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Postado em 20/04/2016 8:17

Impeachment foi fabricado pela mídia

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 Por Mônica Mourão e Helena Martins, na revista CartaCapital:

A ausência de discussões profundas sobre a situação do país e o excesso de discursos reacionários que vimos no domingo 17 não se restringiram às falas deparlamentares na Câmara dos Deputados. Nos últimos meses, foram recorrentes também nos meios de comunicação brasileiros.

Desde o ano passado, toda uma construção de sentidos veio legitimando a aprovação da admissibilidade do pedido de impedimento da Presidenta Dilma Rousseff. Assim, a “opinião pública” – em essência, a “opinião publicada” pelos órgãos de comunicação hegemônicos –, um elemento essencial deste processo, se mostrou garantida neste jogo.

Não era preciso, portanto, ir muito além neste domingo. Assim, a cobertura do dia da votação foi permeada por uma maior sutileza em relação à exposição dos posicionamentos dos grandes conglomerados midiáticos – seguindo a tendência dos últimos dias, como já tínhamos mostrado neste blog.

Exceções em tom mais agressivo ficaram a cargo de emissoras de rádio como a Jovem Pan, que transmite em cadeia nacional e manifestou sistematicamente, num discurso grosseiro e conservador, seu apoio à queda do governo.

A TV Globo anunciou que acompanharia as movimentações no Congresso Nacional a partir das 9h da manhã. Poucos minutos depois, começou a entrar com flashes do jornalismo em meio à programação de esportes e entretenimento.

A partir das 14h, com o início da sessão na Câmara, deu exclusividade à cobertura política. Durante todo o dia, o equilíbrio da reportagem foi bem maior do que no início da crise, quando a Globo atuou como agente político importante, conclamando a população a ir às ruas contra o governo.

Contudo, o equilíbrio pretendido foi apenas aparente. Uma análise atenta permite perceber as artimanhas do discurso. Até o início da votação, ele se baseou principalmente em dois pilares complementares: a defesa da legitimidade do processo de impeachment e das manifestações de rua a favor da derrubada da Presidenta.

Logo em sua primeira participação, Alexandre Garcia tratou da derrubada de Fernando Collor, comparando os dois processos. Segundo o jornalista, desta vez, houve bem mais tempo entre o pedido de saída da Presidenta e sua análise pela Câmara do que ocorreu com Collor, em 1992.

Garcia também afirmou que o Supremo Tribunal Federal (STF) legitimou o processo, ignorando as opiniões contrárias de dezenas de juristas que defendem não haver motivos legais para o impedimento de Dilma e o fato de o Supremo ter se debruçado sobre o rito e não sobre o mérito da questão.

Mais tarde, destacou os atos pró-impeachment, dizendo que “a cidadania está nas ruas, mostrando que não fica em casa pra ver a banda passar”. As “ruas” foram identificadas com uma parte dos manifestantes apenas, constituindo mais um argumento a favor da legitimidade da mudança no comando do país.

Ao longo das entradas ao vivo dos atos, os milhares de manifestantes que saíram às ruas em todo o país contra a medida foram caracterizados como ligados a partidos políticos, à base aliada do governo, a centrais sindicais e ao PT (representado pela cor vermelha, ignorando que o simbolismo político dela é mais amplo e anterior à existência deste partido).

Na manhã da segunda 18, a manchete na capa do portal d’O Globo era nítida: “Manifestantes contra Dilma comemoram; petistas choram”. Dessa forma, a legitimidade das “ruas” foi construída de acordo com a agenda política da emissora, que optou inclusivepor invisibilizar setores críticos ao governo, mas que protestaram em defesa da democracia.

Cobertura rasa

A estratégia do Grupo Globo, seguida por boa parte da mídia brasileira, também se manifestou na cobertura rasa dos fatos e na ausência de jornalismo de fato. Registros dos atos e de declarações de deputados foram abundantes. Não se viu, contudo, apuração, investigação, contextualização e problematização do processo em curso.

Os argumentos que embasam o pedido de impeachment não foram apresentados, muito menos os de sua defesa. Nenhum convidado externo – nem mesmo um “especialista” alinhado ao posicionamento da Globo – foi convidado a discutir a situação do país.

Ao longo de toda a manhã, a GloboNews, principal canal jornalístico do país, se limitou a acompanhar atos favoráveis e contrários ao impeachment em diversas cidades, na cobertura comandada por Leilane Neubarth e Raquel Novaes. Uma vez mais, a escolha dos ângulos das imagens, em geral, favoreceu o primeiro grupo. Imagens muito abertas ou muito fechadas do ato em Copacabana contra o impeachment deram a entender que a quantidade de presentes era menor do que a realidade.

