João Filho | Intercept Brasil
O RESULTADO DO PRIMEIRO TURNO JÁ FOI DEFINIDO, MAS O QUE AINDA PODEMOS REVELAR, NÃO.
O primeiro turno fortaleceu a extrema direita. Agora, com o segundo turno se aproximando, o tempo para investigar o que ainda está escondido dos eleitores está se esgotando.
E existe um problema grave: menos de 1% dos leitores do Intercept ajudam a financiar nossas investigações.
Enquanto políticos poderosos contam com estruturas milionárias, nós dependemos dos nossos leitores para pagar repórteres, enfrentar processos e revelar aquilo que muitos prefeririam manter em segredo.
O relógio está correndo. E cada dia sem recursos é um dia a menos para avançarmos em investigações que o Brasil precisa conhecer.
Não podemos esperar o fim das eleições para descobrir o que deveria ter sido investigado antes.
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É assustador saber que quase metade da população apoia o grupo político que passou os últimos anos enfiando a faca no pescoço da democracia.
A turma que planejou o assassinato de um presidente eleito e tramou um golpe de estado recebeu amplo apoio nas urnas. Dominou as casas legislativas do país, abocanhou quase metade dos governos estaduais e seu candidato à presidência é o favorito para ganhar.
Nem a prisão do principal líder golpista brecou o sucesso eleitoral do bolsonarismo, que se consolidou como uma força popular. A direita hoje é eleitoralmente irrelevante, já que foi quase que completamente engolida pela extrema direita. Hoje, a única polarização que existe é entre democratas e golpistas.
‘E daí?’: a naturalização da tentativa de golpe
Nos últimos oito anos presenciamos uma infinidade de selvagerias promovidas pelo bolsonarismo e, mesmo assim, eles continuam tendo grandes vitórias nas urnas. A corrente política que pretende destruir a democracia foi completamente legitimada no jogo político. Esse é um dado da realidade com o qual temos que lidar.
Valdemar Costa Neto, que é presidente da maior potência eleitoral do país, o PL, tem ficado à vontade para confessar que houve uma tentativa de golpe no fim do governo Bolsonaro:
“Discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe. E daí?”.
Se Flávio Bolsonaro for eleito, o golpismo e o espírito do fascismo voltarão a dar as cartas no país. Não se trata de suposição. É uma promessa de campanha. Nesta semana, o filho de Jair prometeu alterar a Constituição para “redemocratizar”o país.
“O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que ele já é hoje. Com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, com maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara. Para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”, disse Flávio em Goiás ao lado de Ronaldo Caiad
Com maioria no Congresso, Flávio conseguirá passar o trator na Constituição
O uso da palavra “redemocratizar” é onde mora o pulo do gato. Flávio é da turma que chama o Golpe de 64 de “revolução”, então é fácil imaginar o que significa essa democratização.
Na última vez que essa turma alterou a Constituição, a democracia ficou décadas na escuridão. Jair Bolsonaro também quis reescrever a carta magna durante o seu governo. À época, o líder do governo na Câmara defendeu uma nova Constituição com mais deveres e menos direitos aos cidadãos.
A coisa não foi para a frente com Jair, mas com Flávio as condições materiais serão outras. Ele não vai precisar de tanque, nem de um cabo e um soldado. Para “redemocratizar”o país, ele terá apoio massivo do legislativo, de um judiciário aparelhado e o aval das urnas.
Se Jair Bolsonaro já fez barbaridades mesmo tendo dificuldades para formar maiorias no Congresso, Flávio passará o trator com certa tranquilidade.
O projeto em curso não visa apenas sequestrar a democracia, mas sobretudo interromper as investigações contra Flávio e livrar Vorcaro e toda a família Bolsonaro da cadeia.
Uma vitória de Flávio dará a eles a possibilidade de tentar reescrever a história recente do país. A tentativa de golpe passará a ser um passeio no parque. A prisão de Bolsonaro será tratada como injustiça. As lideranças golpistas serão soltas. O aparelhamento do STF será tratado como a salvação moral do tribunal. O estado será usado para perseguir adversários políticos.
Todos os absurdos ocorridos no governo Bolsonaro serão repetidos e maximizados. E, assim, a democracia vai morrendo.
A ‘escolha difícil’ dos barões da mídia
É preciso registrar o papel lamentável que a grande imprensa brasileira tem cumprido nesta eleição. Está se repetindo a mesma postura trágica e isentona de 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito.
Naquele ano, entrou para a história o editorial do Estadão intitulado “Uma escolha muito difícil”, que tratava da dificuldade do eleitor em escolher um dos candidatos.
