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sexta-feira, 12 junho 2026

Gregório Bezerra: o fio desencapado da memória brasileira

 

Foto: Acervo Iconographia

Por: Wagner França 

A história oficial o trata como nota de rodapé. Mas a trajetória do menino retirante que foi arrastado por um jipe no Recife e libertado em troca de um embaixador é um tratado sobre coragem, um espelho incômodo para um país que nunca acertou as contas com sua alma autoritária

O corpo franzino, de 1,60m de altura, não entregava o gigante. Quando os militares o amarraram pelos pés a um jipe do Exército na manhã de 1º de abril de 1964, Gregório Lourenço Bezerra tinha 64 anos, cabelos brancos como algodão e a arcada dentária já castigada por décadas de cárcere. O veículo arrancou e ele foi arrastado por quase dois quilômetros, da Rua da Aurora até o Quartel da Polícia Militar, no bairro de Santo Amaro, Recife. A multidão assistia em choque. Um sargento desferia golpes de fuzil. Civis chutavam o velho ensanguentado. Em dado momento, a corda se rompeu e um oficial ordenou que o amarrassem de novo, desta vez pelas mãos. A barbárie, que ficou conhecida como “o arrastão”, durou cerca de 20 minutos e foi fotografada. As imagens correram o mundo e se tornaram o retrato mais brutal do golpe civil-militar brasileiro.

Mas a história de Gregório Bezerra não começa nem termina naquele asfalto. Ela atravessa o século XX como um relâmpago teimoso, iluminando as entranhas de um país que prefere esquecer seus heróis populares.

A fome como escola

Gregório nasceu em 13 de março de 1900, no município de Panelas, agreste pernambucano, numa família de camponeses sem terra. Aos três anos, viu a irmã mais nova morrer de inanição nos braços da mãe durante a grande seca de 1903. “Minha irmãzinha foi enterrada numa cova rasa, sem caixão, enrolada num pano de saco. Eu perguntei a minha mãe por que ela não chorava. Ela respondeu: ‘Meu filho, a fome seca as lágrimas'”, relatou em suas memórias.

Essa experiência fundante o acompanharia por toda a vida. Aos sete anos, já trabalhava na roça. Aos dez, carregava sacos de farinha na feira. Aos doze, migrou sozinho para Maceió, onde foi vendedor de pão, engraxate e carregador de piano. Foi nessa cidade que, aos 17 anos, se alistou no Exército para escapar da miséria. Ali, um sargento chamado Aprígio, comunista, ensinou-lhe as primeiras letras e o apresentou às ideias de Marx e Engels.

O revolucionário profissional

Em 1930, Gregório já era um quadro destacado do Partido Comunista do Brasil (PCB). Atuava na organização de camponeses e operários no Nordeste, criando células clandestinas em usinas de açúcar e fábricas têxteis. Sua casa em Recife tornou-se uma escola de formação política. Ali, ensinava a ler e escrever usando como cartilha o Manifesto Comunista.

Em 1935, participou ativamente da Intentona Comunista, liderando o levante em Recife. Foi preso em 1936 e condenado a 28 anos de prisão. Cumpriu 11 anos em regime fechado, passando pela Casa de Detenção do Recife, pela Colônia Penal de Fernando de Noronha e pelo presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro.

Em Fernando de Noronha, foi submetido à temida “Sala da Capela” — uma cela minúscula, sem ventilação, onde os presos eram deixados nus, sem água e sem comida por dias a fio. Gregório passou 95 dias nesse inferno. Em determinado momento, os guardas o surravam duas vezes ao dia. Ele desenvolveu uma infecção generalizada na pele. Perdeu metade dos dentes. Mas não entregou um único companheiro.

“Sofri tudo o que um ser humano pode sofrer sem morrer. Mas havia algo que eles não podiam arrancar de mim: a certeza de que eu estava do lado certo da história”, escreveu.

O construtor de bases

Anistiado em 1945, Gregório saiu da prisão e voltou imediatamente à militância. Foi eleito deputado federal constituinte em 1946, mas teve o mandato cassado em 1948, quando o PCB foi colocado na ilegalidade. Mergulhou novamente na clandestinidade.

