Fonte: Site Sustentável
Pedro Augusto Pinho*
A distribuição dos recursos energéticos é extremamente desigual pelo planeta. Basta ver onde existem cursos d’água volumosos e seus aproveitamentos, onde se encontram os grandes reservatórios de petróleo e as jazidas de carvão vegetal, onde ocorre insolação por todo ano, existe capacidade para geração de energia nuclear e terras adequadas à produção de biomassa sem prejuízo dos alimentos.
No entanto, estas condições são insuficientes se não houver população consciente e capaz de aproveitar seus recursos.
Por isso, iniciamos enumerando os países mais populosos cuja taxa de alfabetização fosse, em 2025, data das referências usadas neste artigo, superior a 90%. Obviamente um pequeno e pouco populoso país europeu ou mesmo asiático, facilmente teria 100% de alfabetizados; mas qual a significação da Groenlândia (56 mil habitantes), Andorra (85.000 habitantes) ou Uzbequistão (38 milhões de habitantes) no concerto das nações?
Países com percentagem superior a 90% de alfabetizados na população total: Rússia (99,7%), Alemanha (99%), Reino Unido (99%), Estados Unidos da América – EUA (99%), Japão (99%), Turquia (97%), China (96,8%), Indonésia (96%), Vietnã (95,8%), Filipinas (95,6%), México (95,2%), Brasil (93%) e Irã (90%).
Há, também, que distinguir além da existência dos recursos energéticos quem controla os seus aproveitamentos, quer em proveito do país possuidor quer para um pequeno grupo ou para a humanidade, em geral. Ou seja, a questão política que cerca a energia.
A DISPERSÃO DOS RECURSOS ENERGÉTICOS
OS SISTEMAS FLUVIAIS
Os dez países com os maiores e mais volumosos sistemas fluviais são: (1) Brasil, com 20% do volume de água doce do planeta; (2) Rússia, com os rios que desaguam no Oceano Ártico: Ienissei e Ob, desaguando no Mar de Kara, rio Lena (Mar de Laptev), rio Pechora (Mar de Barents), entre outros; (3) Canadá, com milhares de rios que desaguam nos Grandes Lagos, no Oceano Ártico e no Atlântico; (4) EUA, com os sistemas do Mississippi-Missouri e do Columbia; (5) China, com o Yang Tse, o mais longo rio da Ásia e o rio Amarelo; (6) Colômbia, com densa rede fluvial que inclui os rios Magdalena, Caquetá e trechos do sistema amazônico; (7) Indonésia, maior arquipélago do mundo, onde extensos sistemas fluviais em suas ilhas vulcânicas que garantem enorme fluxo hídrico; (8) Peru, origem dos principais afluentes formadores do próprio Rio Amazonas, além de possuir rica rede de bacias que descem da cordilheira dos Andes; (9) Índia, sustentada fortemente pela bacia do Ganges-Brahmaputra (dos maiores sistemas de fluxo combinado do planeta), além do rio Indo; e (10) República Democrática do Congo, que abriga a Bacia do Congo, o segundo sistema fluvial do mundo em volume de descarga e em potência hidrelétrica.
Apenas cinco países geram mais de um milhão de Terawatt-hora (TWh) de energia, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE): China (10.000 TWh); EUA (4.450 TWh); Índia (2.050 TWh); Rússia (1.150 TWh) e Japão (1.020 TWh). O Brasil segue em sexto lugar, com 650 TWh, e o Canadá em sétimo, com 640 TWh.
OS COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS
Iniciemos pelo Petróleo
As tecnologias que envolvem os combustíveis fósseis e, em especial o petróleo, levam-nos a separar as reservas das produções. Atualmente também devem ser distinguidas as reservas de petróleo daquelas reservas de folhelhos betuminosos e as de xisto.
Os reservatórios de petróleo, sejam na forma líquida (óleo) ou gasosa (gás natural), devem atender às seguintes condições:
a) quanto à natureza das rochas: arenitos ou calcários. São rochas porosas (onde o óleo se acumula) e altamente permeáveis (o que permite ao fluido escoar livremente pelos poros interconectados até o poço perfurado);
b) quanto à maturação orgânica. O petróleo é formado pela decomposição de matéria orgânica. Logo esta matéria já deve ter sido transformada (cozida) pelo calor e pressão da Terra ao longo de milhões de anos, transformando-se em óleo líquido e/ou gás natural;
c) quanto à migração. O petróleo gerado em um tipo de rocha, denominada geradora, migrou e ficou preso em armadilhas geológicas (estruturais ou estratigráficas); finalmente,
d) quanto à produção. O óleo flui naturalmente ou por bombeamento mecânico devido à pressão natural do reservatório, não necessitando de aquecimento ou mineração massiva da rocha.
