Emiliano José
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Wagner Moura, Carla França, Eleonora Ramos e eu
Dias claros, ensolarados, em Havana.
Final de 2019.
Eu e Carla.
Acompanhava-nos Eleonora, amiga jornalista.
Segunda viagem de Carla à Ilha.
A primeira, final do ano anterior.
Partiu, Carla já partiu definitivamente, agosto de 2024, para minha infinita tristeza.
Desfrutou de Havana intensamente.
Fomo surpreendidos pela realização naqueles dias do Quadragésimo Primeiro Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano (FICL), entre 5 e 14 de dezembro de 2019.
Nele, se homenageava o centenário de Alfredo Guevara , fundador do festival e do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC).
Felizes pela surpresa.
Mais ainda pelo fato de o festival vir a exibir “Marighella”, baseado no livro de Mário Magalhães, filme a cobrir a parte final da vida do velho comunista, dirigido por Wagner Moura.
Sob um governo de corte nitidamente fascista, o Brasil ainda não assistira ao filme.
Wagner Moura estava em Havana para promovê-lo.

Fomos ao Hotel Nacional, onde ele estava hospedado.
Recebidos com imenso carinho.
Lembrou do fato de eu ter sido professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, onde ele estudou.
Só por acaso não cheguei a ser professor dele.
Fomos levados por ele a um pequeno auditório do hotel, onde daria coletiva: Carla, Eleonora e eu.
À noite, no Cine Yara, tivemos o privilégio de assistir ao filme, ele e parte do elenco, presentes.
Deslumbramento.
Mais de mil pessoas, antes de o filme começar, gritavam “Fora Bolsonaro” – e mais tarde o povo ouviria o grito, e elegeria Lula, apenas três anos depois.
O filme chegaria ao Brasil, e Marighella, reconhecido pela bravura, coragem, amor ao povo.
Nós ainda assistimos a outros filmes no festival, um deles, sobre Helena Ignez, se me lembro bem “A mulher de luz própria”.
Eleonora Ramos, nesse dia, esteve na fila para ingressar no cinema.
Começou a conversar com dois cubanos e foi surpreendida com o conhecimento deles sobre cinema e de modo especial sobre o cinema brasileiro – sabiam mais do que ela própria sobre filmes nossos.
A cultura cubana, a valorização da arte e do conhecimento.
Lembrei de tudo isso agora, ao assistir, nos últimos dias, o reconhecimento do talento do ator Wagner Moura, e do grande, extraordinário diretor Kleber Mendonça Filho, já premiado com outras notáveis obras como “Bacurau”, “O som ao redor” e “Aquarius”, consagrado internacionalmente agora, ele e Moura, com “O agente secreto”.

Wagner Moura, quando exibiu “Marighella” em Havana, o fazia conscientemente.
Sabia: seria acolhido amorosamente na Ilha, até porque Marighella tinha uma afeição muito especial por Cuba.
A ida à Ilha, em 1967, para participar da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), acabou por redundar na saída dele do PCB, partido ao qual pertencera desde o início dos anos 1930.
Funda então a Ação Libertadora Nacional (ALN), passando, a partir daí, a defender e praticar a luta armada contra a ditadura militar.
Assassinado no dia 4 de novembro de 1969, em operação comandada por Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais terríveis torturadores e assassinos do regime militar.

Clara Charf, companheira dele, exilou-se em Cuba, onde viveu durante uma década, só voltando com a anistia, em 1979, dedicando-se à militância no PT, fundado em 1980.
Wagner Moura sabia das profundas ligações de Marighella com a Ilha e por isso lançou o filme lá naquele final de 2019.
Carla, Eleonora e eu tivemos, volto a dizer, o imenso privilégio de assisti-lo, e sob a bênção do próprio diretor.
Viva Cuba!
Agora sob cerco mais intenso ainda do imperialismo norte-americano, exigindo dos povos e nações a indispensável solidariedade internacionalista.
Viva Wagner Moura!










