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domingo, 14 julho, 2024

 Em que muda as recentes eleições no Reino Unido e na França?

Pedro Augusto Pinho*

Há 50 anos, nas ruas de Lisboa (Portugal), a multidão, comemorando a vitória da Revolução dos Cravos (25/04/1974), entre diversas músicas e hinos entoava a “Internacional”, consagrado hino dos socialistas marxistas russos:

“Bem unidos façamos, nesta luta final, uma terra sem amos, a Internacional”.

Meio século se passou e Portugal continua pobre, desigual e recentemente (10/03/2024) colocou, pelo voto, a direita no poder – Aliança Democrática (AD), coalizão entre o Partido Social Democrata (PSD) e o Centro Democrático Social (CDS).

Porém, o que significa “direita” neste século XXI?

Por todo século XX, assistimos o embate pelo poder entre as finanças e a industrialização, encoberto por outras dualidades.

Recordemos: a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, no Reino Unido, não constituiu nova classe, a dos industriais, pois os financistas, quase exclusivamente composto pela nobreza britânica, mantiveram o controle dos destinos e da economia do país.

Foi do outro lado do Oceano Atlântico, nas colônias formadas na América do Norte por emigrantes de diversas origens – ingleses, irlandeses, escoceses, holandeses e suecos, principalmente – com independência para se organizarem, que surgem os Estados Unidos da América (EUA), e que, após a Guerra Civil (1861-1865), dão unidade às Treze Colônias, empreendem a industrialização, e com os incentivos estatais, mas direção privada, se apresentarão com este novo poder, o industrial, na passagem para o século XX.

Porém o século XX descortinará diversas modalidades de organização do poder, sendo as mais significativas as capitalistas, entregando a governança ao capital, e as socialistas, dando a governança, parcial ou total, ao trabalho.

Ao final do século, com Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido entre 04/05/1979 a 28/11/1990, as finanças obtiveram as desregulações formais, ou seja, possuíam o passaporte que as permitiam circular pelo mundo sem vistos de entrada nem de saída. Privilégio só concedido ao capital que, rapidamente, em uma década, passou de nove para 84 paraísos fiscais, ou seja, locais que variavam de um bairro (City, em Londres) ao inteiro país (Luxemburgo, Panamá, Libéria), onde não eram tributadas as movimentações financeiras, nem investigados destinos e aplicações do capital.

Com a vitória das finanças e sua universalização, estas deixaram de ter nacionalidade, embora privilegiassem determinadas moedas. As finanças tornam-se apátridas. Igualam-se com a Internacionalização, a outra face das globalizações: capital e trabalho.

Porém as hostilidades se tornam mais sutis. O capital não pode dispensar o trabalho, mas pode explorá-lo ao máximo, excluindo-lhe dos direitos trabalhistas e previdenciários e o iludindo como Microempreendedor Individual (MEI) ou UBER.

O mundo absorve a ideologia financeira e bélica do neoliberalismo. Todas nações? Não, o Oriente, formado em bases distintas do ocidente, apresenta a alternativa ao globalismo financista, belicoso e neoliberal, com a cooperação entre nações soberanas, independentemente das opções políticas, religiosas, culturais. O exemplo mais marcante é da Nova Rota da Seda ou do que se denomina atualmente Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR, ou BRI, na sigla em inglês), criado em 2013.

ELEIÇÃO NO REINO UNIDO

O país que mantém a realeza e toda aristocracia de terras com recursos públicos dificilmente pode ser considerado democrático. E, até recentemente, mantinha um nível de autoridade governamental na Assembleia de Nobres Hereditários, denominada Câmara dos Lordes.

A comunicação de massa no Reino Unido é efetivamente um sistema de convencimento, muito bem elaborado, realizado por profissionais, incluídos os das ciências sociais, que convence ao povo que ali se vive no melhor dos mundos, e quando, por absoluta falta de condições de vida, surge a revolta, trata-se de reformar o sistema e recoloca-lo como novo e acolhedor do protesto. Na fraude permanente, no engodo da população, o Reino Unido é imbatível, mestre para suas colônias, exemplo para os atuais liberalismos.

Embora haja mais partidos políticos, este modelo pseudodemocrático sempre trabalha com bipolaridades, resultando que Conservadores e Trabalhistas disputam as governanças. Esta governança atualmente é financeira, belicista e neoliberal.

Já se teve o exemplo de Tony Blair, trabalhista, primeiro-ministro de 1997 a 2007, com a ilusória Terceira Via, na realidade focada nas relações com os EUA, em intervenções militares bem sucedidas no Kosovo e em Serra Leoa, e no apoio quase incondicional ao presidente estadunidense George W. Bush e sua “Guerra ao Terror”, lhe valendo o codinome “poodle do Bush”, e certamente se repetirá com Keir Starmer, vencedor em 04/07/2024.