São condições distintas dos folhelhos betuminosos (oil shale) e de reservatórios não convencionais (shale oil). No entanto, encontram-se computados, nos trilhão e meio de petróleos atualmente constantes das estatísticas, todos estes tipos, o que, a nosso ver, quer pelos métodos (tecnologias), quer pela economicidade, não devem ser aglutinados.
Finalmente, para que se tenha a efetiva disponibilidade de petróleo, deve-se verificar a percentagem da produção dos reservatórios, ou seja, o fator de recuperação aplicado às reservas.
Na década das “crises do petróleo” (1970-1979), o fator de recuperação estava perto dos 30% do volume cubado do petróleo confirmado por perfurações. As tecnologias digitais, permitindo aplicar métodos e processamentos sísmicos mais sofisticados (3D e 4D), perfurações curvando-se horizontalmente, elevaram até a virada do século esta percentagem a 40%. Atualmente, com métodos químicos, térmicos e aplicação da “inteligência artificial”, em campos considerados maduros, chega-se a recuperar até 70% do petróleo.
As 10 maiores reservas de petróleo (óleo e gás natural) são encontradas, em bilhões de barris, na Venezuela (303,0), Arábia Saudita (267,2), Irã (208,6), Iraque (145,0), Emirados Árabes Unidos – EAU (113,0), Kuwait (101,5), Rússia (80,0), Líbia (48,4), Nigéria (37,5) e Cazaquistão (30,0), seguindo-se em 11º lugar a China (28,2), Catar (25,2), Brasil (18,6), Argélia (12,4) e Guiana (11,0).
O primeiro país da Europa Ocidental a aparecer entre as maiores reservas de petróleo é a Noruega, com 6,9 bilhões de barris.
Os EUA e o Canadá computam a produção dos folhelhos betuminosos, razão de os excluirmos também como maiores produtores, que em milhões de barris diários (mb/d) assim se posicionam: Rússia (9,87), Arábia Saudita (9,51), Iraque (4,39), China (4,34), Irã (4,19), EAU (3,82), Brasil (3,74), Kuwait (2,58), Cazaquistão (2,06) e Noruega (1,85). Observe-se que metade destes produtores se encontra no Oriente Médio.
Vejamos agora o Carvão Mineral.
As cinco maiores reservas mundiais de carvão mineral, em bilhões de toneladas, em 2025, se encontravam nos EUA (254), Rússia (176), Austrália (159), China (149), e Índia (106), com mais seis bilhões.
Quanto às produções: a China é a maior produtora, o único país que supera o bilhão/ano: 3,4 bilhões. Seguem-se em milhões/ano, a Índia (900), os EUA (680), a Indonésia (600) e a Austrália (430).
O carvão mineral é também classificado conforme seu poder calorífico em Turfa (menor que 3.000 kcal/kg), Linhito (de 3.000 a 4.500 kcal/kg), Hulha de baixo teor (4.500 a 5.500 kcal/kg), Carvão Mineral comum (5.500 a 7.500 kcal/kg), o mais encontrado, e Antracito ou Carvão Nobre (superior a 7.500 kcal/kg), mais antigo, raro e puro. Quase não tem umidade ou impurezas. Queima de forma lenta, com chama azul e quase nenhuma fumaça.
ENERGIA NUCLEAR
A geração de energia nuclear atingiu recorde histórico ao final de 2025, com 417 reatores operando em 31 países, gerando aproximadamente 2.900 TWh e capacidade instalada de 377 Gigawatts.
No entanto, três nações juntas representam mais da metade de toda a capacidade do planeta: EUA (97 GW, com 94 reatores), França (63 GW, com 57 reatores) e China (62 GW, com 59 reatores). Os demais 28 países são Alemanha, Argentina, Armênia, Bélgica, Brasil, Bulgária, Canadá, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Finlândia, Holanda, Hungria, Índia, Irã, Japão, México, Paquistão, Reino Unido, República Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia, Suíça, Taiwan e Ucrânia.
A China é o país que mais investe na geração nuclear, encontrando-se em construção 35 novas estações.