No Salão Verde da Câmara, após uma das entrevistas de Cristiana Lôbo com deputados, ao falarem dos parlamentares indecisos, Novaes chegou a questionar se a indecisão era porque eles não teriam chegado a uma conclusão jurídica ou se, de fato, o processo estava completamente “politizado”. A pergunta ficou sem resposta.

Apesar da crise profunda que vivemos, a política foi reduzida pelos meios de comunicação a artimanhas de bastidores e o processo do impeachment, a uma troca de ocupantes da cadeira. Assim, a suposta imparcialidade escondeu, na verdade, a escolha de não aprofundar a análise do fato e de suas implicações para o presente e o futuro do país.

A mesma abordagem tem marcado a cobertura do dia seguinte à votação. Os principais canais de TV insistem apenas em recuperar os números e movimentações que ocorreram no domingo e a descrever as próximas etapas do afastamento, agora no Senado. As críticas, uma vez mais, ficam a cargo da imprensa internacional.

O conservador La Nación, da Argentina, falou em “vergonhosa tentativa de golpe”. OPágina 12 tamém destaca, na capa desta segunda, a ocorrência de um golpe, anunciado em letras garrafais na edição. A votação de domingo é definida assim: “em um virtual golpe institucional, a Câmara dos Deputados do Brasil, presidida pelo político mais denunciado por corrupção, aprovou o impeachment contra a Presidenta Dilma Rousseff”.

Cunha protegido

Se lá fora a ficha corrida de Eduardo Cunha é considerada um elemento central deste processo, por aqui ela está longe de ganhar destaque. A TV Globo, antes da votação, cuidou de contextualizar seletivamente as figuras políticas envolvidas no jogo. Enquanto o líder do governo José Guimarães (PT) mereceu uma associação ao irmão José Genoíno, condenado no processo do mensalão, o presidente da Câmara não teve sua reputação posta em xeque.

William Bonner chegou a lembrar que ele é alvo de processos, mas sem explicar quais ouinformar que já há provas contundentes de corrupção praticada por Cunha, réu no Supremo Tribunal Federal e investigado pela Comissão de Ética da Câmara. Afinal, colocar dúvidas sobre quem conduz o processo de impeachment seria questionar a própria legitimidade da ação contra Dilma.

A imprensa escrita também aliviou para Cunha. Em matéria da Folha de S. Paulo que detalha biografias de participantes dos processos de Collor e de Dilma, Cunha é descrito como “presidente da Câmara dos Deputados, acolheu pedido de impeachment contra Dilma após ter perdido apoio do PT contra sua cassação”.

Já Dilma é a “acusada de ter praticado as pedaladas fiscais, entre outros” e Lindberg Farias é “senador (PT-RJ) investigado pela Operação Lava Jato, é um dos defensores de Dilma; afirma que o impeachment é ‘golpe’”.

Ao olharmos para a imprensa internacional, a diferença de abordagem fica clara. Nos últimos dias, The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post, os três principais jornais americanos, destacaram as acusações que pesam contra aqueles que conduzem o processo de impeachment, especialmente Eduardo Cunha.

Nesta segunda, o britânico The Guardian, ao comentar a derrota do governo, não apenas citou corruptos como Cunha, Paulo Maluf e vários outros deputados que votaram contra Dilma quanto destacou o teor reacionário de suas falas.

“Numa noite escura, o ponto mais baixo foi quando Jair Bolsonaro, um deputado de extrema direita, dedicou o seu voto ‘sim’ à Carlos Brilhante Ustra, um coronel que chefiou a unidade de tortura do Doi-Codi contra a ditadura. Rousseff, uma ex-guerrilheira, estava entre os torturados”, escreveu o correspondente, fazendo críticas a diferentes partidos políticos brasileiros.

Depois das falas ouvidas neste domingo na Câmara, está claro que os desafios colocadossão enormes. Um deles, até hoje não efetivado, embora reivindicado historicamente, é umamudança estrutural no sistema de comunicação do país. Ou enfrentamos esse debate, mesmo em meio à crise, ou não garantiremos qualquer diversidade de vozes e opiniões na mídia, e o poder da liberdade de expressão seguirá nas mãos de poucos.

Outras vezes veremos a democracia ser atropelada pela articulação de instituições que se valem de seu poder político, econômico e simbólico para definir os rumos da vida coletivado país. O Brasil acordou hoje mais cinza. E isso se deve também à ausência de reformas e à atuação dos meios de comunicação no jogo político.

