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domingo, 14 julho, 2024

‘Espantoso’: supostos arautos da democracia, EUA difundem fake news contra a China, notam analistas

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas analisam a tática de Washington de financiar a difusão de fake news contra a China em países que se beneficiam de investimentos de Pequim.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, afirmou nesta semana que Pequim espera que Washington pare de espalhar informações falsas sobre outros países.

A declaração foi dada em coletiva em resposta a uma matéria veiculada pela mídia que apontou que o Pentágono organizou, nas redes sociais, uma campanha para desacreditar uma vacina chinesa contra a COVID-19, a fim de minimizar a influência da China no Sudeste Asiático e em outras regiões.

“Esperamos que os EUA corrijam a sua mentalidade, assumam a responsabilidade de uma grande potência e parem de fabricar e difundir informações falsas sobre outros países. Os EUA utilizam consistentemente a prática de envenenar a opinião pública e caluniar a imagem de outros países”, disse Lin Jian na coletiva.

Além disso, Pequim também acusa Washington de difundir desinformação em relação à iniciativa da Nova Rota da Seda.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas analisam como os EUA vêm usando as redes sociais para atacar a imagem de outros países e como a prática interfere nas políticas locais.

Evandro Menezes, professor de direito internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor visitante da Universidade de Pequim, afirma que as fake news amplificaram “uma visão extremamente enviesada e estereotipada da China, que muitas vezes já é bastante sedimentada no imaginário da população”.

Trabalhadores da saúde nas Filipinas fazem protesto em frente a uma unidade de saúde e pedem vacinas gratuitas, seguras e mais eficazes contra a COVID-19. Quezon, 17 de junho de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 17.06.2024

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Ele cita a pandemia como exemplo dessa manobra para criar uma visão caricata e afirma que, apesar de toda a discussão sobre a origem do vírus ter sido em Wuhan, na China, poderia ter sido em qualquer outro país, sobretudo diante do aquecimento global.

“Acho que essa motivação de imputar a um país uma imagem completamente distorcida de uma situação dramática foi quando o ex-presidente dos EUA Donald Trump chamou a COVID-19 de vírus chinês. Você tem aí uma clara malícia nesse tipo de designação completamente descomprometida com a cautela necessária em relação a essas situações, quando não se sabe bem a real origem do vírus, uma designação que estigmatizava toda uma população”, explica Menezes.

Ele aponta ainda que designar um vírus causador de uma pandemia, que deveria ser aniquilado, como “vírus chinês” teve um impacto na comunidade asiática dos EUA, que passou a sofrer agressões.

“Veja que desde aí a gente já via claramente um uso político de uma situação séria de saúde pública em um nível internacional e com um claro viés de estigmatização da população”, diz o especialista.

Menezes acrescenta que as fake news sobre a CoronaVac, a vacina chinesa contra a COVID-19, criaram uma série de obstáculos para governos mais sérios executarem suas campanhas de vacinação, pois influenciaram as pessoas, “sobretudo aquelas mais suscetíveis a esse tipo de discurso contra a vacina”.

“Isso é muito grave. É espantoso que os EUA se prestem a esse tipo de expediente. Porque a gente começa a questionar qual seria a credibilidade dos EUA para defender hoje uma campanha internacional de combate à desinformação.”

Outra fake news difundida pelos EUA contra a China alega que um grupo chinês de hackers, conhecido como APT31, estava atacando infraestruturas críticas dos EUA, argumento usado como justificativa para sancionar a empresa de tecnologia chinesa Wuhan Xiaoruizhi Science and Technology Company Ltd.

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Menezes enfatiza que espionagem entre potências é algo que sempre existiu, mas diz que uma acusação desse tipo deve vir acompanhada de provas e fundamentos, o que não foi o caso.

“O ponto é: onde essa acusação é real? Ela é uma fake news ou é baseada em sinais ainda muito inconsistentes para prejudicar a imagem da China, aliado a um conjunto de medidas sancionatórias contra a China a pretexto de punir essa suposta espionagem? Tudo isso fica em contexto de um cenário de acusações que também tem o objetivo de difamar a China.”

