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quinta-feira, 22 janeiro, 2026

Frantz Fanon: 100 anos de um legado revolucionário e anticolonial

Sputnik – Frantz Fanon, psiquiatra e intelectual martinicano, completaria 100 anos no próximo dia 20 de julho. Décadas após suas principais obras, questões colocadas pelo pensador seguem reverberando. À Sputnik, estudiosos contextualizam e falam do legado do autor.

A vida de Frantz Fanon tem a revolução em seu seio. Nascido em Fort-de-France, colônia francesa da Martinica, Fanon lutou junto do Exército francês durante a Segunda Guerra Mundial, anos antes de se formar em psiquiatria em Lyon.
No contexto de sua formação, o autor vai escrever o que seria seu trabalho de conclusão de curso, que não foi aceito pela universidade. Mais tarde, o texto descartado seria publicado como livro e se tornaria um dos principais trabalhos do autor: a obra “Peles Negras, Máscaras Brancas”.
Mais tarde, Fanon, instigado pelas injustiças coloniais, vai clinicar na Argélia e tem atuação, desta vez não no campo de batalha, em outro conflito, a Guerra da Argélia. Em Argel ele atua como psiquiatra e também escreve para a mídia da época. Os escritos e aquela vivência, posteriormente, desaguam em outra obra marcante, Os Condenados da Terra.
A luta anticolonial guiou o pensamento do autor, que, enquanto humanista, acreditava que a superação do racismo colonial era a chave para um mundo sem desigualdades e sem o imperativo do capital. Quase 100 anos após seu nascimento, a sociedade está longe do que o autor propunha e, também por isso, suas questões reverberam em tempos hodiernos.

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“Fanon é uma das bases para a gente começar os estudos sobre a questão racial”, descreve Leonardo Beliene, professor da rede estadual de educação do Rio de Janeiro, mestre em educação popular pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e especialista em África e cultura afro-brasileira pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).
Na mesma linha, Davi Carlos Acácio, jornalista e mestre em comunicação social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), coloca o intelectual martinicano.

“É um autor que eu colocaria entre os principais desse pensamento da questão, tanto da questão colonial, quanto da questão de um pensamento para a conscientização ou para a desalienação do negro, como ele mesmo coloca no ‘Pele Negras, Máscaras Brancas'”.

Para discutir o racismo colonial, o pensador fala que é “o branco quem cria o negro”, ou seja, “o problema do racismo é uma questão do branco”, afirma Acácio.
É nesse jogo entre “ser o outro de alguém”, no caso das pessoas negras, que Fanon vai entender as relações raciais, conforme Acácio. Nesse sentido, a partir dessa alteridade, a humanização será sinônimo do “ser branco”, enquanto ao negro “ficam os estereótipos do que está fora do sentido de humanidade”, acrescenta.
A “máscara branca”, que dá título à uma das obras de Fanon, está estabelecida nesse limiar, na “própria condição que o negro vai ter para tentar se associar ou assumir, de certa forma, determinados elementos simbólicos, como a linguagem, por exemplo, em busca de humanização”, afirma o jornalista.
Como o racismo não é tido como “problemas dos brancos”, o complexo de inferioridade ronda as pessoas negras em suas relações sociais, segundo o analista. “Tanto que muitos negros acreditam no seu fracasso como uma legitimidade pretensa de uma pele que o enclausura”, completa.
O pensamento fanoniano, nessa vertente, trabalha para questionar esse pretenso sentimento de pequenez social e tirar a população negra dessa jaula, que a limita. O corpo negro deve, portanto, segundo salienta Fanon, “fazer de mim um homem que questiona”, salienta Acácio.

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Fanon nos dias de hoje e no Brasil

Professor, Beliene ressalta que as questões colocadas por Fanon ainda são muito atuais. Embora trate-se de uma leitura densa para adolescentes estudantes dos ensinos fundamental e médio, o pesquisador afirma que usa indiretamente o intelectual para conversar sobre o racismo, que é fator estruturante da nossa sociedade.
Entretanto, ele aponta que lida com uma juventude mais consciente sobre a questão racial hoje do que quando era jovem, entre os 1990 e começo dos anos 2000.
Ele aponta, também, que o legado do pensamento fanoniano está na esteira dos avanços da população negra no Brasil, mesmo que o racismo não tenha sido propriamente rompido.
“A gente consegue ter um grande avanço e é legal ressaltar, assim, o movimento negro brasileiro. Ele é um movimento muito antigo, mas o boom mesmo, pelo menos pra mim, nas coisas que eu vivi, é a questão dos anos 2000, […] quando a gente vai falar das medidas afirmativas“, conta.
Além disso, Beliene destaca a pulverização do conhecimento através dos meios digitais, junto à formação de profissionais engajados a partir da entrada de mais pessoas negras na universidade.
“A gente não consegue romper com a estrutura, mas a gente consegue criar um desconforto”, destaca.
Acácio aponta, também, o papel de conscientização pregado por Fanon, que vai ressaltar o papel da educação durante sua trajetória.
“Ele aposta nesse caminho do estudo, de adquirir sabedoria, como um caminho possívelpelo menos para brigar por esse significante. Veja bem, a gente está falando de um significante, no caso o negro, que já está ali imbuído de sentido, através de um outro que vai criá-lo, que seria o branco, como eu já falei, o branco é quem cria o negro. A partir disso, quando se dá outros sentidos para esse significante, ele é deslocado desse lugar somente de uma coisa ruim, embora a gente saiba que essa interpelação também pode se ater a traumas”, explica o jornalista.

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O trabalho de Fanon também está presente nos dias de hoje, segundo Acácio, quando pensamos movimentos sociais, muitas vezes realizados de forma costumeira, natural.
O intelectual salienta a subjetivação como fundamental para o entendimento da psiquê. Entretanto, no caso das pessoas negras, o autor destaca que a racialização tem papel na construção de sentido e nas relações daquele indivíduo.
“Existem traumas que vão atravessar as pessoas negras de uma certa forma que vão condicioná-las aos seus movimentos sociais, à sua própria forma de linguagem“, explica. Nesse caso, ele cita o fato de pessoas negras sempre andarem com documento de identificação, se preocuparem, talvez mais que o necessário, com a roupa que sairá de casa. Todas essas decisões cotidianas, muitas vezes pensadas em como atenuar a possibilidade de ser vítima de uma violência racista.

Entender, portanto, o processo de racialização e o impacto disso na subjetividade de indivíduos negros é algo que Fanon destacava há décadas e ainda se faz presente hoje, sobretudo porque, como destaca Acácio, “o racismo colonial é um sistema que funciona muito bem até hoje”.

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