© flickr.com / Ricardo Stuckert
Sputnik – A decisão do presidente Lula de autorizar a entrega do canhão paraguaio El Cristiano expõe feridas históricas que a diplomacia do Cone Sul ainda não conseguiu cicatrizar: a Guerra do Paraguai (1864-1870), que ainda mantém chagas abertas entre os dois países e que recentemente provocou uma crise institucional entre os governos.
“[O presidente] Lula falou em um evento no interior de São Paulo sobre a importância de se investir na indústria de defesa do Brasil e usou como exemplo a Guerra do Paraguai. Ele citou um fato, que não é uma coisa marcada pela subjetividade. O governo Santiago Peña viu nessa fala uma oportunidade de marcar uma posição ideológica. Isso é uma forma de atribuir a Lula um desgaste em um ano eleitoral”, disse.
“Essa reatividade do Santiago Peña e do governo paraguaio mostra como a extrema direita está tentando agir em bloco no continente em submissão total ao governo Trump. Então a gente vê nisso um exemplo disso, os ataques recentes do Milei a Lula e esse melindre do Peña com uma citação [histórica] factual do Lula”, comenta.
Assunção também tem troféus de guerra brasileiros
“Depois da sinalização do aval de Lula à devolução do canhão paraguaio, o Exército Brasileiro pontua que haja pelo menos a reciprocidade, ou seja, em troca do canhão, que seja devolvido um navio a vapor brasileiro, o Anhambaí, capturado em 1865, logo no comecinho da Guerra do Paraguai, e que está em exposição no Paraguai, no Museu de Vapores”, destaca.
“[Quando] se entrega um item que é parte do patrimônio histórico, está-se fazendo uma concessão em nome de apoio político? Eu não acredito que essa devolução seria capaz disso. Esse incidente diplomático, que aparentemente se trata de um pedaço de ferro, por trás dele há confrontos de longa duração”, observa.
Caso entregue o canhão, Brasil pode abrir precedente
“[O canhão] é um item que faz parte do patrimônio cultural brasileiro, o canhão El Cristiano foi tomado pelo Exército Brasileiro como um troféu de vitória no contexto da Guerra do Paraguai. Do ponto de vista do direito internacional, isso [a devolução] não está previsto e não pode ser invocado. Então, o Brasil, nesse sentido, abriria um precedente do ponto de vista do patrimônio cultural, que seria caótico“, conclui.