No primeiro discurso à nação, Starmer elogiou o “árduo” trabalho de seu antecessor, o conservador Rishi Sunak, como o primeiro chefe de governo britânico de ascendência asiática (BBC News, 05/07/2024).

ELEIÇÃO NA FRANÇA

A França tem história diferente do Reino Unido, lá a nobreza conheceu a guilhotina, porém nesta Quinta República, somente seu fundador, o General De Gaulle (08/ 01/1959 a 28/04/1969) lutou, verdadeiramente, pela “Grandeur de la France”. Os ditos socialistas mais se aproximam dos sociais-democratas nórdicos do que os socialistas marxistas soviéticos.

E, desde 2017, é presidida pelo empregado da mais tradicional e antiga família de banqueiros, os Rothschild, que desde o século XVIII já se destacava no mundo das finanças. No século XIX foi considerada a mais rica família do mundo, suplantando os monarcas ocidentais e orientais (wikipedia.org/wiki/Família_Rothschild).

É evidente que Emmanuel Macron dispõe dessa invejável consultoria, que trabalha para os interesses financeiros do Império Rothschild e da República Francesa. Certamente foi este staff que determinou a antecipação da eleição, pois a direita francesa de Marion Anne (Marine) Le Pen só teria crescimento no fracasso econômico da França: aumento dos preços e do desemprego e retração econômica e desindustrialização, para 2025.

A família francesa é predominantemente de classe média. A renda anual oscila ao redor de US$ 34.000,00, a maior dentro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Colocar medo nesta classe das possíveis transformações de um governo de extrema direita foi o surpreendente resultado do segundo turno eleitoral. Consolida a convicção da estratégia dos assessores dos imensamente ricos Rothschild.

E o que se pode esperar de uma Assembleia onde não há maioria politicamente consolidada? O empoderamento do executivo de Macron. Mais um ponto para esta brilhante equipe de analistas e estrategistas políticos orientadores dos Rothschild.

TUDO MUDA PARA FICAR MAIS IGUAL AO QUE É? CONCLUSÕES

Precisamos, de início, entender como está o mundo após mais de 40 anos de governos ocidentais neoliberais, financeiros e belicosos.

Os primeiros anos neoliberais foram da lua de mel. O fim da história, pois o perigo comunista fora derrotado e poder-se-ia viver plenamente o mundo da liberdade e da livre iniciativa. A democracia vencera a tirania, não mais guerras e medos. Globalização, um mundo sob a mesma bandeira, caminhando para a mesma moeda, para unificação.

E aí tem início, mesmo considerando falaciosos os termos neoliberais, o fracasso desta globalização: o mundo é múltiplo, as culturas e as realidades da natureza são muito diversificadas. As etnias formaram-se depois da palavra (Joseph Ki-Zerbo, “Da natureza bruta à humanidade liberada”, em “História Geral da África”, volume I, UNESCO/Ática, 1982). A globalização é o maior dos enganos.

O século XXI traz a solução dos nacionalismos e da paz nas propostas chinesas da já referida Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR) e da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), fundada em 2001.

O que significa este nacionalismo? Que os países construíram ao longo de séculos de relações com a natureza e com os habitantes laços muito maiores do que um pensamento, por mais humano e solidário que seja, capaz de violentar a cultura forjada nestas relações.

O respeito a esta cultura é fundamental para a paz e o bom relacionamento. A China descobriu ainda na Idade Média esta condição na viagem de 1260 dos irmãos venezianos Polo. Foi a narrativa de Marco Polo que sintetizou: na troca de presentes se obtém o direito de comerciar. E o comércio quem impulsionará o desenvolvimento, as trocas tecnológicas, as novas conquistas do bem estar, sempre que respeitoso dos hábitos e costumes.

Assim a República Popular da China, onde quase a totalidade da população se declara e vive seu cotidiano sem deuses, se relaciona com a República Islâmica do Irã, país onde o governo e a quase totalidade do povo são religiosos mulçumanos.

Nenhum partido do Reino Unido nem da França apresentou programa de governo para esta realidade multipolar, que congrega praticamente três quartos da humanidade e mais da metade da Produção Mundial. É a alienação a que leva o neoliberalismo, também pródigo em corrupção e farsas de toda ordem.

Nada se espera dos governos de Londres nem de Paris que modifiquem a situação política, as misérias da concentração de renda atuais nem das guerras forjadas para manter a indústria bélica estadunidense, israelense, inglesa e retirar recursos que poderia estar aplicados no bem estar da população da Rússia, da China, da Índia, para tão somente garantir a soberania destas nações.

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

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