Esta série começou após minha rápida visita a Cuba, em maio do ano passado. Passei apenas oito dias em Havana, muito ricos, não obstante. Pude conhecer e conversar com Víctor Dreke, com a professora Ana Morales, esposa dele, com Jorge Lezcano, a quem já conhecia, com Jorge Ferrera, velho companheiro, todos revolucionários cubanos.
Pude sentir o quanto pulsa aquela Ilha, o quanto é valoroso aquele povo. Sempre digo, insisto: o milagre daquela revolução decorre da bravura daquela população.
E a série, a par de eu dar ênfase à trajetória de Víctor Dreke, está sendo também uma espécie de acompanhamento da conjuntura internacional, sempre relacionada com a situação de Cuba vis a vis à resistência da Ilha à perseguição do império norte-americano desde a chegada de Fidel Castro e companheiros dele ao poder, em 1959.
Quase sem perceber vou sendo levado a tal caminho. Hoje, deixo Víctor Dreke momentaneamente de lado.
Já disse, mas insisto, porque necessário: os EUA, desde 1959, atacam Cuba impiedosamente porque incapazes de aceitar um regime socialista nas barbas deles. Sempre depararam com a incrível resistência e patriotismo daquele povo.
Donald Trump radicalizou na tentativa de esmagamento daquela revolução. Após sequestrar o presidente Nicolás Maduro, colocar a Venezuela sob controle, parcial, mas controle, determinou ao mundo, ele acredita poder fazer isso, não transportar uma gota de petróleo sequer à Ilha, o que vem acontecendo desde janeiro deste ano.
Parecia tudo correr bem para o império. Imaginou desencadear uma guerra de poucos dias contra o Irã, lado a lado com o sionismo israelense.
Deparou com uma resistência inesperada, surpreendente – ao menos para ele, Trump, surpresa total. Nesse momento, enquanto escrevo, o presidente norte-americano começa a dar sinais do enfraquecimento das forças dele e de Israel, ao propor suspender ataques por cinco dias. A ver, porque confiar nele é sempre arriscado.
Simultaneamente, o cerco a Cuba começa a ser rompido. Navio com petróleo está navegando em direção à Ilha, proveniente da Rússia. Uma flotilha solidária, impulsionada por movimentos sociais, também está prestes a aportar em Cuba. Ajudas significativas de México e Brasil devem chegar novamente à Ilha.
O cerco vai sendo rompido, de modo a dar esperanças ao povo cubano.
Não se sabe como Donald Trump vai reagir diante de tais movimentações solidárias. No momento, a preocupação dele terá de se concentrar em resolver a guerra contra o Irã, cuja iniciativa é condenada até por estrategistas militares do próprio governo dele.
Joe Kent, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, renunciou ao cargo, e fez críticas impiedosas, acreditando que a guerra do Irã não traz benefícios ao povo americano e gerariam “declínio e caos”, e ele parece ter toda razão.
A taxa de imprevisibilidade de Trump vai diminuindo. O Deep State norte-americano já deve estar incomodado, ao menos a área não ligada à indústria armamentista. A guerra ao Irã provocou uma hecatombe econômica mundial, sobretudo pelo fechamento ao Estreito de Ormuz pelas forças iranianas, por onde passam cerca de 30% do petróleo mundial.
O preço do barril já disparou.
E agora, José?
E agora, Trump?
As forças tectônicas do capital estremecem, e reagem, e não é por acaso a atitude de Trump de praticamente pedir trégua, propor conversa. Não foi, até aqui, o passeio previsto por ele. Sabia ser sangrento, tinha alvos, imaginou matar lideranças e acabar com tudo rapidamente.
Nada.
O Irã se prepara para esse embate de há muito. E se uma liderança morre, outra ocupa o lugar. Está provado.
Trump tem uma eleição pela frente. Será em 3 de novembro deste ano, eleições de meio de mandato, quando serão renovados a Câmara dos Representantes (435 assentos) e parte do Senado (35 de 100 cadeiras).
Ou faz maioria, ou corre o risco do impeachment. A imprevisibilidade vai sendo contida pela política. A ver.
A Revolução Cubana navega no meio dessa tempestade, sabendo das dificuldades, tomando o pulso da situação, vendo aumentar a solidariedade, preparando-se para qualquer tipo de intervenção militar do império.
Não se crê em invasão por terra porque esse tipo de ação do império sempre, ou quase sempre, implicou em derrotas. fragorosas, humilhantes. Romper o cerco, como está acontecendo nesse momento, é essencial.
A direção do governo cubano luta pela solidariedade ativa da Rússia, da China, de países médios, como Brasil, México e Espanha e tantos outros, como, também, com mobilizações populares do mundo todo.
Será a solidariedade dos países e dos povos a atenuar a gravidade da situação da Ilha, a garantir o direito à soberania do país, a dar-lhe condições de existir, superando esse perverso bloqueio, a perdurar por mais de 60 anos. Isso só poderá acontecer num mundo de paz, liberto do senhor da guerra, quando forem abertas as portas para a construção de um mundo fraterno e solidário.
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