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Postado em 02/08/2021 9:31

Fogo na memoria do cinema: Crime na cinemateca

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Por Ely Azeredo

 

No início desta noite, eu estava assistindo a um filme brasileiro sem saber que, naquele momento, o depósito da Cinemateca Brasileira já ardia em chamas. Soube depois que terminou o filme, quando voltei à internet. Na verdade, não foi uma notícia nova. Nós já sabíamos que isso ia acontecer, só desconhecíamos quando ia acontecer.

Afirmo com provas e convicção que foi um incêndio criminoso. Que fique claro: para que um incêndio seja criminoso não é preciso que alguém risque um fósforo, provoque um curto-circuito ou faça algo assim. Um incêndio é criminoso quando deliberadamente se deixa criarem as condições para que o fogo brote. Foi o que aconteceu com a Cinemateca Brasileira.

Há um ano e meio o maior acervo cinematográfico da América Latina vem sendo relegado à própria sorte pelo poder público. O governo federal, a quem cumpre mantê-lo, assumiu o descaso como política. Fechada desde agosto de 2020, a Cinemateca não conta com equipe técnica contratada, nem acompanhamento especializado da situação de seu imenso acervo. Os riscos de roubo, incêndio e deterioração foram insistentemente denunciados pela sociedade e principalmente pelos funcionários da casa.

No dia 12 de abril deste ano, os trabalhadores da Cinemateca divulgaram um manifesto alertando para o risco de um incêndio. “O acompanhamento técnico contínuo é a principal forma de prevenção”, diziam. No último dia 20, o Ministério Público Federal fez novo alerta à União quanto à possibilidade de um incêndio. Há um processo movido pelo MPF, mas a leniência das instituições para com este governo genocida e culturicida vai deixando o país pegar fogo antes que as medidas necessárias sejam tomadas.

Se depender dos governos federais que têm se sucedido desde 2016, coisas como o Museu Nacional, o Sistema Lattes, as universidades federais e a Cinemateca Brasileira são penduricalhos que só fazem atrapalhar e dar despesa. Além de serem covis de “inimigos”. Os sucessivos neonazistas a ocuparem a Secretaria Especial da Cultura talvez se sintam aliviados ao verem que terão menos um “elefante branco” para cuidar e lhes trazer dor de cabeça.

O incêndio da Cinemateca foi mais que anunciado. Foi provocado. Se não diretamente com o fósforo, com o instinto de destruição que caracteriza a atual presidência.

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