ENERGIA DA BIOMASSA
A biomassa é a verdadeira energia que pode vir a competir com as energias fósseis. Atualmente já representa 10% da matriz energética mundial. Embora não seja assim divulgada, a biomassa poupa o petróleo para uso como insumo industrial – indústrias petroquímicas e de fertilizantes – ao invés de ser queimado para produção de energia, apressando sua extinção com uso perfeitamente substituível. Os cinco países que estão mais avançados na produção da biomassa como energia são: China, Brasil, EUA, Índia e Alemanha.
Os processos produtivos são a combustão de matérias orgânicas, a gaseificação, a pirólise (decomposição térmica na ausência de oxigênio) e co-combustão, majoritariamente com carvão mineral.
UM POUCO DE HISTÓRIA
Antes da Revolução Industrial cinco eram as fontes de energia: a mais antiga, a muscular, humana e animal, base do trabalho agrícola e da construção civil. A solar e a eólica, principalmente para transporte e movimentação de moinhos e outras instalações e equipamentos para transformação de bens primários. A hidráulica, dos rios e marés, e a queima da lenha, uma biomassa primitiva, que praticamente destruiu as florestas europeias.
No entanto, conduzidas pelo homem eram submetidas a questões políticas e econômicas, quando não religiosas ou extraterrestres.
Vamos cuidar das energias surgidas das revoluções industriais e da revolução das comunicações ou da revolução digital.
A 1ª Revolução Industrial foi um fenômeno social europeu, mas precisamente inglês. Ocorreu entre 1760 e 1840, tendo por motor energético o carvão mineral e como exemplo tecnológico a máquina a vapor.
A 2ª Revolução Industrial ampliou sua ação pela Europa, os EUA e o Japão, ocorreu entre 1850 e 1915, sendo sua energia o petróleo e sua tecnologia a química, a siderúrgica e dos transportes.
A 3ª Revolução foi a última que se pode, com propriedade, designar Industrial. Ela ocorre entre 1950 e 2000. A energia é a nuclear e as tecnologias começam a ser influenciadas pelos computadores, pela digitalização.
A Revolução em curso, no século XXI, está na energia nuclear, já em processo de inclusão da fusão nuclear, e das baterias de lítio e chips. A tecnologia é digital, virtual, e a comunicação, carregada de desinformação, ao invés da instrução cidadã, que se transforma no grande recurso de transformação da sociedade.
A SOCIEDADE DO SÉCULO XXI
Vivemos um período de grandes mudanças, começam em processos produtivos e chegam rapidamente ao cotidiano de cada um. Outra não é a razão de tantas e tão espalhadas guerras pelo mundo, das disputas entre forças locais a entre países detentores de bombas atômicas, capazes até de nos fazer voltar à pré-história, subindo em árvores, com celulares, ou, ainda antes, sem capacidade de escrever nem desenhar.
A população deixa de crescer e a riqueza fica cada vez mais concentrada, como demonstram as estatísticas mais consistentes.
Em 2025, os 10% mais ricos detinham 75% do patrimônio do planeta, enquanto a metade mais pobre ficou com 2% da riqueza.
Estes mais ricos se ocultam em empresas financeiras, gestoras de ativos, cujo controle está na centena de paraísos fiscais existentes no mundo, que vão de um bairro, a City londrina, a um país, como Catar, Mônaco e Honduras. E 67% são ligados ao Reino Unido, quer como territórios ultramarinos quer como antigas colônias.
Quem fica com a conta são os denominados classe média, com cerca de 20% dessa riqueza patrimonial.
Dois países se destacam como detentores das riquezas. Um pelos acúmulos fora de seu território, os EUA – onde há estados paraísos fiscais, como Delaware, Nevada, Wyoming e Dakota do Sul (onde o “dynasty trust” permite que gerações recebam suas heranças sem pagar imposto), e outro pelo enriquecimento do próprio país, a China, que se utiliza das ex-colônias europeias: Hong Kong e Macau, para maior facilidade fiscal e baixa tributação. Mas a densidade da riqueza demonstra sua financeirização e suas localizações na Suíça, Andorra, Luxemburgo e Bélgica, o confirmam.
O Brasil se destaca pela desigualdade (Índice Gini) o que também demonstra o baixíssimo nível de controle de sua imensa riqueza energética e a adoção da esparrela, do logro da transição energética.
*Pedro Augusto Pinho, administrador de empresa, membro do Conselho Editorial do Pátria Latina.