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sábado, 20 julho, 2024

Hugo Chávez não foi um ditador

 

Venezuela – Jacobin – [Gabriel Hetland, Tradução de Alejandro García para o Diário Liberdade]

Bernie Sanders está equivocado — Hugo Chávez não foi um ditador.

Foto: Luigino Bracci (CC BY 2.0)

Querido Bernie,

Tal como outros milhões de norte-americanos, tenho acompanhado a tua campanha com um entusiasmo crescente. Estavas na mouche quanto aos efeitos perniciosos do crescimento da desigualdade e absolutamente correcto de que os Estados Unidos se parecem mais a uma oligarquia que a uma democracia. Aplaudo a tua vontade de directamente e repetidamente denunciar a classe bilionária que dirige este país. E também apoio com todo o coração a tua demanda por um sistema de saúde universal.

Tem sido um deleite ver Hillary Clinton a contorcer-se à medida que os teus valores nas sondagens sobem. Sorrio cada vez que imagino a possibilidade de um auto-denominado socialista a clamar por uma revolução política ganhar a nomeação do Partido Democrata. Estou animado com o facto de que tenhas colocado a luta contra o racismo uma prioridade ao lado do resto da tua agenda progressiva.

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Nesse sentido fiquei surpreendido e desgostoso ao ver-te a catalogar, a semana passada, o falecido Hugo Chévez como um “ditador comunista morto”. Esperaria isto de candidatos como Marco Rubio, Jeb Bush ou Hillary Clinton — não de alguém que apoiou os Sandinistas nos anos 80 e aceitou de Chavéz petróleo com descontos para o aquecimento de famílias carenciadas residentes em Vermont.

Eu sei que tens andado atarefado nestes dias, Bernie, e portanto compilei uma lista de dez razões por que deves pensar duas vezes antes de chamar a Chávez um ditador.

  1. Hugo Chavez foi eleito democraticamente. Não uma vez. Nem duas. Mas cinco vezes durante um período de catorze anos.
  1. Chávez ganhou-as com margens massivas. Triunfou nas eleições presidenciais de 1998 com 56% dos votos. Foi reeleito em 2000, alcançando 60% dos votos. Em 2004, Chávez ganhou um referendo com 59%. Em 2006, foi novamente vitorioso, obtendo uns impressionantes 63% de votos. E em 2012, enquanto morria de cancro, também venceu, desta vez arrecadando 55%.
  1. Nas raras ocasiões em que Chavez sofreu uma derrota política (e.g. o referendo sobre as alterações constitucionais de Dezembro de 2007) este aceitou a derrota imediatamente. É verdade que Chávez esteve envolvido em práticas que estão abertas ao criticismo, tais como a “engenharia eleitoral” [gerrymandering] e usar decretos executivos para contornar a oposição do congresso. Mas estas práticas são comuns em muitas das actuais democracias, incluindo a dos EUA, e muito dificilmente pode constituir uma evidência de que Chávez fosse um ditador.
  1. O sucesso eleitoral de Chávez não foi devido a fraude eleitoral. A oposição venezuelana (que promoveu um golpe de estado contra Chávez em 2002) e os média de massas dos EUA apresentam frequentemente esta acusação, mas não há evidências com credibilidade para a sustentar. Jimmy Carter disse, “das 92 eleições que monitorizamos [no Centro Carter], diria que o processo de eleições de Venezuela é o melhor no mundo.”
  1. A razão por que Chávez teve tanto sucesso político foi a implementação de algumas medidas do mesmo tipo que tu apoias. Assim que Chávez tomou posse, o estado venezuelano mais que duplicou os gastos em saúde e educação. (Sim, isto se volveu possível pelo alto preço do petróleo de 2003 a 2008, mas também porque Chávez teve sucesso em reafirmar o controlo do estado sobre o sector petrolífero, que estava quase totalmente privatizado nos anos 90.)
  1. As políticas implementadas sob Chávez levaram a enormes melhoramentos no acesso à saúde, educação, habitação e reformas. A pobreza na Venezuela foi reduzida em metade entre 2003 e 2008, com a pobreza extrema a decair 72%.
  1. Chávez também obteve progressos na questão que mais te interessa: desigualdade. Em 2012, Venezuela era o país menos desigual da América Latina.
  1. Não tinhas ainda declarado que querias construir o “socialismo do século XXI” e já a Revolução Bolivariana de Chávez mostrava pelo menos algumas semelhanças com o tipo de “revolução política” que clamas estar a favor. Em 1998, quando Chávez foi eleito pela primeira vez, a participação eleitoral era de apenas 63%, uma das mais baixas percentagens na história democrática de Venezuela. Nas últimas eleições de Chávez, foi de 81% — a percentagem mais alta desde 1988, quando votar era obrigatório. Em Dezembro de 2013, 59% dos votos registados foram para as urnas de eleições locais — uma participação superior a todas as eleições presidenciais dos EUA desde 1968. Houve também um aumento significativo do interesse dos venezuelanos em política durante o período em que Chavez esteve no poder. Nos três anos anteriores à tomada de posse de Chávez o interesse dos venezuelanos por política estava bem abaixo da média da América Latina (uns 7-8% cada ano). Desde 2003 o interesse dos venezuelanos em política tem estado consistentemente acima da média da América Latina. Em 2013, no ano da morte de Chávez, a percentagem de venezuelanos que expressavam interesse em política (47%) era a maior na América Latina e bastante acima da média da América Latina (28%).
  1. Sob Chávez, Venezuela obteve significativos progressos em direcção ao objectivo de se volver uma “democracia protagonista e participativa.” Isto foi feito através do estabelecimento de numerosos tipos de instituições participativas: conselhos comunais, comités de saúde e de água, comunas, orçamentos participativos e mais. Estas instituições não eram perfeitas mas fomentaram inquestionavelmente a participação de venezuelanos comuns a tomar decisões de poder. Tomei conhecimento de tudo isto em primeira mão ao longo de um ano de investigação em várias cidades de Venezuela, incluindo Torres, um município no centro ocidental onde os comuns cidadãos decidem como gastar a totalidade do orçamento para o investimento da cidade. Miriam Gimenez, uma activista “grassroots” de Torres, contou-me sobre as melhorias que viu quando Chávez esteve no poder: “a vida mudou substancialmente para o nosso povo porque este processo deu à sociedade um lugar para falar, para estudar, para trabalhar, para lutar. Agora sabemos que vivemos, que valemos algo e que podemos ter esperança de ter uma vida digna e país.”
  1. Representar Chávez como um ditador é um insulto profundo aos milhões de venezuelanos que o apoiaram. Os Chavistas não eram drones acéfalos que ofereciam o seu apoio a um “grande líder.” Eram e são participantes activos em uma confusa e imperfeita mas inspiradora e profundamente importante tentativa de forjar uma transformação radical.

Espero que tomes algum tempo para considerar estes pontos. Não apenas porque coisas más tendem a acontecer aos países da América Latina quando presidentes dos EUA chamam aos seus líderes, democraticamente eleitos, ditadores, mas porque Chávez envolveu milhões de pessoas em um processo democrático de reformas de longo alcance. E mesmo que tenhas em vista algo um pouco abaixo de Chávez, tu mais que qualquer outra pessoa deves reconhecer que “demonizar os vermelhos” irá simplesmente acabar por atrapalhar as teus próprios esforços de reformas.

Atenciosamente,

Gabriel

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