Entre 1945 e 1964, Gregório percorreu o Nordeste organizando ligas camponesas, sindicatos rurais e associações de bairro. Foi um dos principais articuladores da greve dos trabalhadores da Usina Catende, em 1962, que paralisou por semanas um dos maiores complexos sucroalcooleiros do país. Treinava militantes na arte da organização popular com uma obsessão quase pedagógica. “A classe trabalhadora não precisa de heróis solitários. Precisa de milhões de Gregórios”, repetia.

Um relatório do DOPS de Pernambuco, datado de 1963 e hoje disponível no Arquivo Público Estadual, o descreve como “o elemento mais perigoso da subversão no Nordeste”. O documento registra que Gregório havia “organizado células comunistas em 38 municípios pernambucanos” e “mantinha contato direto com Francisco Julião, Miguel Arraes e Luiz Carlos Prestes”. Era o reconhecimento, pelo inimigo, da sua eficácia como organizador.

Em 1957, liderou uma greve de trabalhadores da Fábrica da Macaxeira, no Recife. A paralisação durou 15 dias e envolveu mais de 2.000 operários. A repressão foi violenta: Gregório foi preso novamente e passou três meses encarcerado. Ao sair, reorganizou o sindicato e conquistou aumento salarial para os trabalhadores. “Gregório tinha uma qualidade rara entre os revolucionários: ele construía. Ele não apenas discursava, ele deixava organizações funcionando”, registrou o historiador Michel Zaidan Filho, em artigo publicado na Revista Brasileira de História em 2001.

O arrastão e a covardia institucionalizada

Na madrugada de 1º de abril de 1964, tropas do IV Exército invadiram sua casa no bairro de Casa Amarela. Gregório foi arrancado da cama, espancado e levado em um camburão. No trajeto até o quartel, o veículo parou na Rua da Aurora. Ali, oficiais ordenaram que ele fosse retirado e amarrado a um jipe.

O que se seguiu foi uma cena medieval em pleno século XX. Além do arrastão, Gregório foi obrigado a cavar a própria cova no pátio do quartel. Os soldados o colocaram de joelhos e simularam o fuzilamento. “Eles diziam: ‘Vamos matar esse comunista filho da puta’. Eu não tremia. Olhava nos olhos deles e dizia: ‘Viva o Partido Comunista Brasileiro'”, relatou.

A jornalista Márcia de Almeida, então repórter do Jornal do Commercio, testemunhou parte da cena e registrou em matéria publicada no dia seguinte: “O velho, ensanguentado, mantinha uma dignidade que contrastava com a selvageria de seus captores. Em dado momento, um civil bem-vestido se aproximou e cuspiu em seu rosto. Ele não desviou o olhar”.

O preso que o mundo libertou

Nos anos seguintes, Gregório passou por diversas prisões. Na base aérea do Recife, foi torturado com choques elétricos. No presídio da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, ficou em solitária por 18 meses. Sua saúde se deteriorou gravemente. Desenvolveu problemas cardíacos e uma hérnia estrangulada que quase o matou.

Em 1969, foi um dos 15 presos políticos selecionados para a troca pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick, sequestrado no Rio de Janeiro pela ALN e pelo MR-8. A lista foi uma exigência dos sequestradores, mas o nome de Gregório, por sua idade e estado de saúde, também sensibilizou a opinião pública internacional. O New York Times de 5 de setembro de 1969 noticiou: “Entre os libertados está Gregório Bezerra, 69 anos, veterano comunista que passou mais de 20 anos na prisão”.

Banido do Brasil, Gregório seguiu para o México e depois para Cuba. Em Havana, foi recebido por Fidel Castro como um herói continental. Passou uma temporada na União Soviética, onde fez tratamento de saúde e continuou militando. Em Moscou, redigiu as mais de 500 páginas de suas memórias, publicadas no Brasil em 1979 pela Civilização Brasileira. A obra é hoje considerada um dos documentos mais importantes sobre a história do PCB, a luta camponesa no Nordeste e a resistência à ditadura.

Nessas memórias, Gregório relata um episódio comovente: em 1975, em Moscou, encontrou-se com Luiz Carlos Prestes, exilado e já afastado do PCB. Os dois velhos comunistas, que tinham divergências políticas, se abraçaram e choraram. “Choramos como crianças. Choramos pelo Brasil, pelos companheiros mortos, pelos que estavam sendo torturados naquele momento. E prometemos um ao outro que voltaríamos”, escreveu Gregório.

