desenvolve no ocidente coletivo e, para cujas elites corruptoras e genocidas, a pilhagem da Rússia é vista como a salvação, pois detém as reservas naturais que permitiriam catapultar uma nova reindustrialização à base de matérias-primas ao preço da uva mijona. Daí que, a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Melanie Joly, continue a dizer que a queda do “regime” constitui a principal aposta. A ver pelas pesquisas de opinião e pela recepção ao presidente russo, em Mariupol – cidade em aceleradíssima reconstrução –, bem que pode ir esperando deitada.
Parecendo que, está gente é tão inteligente e capaz que, todas as macumbas que concatenam, simplesmente funcionam ao contrário, eis que, esta acusação do TPI, não deixará de ter, também, o mesmo destino.
Primeiro, se o que pretendiam era usar este facto para atrair atenções, retirando-as da crise que atravessamos, já perderam este assalto, pois a ridicularização do ato, tanto por cá, como por lá, como pelo mundo todo, foi vista como uma farsa risível.
Segundo, porque, se o que pretendem é, apresentar ao mundo, o presidente russo, como um bandido, uma espécie de pilha galinhas, um intocável, deixem-me trazer-vos à realidade: hoje, para 87% da humanidade, tudo o que o ocidente faz é ridículo e apenas contribui para valorizar, como heróis, as figuras atingidas.
Terceiro, eu gostaria de questionar está trupe de governadores de quinta categoria, sobre o que eles pensariam que aconteceria se, um qualquer país, tentasse deter o presidente russo. Não se sabe, fazê-lo, seria equiparado a uma declaração de guerra, pois o mandato para a Rússia não é, sequer, ilegal. É ineficaz, é inexistente, pois juridicamente, o TPI não tem autoridade nos países que não aderiram à sua jurisdição.





