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quinta-feira, 25 julho, 2024

Extrema-direita argentina espera que Macri solte os genocidas

O segundo maior jornal argentino escreveu um editorial pedindo a soltura dos criminosos que torturaram e assassinaram militantes de esquerda nos anos 70

Trecho de matéria do Opera Mundi e tradução na íntegra o editorial do La Nacion

Site Oficial Mauriciomacri.com.ar

O presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, afirmou durante sua campanha eleitoral que irá acabar com o “negócio” que se tornou a questão dos direitos humanos na Argentina. Na mesma linha do novo líder, o diário argentino La Nación, o segundo maior do país, publicou nesta segunda-feira (23/11) um editorial com críticas à prisão de militares acusados de crimes durante a ditadura militar que durou entre 1976 e 1983.

“Por estarem muito velhos para estar presos”, a medida representa uma “vergonha nacional” e os novos tempos são propícios para “terminar com as mentiras sobre os anos 1970”, diz o La Nación, em uma referência contra o julgamento dos militares.

O chamado resgate da memória realizado pela Argentina nos últimos anos é apontado por organismos de direitos humanos em toda a América Latina como importante para impedir que se repitam os fatos que resultaram no desaparecimento forçado e na morte de mais de 30 mil pessoas.

Não mais vingança

Editorial diário argentino La Nación, 23 de novembro de 2015

A senadora Norma Morandini escreveu dias atrás, neste mesmo jornal, que as causas de direitos humanos não podem ser defendidas com mentiras. Não se pode defender tampouco com novas violações aos direitos humanos, como está ocorrendo no país atualmente.

Um dia depois dos cidadãos elegerem um novo governo, devemos esperar que as ânsias de vingança sejam sepultadas de uma vez, para sempre.

Os trágicos acontecimento dos Anos 70 vêm sendo contados de forma deturpada por uma esquerda ideologicamente comprometida com os grupos terroristas que assassinavam com armas, bombas e uma articulação que não se diferencia em nada daqueles que provocaram o atentado de Paris, que comoveu o mundo há dez dias atrás. Aquela esquerda raivosa, de verdadeira configuração fascista – tanto antes quanto agora –, se apoderou do aparato propagandístico oficial desde o começo do governo dos Kirchner.

Se ocultou, assim, o que já não pode ser ocultado por mais tempo, para o bem da compreensão dos fatos por parte de uma sociedade cuja composição geracional vem mudando bastante nos últimos quarenta anos. Para a sociedade argentina dos Anos 70, não era necessário explicar que o aberrante terrorismo de Estado sucedeu o pânico social provocado pelas matanças indiscriminadas perpetradas por grupos treinados para uma guerra suja, os que o kirchnerismo qualifica de forma absurda, como uma “maravilhosa juventude”.

A sociedade isolou esses “jovens idealistas”, enquanto o terrorismo de Estado os trucidou com seu poder de fogo, com algumas exceções isoladas, apenas com a eficácia das operações militares, que tinham por objetivo aniquilar o inimigo, com uma moral que, no fundo, não se diferenciava da dos rebeldes que combatiam.

Chegou a hora de pôr as coisas no seu lugar. Debater que aqueles semearam a anarquia no país e destruíram vidas e propriedades não podem gozar mais de um reconhecimento histórico cuja gestação se fundou na necessidade prática dos Kirchner de contar, em 2003, com alguma bandeira de conteúdo emocional. Néstor o fez ao assumir o poder, com apenas 22% dos votos. Antes, deram muito menos importância ao assunto.

Há duas questões urgentes por resolver. Uma é o vergonhoso padecimento de condenados, processados e inclusive de suspeitos de terem cometido delitos durante os anos da repressão subversiva, e que se encontram em prisão, apesar de serem anciões. Já são mais de trezentos os condenados por direitos humanos que morreram na prisão, e isso constitui uma verdadeira vergonha nacional.

Dias atrás, tal situação se agravou devido a uma escandalosa decisão do Tribunal Oral de La Plata, que revogou a prisão domiciliar de vários militares de idade avançada, como os coronéis Carlos Saini e Oscar Bardelli, o capitão Carlos Robbio e o almirante Antonio Vañek. Parece uma burla que isso coincida com o privilégio domiciliário concedido recentemente, por um tribunal da província de Chaco, a um mafioso de 65 anos, condenado a 19 anos de prisão, por ter traficado mais de mil quilos de cocaína à Espanha.

Em segundo lugar, de modo paralelo, os atos de perseguição contra magistrados em atividade continua. Um deles foi o caso do juiz federal de Mar del Plata, Pedro Hooft, absolvido no ano passado após sete anos de acusações sobre supostos delitos contra a humanidade. A perversa montagem foi revelada por gravações apresentadas como prova, mas Hooft logo teve que enfrentar novos ataques. Também recentemente surgiu outro processo irregular montado contra o juiz Néstor Montezanti, de Bahía Blanca, em outra clara tentativa governista de desarticular a investigação de causas que envolvem a família presidencial.

O juiz federal Ricardo Lona, de Salta, também foi perseguido por mais de dez anos, quase sem elementos contra si, apenas referências mentirosas entregues por três militares condenados como autores das matanças produzidas no denominado Massacre de Palomitas. Hoje, ele se encontra em prisão preventiva, por supostas falhas na investigação da morte do ex-governador de Salta, Miguel Ragone, ocorrida em março de 1976. Se desconhece, porém, que o juiz Lona foi quem reuniu as provas que levaram à condenação dos autores do crime, segundo o reconhecido pela própria Corte Suprema de Justiça.

Por outra parte, a acusação contra ele carece de validade, pois a ação não se encontra em mãos dos promotores da causa, mas sim por outros designados pela questionada Procuradoria Geral da Nação, que carece de atribuições para perpetrar a ação. Com quase 80 anos e uma grave doença, Lona corre o risco de ser enviado à prisão, após os questionamentos a um informe médico que claramente desaconselha que ele seja enviado a um centro penitenciário.

A cultura da vergonha foi instalada pelos meios de difusão do Estado e pelas escolas habituadas a seguir as pautas históricas nada confiáveis do kirchnerismo. Ou seja, a mentira às quais a senadora Morandini se referia.

Os relatos de sujeitos que foram responsáveis por incendiar o país nos Anos 70, convencidos de que as armas de fogo e os explosivos, com suas sequelas de dor e morte, eram a via de acesso a uma sociedade melhor, não podem intimidar os políticos responsáveis, nem os juízes compenetrados em sua missão, de atuar em consonância com a verdade histórica e os princípios básicos do direito penal.

Sempre será indispensável construir a partir da verdade completa, apaziguar e não esgotar a busca, por todos os meios necessários, para que se cumpra o apelo do papa Francisco, de que todas as ferramentas da lei se ativem “para evitar qualquer tipo de vingança e curar as feridas”, embora “sem deixar de ver as cicatrizes”, como ele bem lembrou.

Tradução: Victor Farinelli

Créditos da foto: Site Oficial Mauriciomacri.com.ar

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