Outro objetivo das fake news contra a China, segundo Menezes, é preservar uma visão provinciana e estereotipada do país, calcada no que a China era até por volta dos anos 1970, que não condiz com a realidade atual do país.

“Há uma mudança drástica. Até para os próprios chineses, sobretudo as gerações mais idosas. Essa geração dos chineses com 80 anos de idade para cima viu essa evolução dramática. Talvez o jovem chinês não tenha muita noção disso; já nasce em uma China exuberante, moderna, segura. Então essas visões estereotipadas são ancoradas numa visão extremamente preconceituosa, provinciana, eu diria prima-irmã do negacionismo, porque são visões de pessoas preguiçosas que querem ficar presas às suas ilusões. Enquanto elas mantêm essa visão de uma China que não existe mais, a China vai evoluindo.”

No Zimbábue, EUA patrocinam workshops para criticar investimentos da China no país

Um artigo publicado há dois anos no jornal The Herald, do Zimbábue, denunciou que a Embaixada dos EUA estava patrocinando workshops que criticavam os investimentos chineses no país. Questionado sobre o paradoxo de um país que se coloca como defensor da democracia financiar desinformação contra a China para interferir em outro Estado, Marco Fernandes, editor do portal Dongsheng, afirma que o Zimbábue sofre com interferências dos EUA há anos.

“Desde os anos 80, sanções começaram quando o Zimbábue fez a reforma agrária e, para isso, expropriou as terras dos colonizadores brancos. E isso foi o estopim para o início de uma série de sanções dos EUA, que evidentemente há décadas devastaram a economia do Zimbábue.”

Hacker (imagem referencial) - Sputnik Brasil, 1920, 21.06.2021

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Porém, ele explica que “nos últimos anos, o Zimbábue vem contando cada vez mais com investimentos de outros parceiros, sobretudo da China”.

“Os investimentos chineses no Zimbábue nos últimos anos são, sobretudo, investimentos na industrialização do país, algo que, inclusive, é pauta estratégica hoje dos países africanos e já vem dialogando tanto com a China como com a Rússia sobre isso.”

Ele cita como exemplo o caso do lítio ocorrido no ano passado, quando o governo do Zimbábue proibiu a exportação de lítio bruto para que o metal fosse processado no país, o que geraria mais renda do que apenas vender a matéria-prima.

“A China instalou uma fábrica de US$ 300 milhões [R$ 1,6 bilhão] e está processando o lítio no Zimbábue. A mesma coisa está acontecendo na siderurgia. Investimentos chineses também de mais de US$ 1 bilhão [R$ 5,4 bilhões] estão construindo uma megassiderúrgica no Zimbábue que vai ser um hub para a exportação para os outros países”, afirma Fernandes.

Ele ressalta que os workshops que difundiam informação, financiados por Washington, eram promovidos pela organização Information for Development Trust, que é ligada à Embaixada dos EUA.

“É uma estratégia que os EUA vêm fazendo em vários lugares contra a China, e no Zimbábue ela foi descoberta, inclusive, como você falou, foi revelada até pela mídia local. Mas, enfim, isso é mais um dos casos dos vários que vêm acontecendo nos últimos anos.”

Segundo Fernandes, outra distorção impulsionada pelos EUA foi a de que carros elétricos chineses estariam inundando mercados do Ocidente, ferindo as regras do livre-comércio. Diante disso, os EUA aumentaram em 25% as tarifas alfandegárias dos carros elétricos, sendo seguidos pela União Europeia.

“Agora, é curioso porque ninguém nos EUA reclama que a gente viaja o mundo inteiro de avião com aviões da Boeing. Ninguém acusa a Boeing de excesso de capacidade. Ninguém acusa a Airbus franco-alemã. Agora, quando os chineses em determinado setor, que é estratégico hoje para a transição energética, para a descarbonização, conseguem chegar a um nível de tecnologia e de preço competitivo, evidentemente que eles estão ‘trapaceando'”, ironiza o especialista.

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