Os donos do jornal consideraram muito difícil a escolha entre um professor com reputação ilibada, com grandes serviços prestados à democracia, e um ex-militar golpista que construiu carreira como deputado sem nenhum projeto significativo aprovado e com acusações de praticar rachadinha, além de continuamente atacar a democracia.
Essa dúvida, replicada por outros editoriais e por parte do colunismo nacional, endossou a candidatura antidemocrática e ajudou a pavimentar o caminho para o movimento golpista de 8 de Janeiro.
Neste ano, os donos da Folha escreveram que “o país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse financeiro”.
É estarrecedor constatar que, depois dos quatro anos de escuridão do governo de Jair Bolsonaro, a preocupação do maior jornal no país não seja o fim da democracia, mas os gastos públicos.
Democracia versus barbárie
A esta altura do campeonato, não é razoável tratar essa postura como ingenuidade, mas como cumplicidade com o golpismo. O jornalismo corre o risco de voltar para o cercadinho, mas essa não é uma preocupação central dos barões da imprensa.
O futuro que está pintando no horizonte é tenebroso, mas não inevitável. A esquerda e o campo democrático têm a possibilidade de reverter o quadro no segundo turno. Não será fácil. A extrema direita capturou o imaginário de metade do país e desarmar essa bomba não é tarefa simples.
Não há margem para erros e a vitória nas urnas só acontecerá com intensificação do trabalho de base, ocupação das ruas e coragem para dar nome aos bois. Mais do que nunca, esta é uma eleição plebiscitária entre democracia e barbárie. Isso precisa ficar claro para o eleitorado.
Lula é o candidato da esquerda, da direita e do centro. Flávio é a extrema direita que pretende enfraquecer as instituições para defender os interesses privados da sua família e do governo dos EUA. Reeleger Lula é uma questão de sobrevivência para os democratas.
Sem freios nas urnas, os ‘guardinhas da esquina’ mostram as garras
Durante a comemoração da vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, a fauna bolsonarista ficou ainda mais à vontade para externalizar seus instintos mais primitivos.
O economista Rodrigo Constantino foi um dos que colocou para fora o seu desprezo pelo povo brasileiro. Radicado na Flórida há mais de dez anos, o patriota se revoltou contra o povo baiano pela reeleição do governador petista:
“A Bahia é o câncer do Brasil. Estive lá algumas vezes a trabalho e a lazer. Salvador é um lixo! Eu fui mais para o interior fazer a feira literária e fiquei chocado. Segunda-feira, 11h30, um bando de gente nos barzinhos com violão e cerveja. Ninguém quer trabalhar”, disse.
O triunfo de Flávio nas urnas legitima a explicitação do preconceito de Constantino.
Isso é um aperitivo do estrago que mais um governo Bolsonaro causará ao país. Com um líder autoritário legitimado pelas urnas, os guardinhas da esquina se sentirão ainda mais empoderados para despejar suas barbaridades.
Lucas Pavanatto e a bancada da guerra cultural
Sem grandes ideias e projetos para o país, Lucas Pavanatto se tornou o deputado federal mais votado de São Paulo. É mais uma aberração que foi parida pelo MBL e criada pelo bolsonarismo.
Com 28 anos, mas com aparência e postura de 16, o novo deputado venceu nas urnas falando sobre transexuais em banheiros e outras obsessões moralistas como a criminalização do aborto. É uma versão teen da Damares, com sapatênis e cadeira gamer.
Quando o assunto é economia, educação e segurança, Pavanatto não tem nada a apresentar além da repetição dos chavões moralistas. A cabeça do novo deputado é um deserto de ideias e sua estrondosa votação reflete bem o espírito dos nossos tempos. É um rapaz obcecado, que só enxerga a política pelo viés da guerra cultural.
Empolgado pelo sucesso obtido nas urnas, Pavanatto, tal qual Constantino, soltou a franga reacionária e deixou claro qual será a prioridade do seu mandato: combater a esquerda e sua “ideologia hegemônica”. Depois de exaltar a força política conquistada pelo seu grupo, o deputado não teve meias palavras:
“Nós realmente somos uma ameaça para vocês. Nós temos uma bancada forte para enfrentar a ideologia hegemônica de vocês. Vocês são a minoria e, como minoria, a gente vai colocar vocês no seu devido lugar”.
Conhecendo o ideal podre que move esse jovem e como ele sempre militou contra todas as políticas afirmativas, a ameaça é, sim, direcionada às minorias e seus representantes. Eles estão babando de ódio como nunca.
Com Lula eleito, a democracia seguirá ameaçada por um parlamento majoritariamente golpista. Com Flávio, ela será sequestrada e destruída. Não faltarão Pavanattos e Constantinos para agitar os pompons.