* Helena Martins e Mônica Mourão são jornalistas e integram o Intervozes. Colaborou Iara Moura.

Comentários:

Uma ideia sobre “Impeachment foi fabricado pela mídia”

  1. MUDANDO AS REGRAS NO INTERVALO DO JOGO

    A sociedade brasileira, iludida sobre os times que disputam o Governo, digo, o Campeonato, caiu nos braços do pior contendor: o que só vê seu interesse imediato, pois nem mesmo uma visão a médio prazo possui, apenas o que lhe beneficia agora.
    Quem levou a sociedade a este beco sem saída? Creio ser oportuno investigar.
    Sem querer ser exaustivo, nem conclusivo, aponto, em primeiro lugar a chamada grande imprensa, propriedade de quatro famílias e de uma designação evangélica.
    Diuturnamente, ao longo dos últimos 12 anos, fez crer que o Campeonato Brasileiro era composto por ladrões. Em outro contexto histórico, mas de grande semelhança, isto já ocorrera na década de 1950.
    Não tratou os eventuais desvios de conduta como casos episódicos, frequentes em toda história do Brasil, em especial no Império, e como também ocorre em todos os países, em qualquer tipo de regime político e ideológico. Fez questão de universalizar o particular e generalizar cada questão.
    Assim, interesses inconfessáveis de uma parcela de jogadores, muitos com comportamento marginal – mão na bola e chute nas canelas – puderam ganhar força e assenhorear-se do gramado.
    Acresce que as regras do jogo nem sempre são claras e foi fácil para juízes e bandeirinhas, como nos poderes republicanos para os membros de um Judiciário ou um Ministério Público, ganharem uma espetacularização digna de artista da Broadway. E a sociedade, como que encantada, ouvindo discursos solertes como lindas canções e pedaladas como arrojados malabarismos, aplaudia.
    E dêem-se lhes prêmios. Oscar de juiz impoluto, mesmo envolvido em compra complexa, técnico de tática divina, ainda que torturador familiar, diretor dos sete instrumentos, cantando e tocando violão como adolescente sessentão. Alexandre Herculano, historiador conservador e romancista ilustre, escreveu no Prólogo da História das Origens e Estabelecimento da Inquisição em Portugal: “o vulgo……vocifera injúrias junto ao patíbulo do que morre mártir por ele, ou vitoreia a tirania, quando passa cercada de pompas que o deslumbram”.
    Assim, entorpecida, vê-se a sociedade brasileira no impasse: tira um time do campo, pois não conseguiu marcar gol, numa partida de erros de arbitragem, holofotes se apagando, vaias retumbantes, incapaz de denunciar os malfeitos dos adversários ou entrega o troféu aos que se credenciam com hipocrisia e despudor.
    Propõe-se, então, mudar o jogo, entre o primeiro e segundo tempo, com novas e inéditas regras.
    Em estudo sobre a economia francesa, ao tempo de Colbert, há uma reflexão que, em tradução livre e resumida, escrevo: ontem, como hoje, a crise econômica, por motivos políticos e questões sociais, leva à intervenção do Estado. Este esforço do Estado não é apenas para a reconstrução e reerguimento da Nação, mas para a manutenção do Poder.
    Deveríamos perguntar a todos que açularam estas vinditas e a defesa de interesses ocultos: que mágica farão agora para tirar o campeonato do atoleiro?
    A classe média das poltronas numeradas, grande vocalizadora das pretensas irregularidades, por medo e despeito do time de várzea que disputa a primeira divisão, perderá muito mais do que bons jogos. O campo estará dominado por quadrilha de gangsters, os árbitros se acovardaram ou se associaram à quadrilha e os fiscais do Estádio, ah! os fiscais, agem certos da impunidade pois pagam pedágios aos quadrilheiros.
    Quem mais irá aos gramados?
    Se isso ocorresse no Brasil de hoje, recomendaria à dirigente do campeonato a leitura dos sete volumes, disponíveis na internet, das “Lettres, instructions et mémoires de Colbert”, publicado por Pierre Clement. Como se sabe, Colbert foi muito criticado e sabotado pelos interesses de alguns, ainda remanescentes da economia feudal, ao tentar implantar, sob Luis XIV, medidas que industrializassem a França. O grande pensador econômico, Friedrich List, em seu Sistema Nacional de Economia Política (1841), o reabilitou, bem como René Gonnard, na História das Doutrinas Econômicas (1941), que chega a chamar Colbert de gênio.
    Nenhuma bandeira se mantém quando erguida por traidores, criminosos e psicopatas. Vade retro, também é expressão latina.
    Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado

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