O encontro com a história internacional

A prisão e tortura de Gregório foram documentadas por organismos internacionais de direitos humanos. O relatório da Anistia Internacional de 1972, Report on Allegations of Torture in Brazil, menciona seu caso como exemplar da brutalidade do regime brasileiro. “Gregório Bezerra, com 64 anos, foi submetido a tratamento cruel e degradante, incluindo espancamento público e simulação de execução”, diz o documento, baseado em depoimentos de ex-presos.

O relatório Batismo de Sangue, dos frades dominicanos, cita Gregório como referência moral para os presos mais jovens. Frei Betto, que esteve preso com ele, escreveu anos depois: “Gregório era o nosso patriarca. Quando estávamos desesperançados, olhávamos para aquele velhinho e lembrávamos que ele já havia enfrentado 28 anos de cadeia. Se ele aguentava, nós também aguentaríamos”.

A volta por cima — e o apagamento

Com a Lei da Anistia, em 1979, Gregório Bezerra voltou ao Brasil. No Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, uma multidão de mais de 3.000 pessoas o aguardava. Ele foi carregado nos braços do povo, como um herói. A cena foi capa dos principais jornais do país. Em Recife, a comoção foi ainda maior. Gregório desfilou em carro aberto pelas ruas da cidade, saudado por milhares de pessoas. Na Rua da Aurora, exatamente onde havia sido arrastado 15 anos antes, parou, desceu do carro e beijou o chão.

“Beijei o chão para homenagear o povo que me salvou. Porque se sobrevivi a tudo, foi porque o povo me protegeu. O povo brasileiro é o meu herói”, declarou, em entrevista à TV Globo Nordeste.

Aos 79 anos, ingressou no PMDB e candidatou-se a deputado federal em 1982. Sua campanha foi um fenômeno popular. Comícios lotados, abraços de trabalhadores rurais, lágrimas de velhos militantes. Mas não se elegeu. A máquina eleitoral do regime ainda vigorava, e o financiamento empresarial das campanhas não favorecia um comunista histórico.

Gregório morreu em 21 de outubro de 1983, em São Paulo, aos 83 anos, de insuficiência cardíaca. Seu corpo foi velado na Câmara Municipal de São Paulo e, depois, na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre. A bandeira vermelha que cobria o caixão havia sido costurada por camponesas do agreste.

O monumento atacado, a memória em disputa

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade reconheceu Gregório Bezerra como vítima de graves violações de direitos humanos. O relatório final, no volume dedicado aos mortos e desaparecidos, dedica páginas à sua trajetória e recomenda sua inclusão no panteão dos heróis nacionais.

Mas a memória de Gregório permanece sob ataque. Em 2017, o monumento em sua homenagem no Parque 13 de Maio, no Recife — uma escultura de bronze que o retrata de pé, com os braços erguidos — foi vandalizado por extremistas. Picharam a base da estátua com as palavras “terrorista” e “assassino”. O ato, filmado e postado em redes sociais, foi comemorado por grupos neofascistas. A Prefeitura do Recife restaurou o monumento, mas o episódio deixou claro que o fantasma de Gregório incomoda.

Incomoda porque ele é a prova viva — ou melhor, a memória viva — de que a ditadura não foi uma “revolução democrática” como apregoam os revisionistas. Incomoda porque sua biografia é a negação da ideia de que os comunistas eram “agentes do mal”: ele era um camponês que lutava por terra, comida e dignidade. Incomoda porque, enquanto houver quem o chame de herói, haverá quem precise encarar o fato de que o Brasil é um país que prendeu, torturou e baniu seus melhores filhos.

Gregório Bezerra não era um santo de altar. Era um homem de carne e osso, com contradições, erros e acertos. Mas sua vida inteira foi dedicada a uma causa que transcende ideologias: a luta contra a opressão. Ele enfrentou a fome, a tortura, o isolamento e a morte com uma coragem que perturba nossa mediocridade contemporânea.

“Enquanto houver um explorado, estarei em pé”, disse ele, já no fim da vida. O Brasil precisa decidir se quer mantê-lo de pé — ou se prefere continuar arrastando sua memória pelo asfalto.

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