Foto:MST
Por: Wagner França
A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela não é um episódio isolado: é a reafirmação brutal do imperialismo norte-americano tentando impor, mais uma vez, sua ordem na América Latina. Desde agosto de 2025, o governo de Donald Trump intensificou uma campanha militar e política que coloca em risco a soberania venezuelana e ameaça incendiar toda a região. Diante desse cenário, a única postura aceitável para a esquerda mundial é a defesa incondicional da Venezuela. E é justamente aqui que o governo Lula erra — e erra gravemente.
Trump deslocou uma poderosa frota para o Caribe, incluindo o porta-aviões USS Gerald R. Ford, sob a justificativa desgastada de “combater o narcotráfico”. O resultado? Ataques letais a embarcações, dezenas de mortos — muitos deles trabalhadores pobres — e a declaração unilateral de fechamento do espaço aéreo venezuelano. Além disso, os EUA classificaram o chamado “Cartel de los Soles” como organização terrorista, vinculando sem provas o presidente Nicolás Maduro ao esquema. É a velha tática de criminalização política, enquanto Trump, com ironia grotesca, perdoa narcotraficantes aliados, como o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández.
Essa escalada viola o direito internacional e tenta transformar a Venezuela em laboratório de uma nova doutrina intervencionista. A resposta de Caracas — mobilização da Milícia Bolivariana e o anúncio de que o país se converteria em uma “república em armas” se atacado — não é belicismo, mas legítima defesa frente a uma potência historicamente intervencionista.
Apesar disso, a Venezuela não está só. Em janeiro de 2025, o Festival Internacional Antifascista reuniu 200 delegados de 120 países em Caracas. Para movimentos como o MST, a Venezuela é hoje uma das principais trincheiras da luta contra o imperialismo. A solidariedade existe — mas não de onde mais se esperava: do Brasil.
A ambiguidade do governo Lula enfraquece a resistência latino-americana
O governo Lula tem adotado uma postura vacilante que, na prática, facilita o avanço dos EUA na região. Ao não reconhecer oficialmente a legitimidade do governo Maduro, ao vetar a entrada da Venezuela no BRICS e ao se esquivar de qualquer mediação firme, o Brasil abandona um aliado histórico e rompe com princípios fundamentais da própria tradição diplomática petista.
O chanceler Mauro Vieira repetiu a fórmula burocrática de que o Brasil “não reconhece governos, mas Estados”. Mas a neutralidade, diante de uma ofensiva imperialista, é ficção. Na política real, omissão é posicionamento.
O veto à entrada da Venezuela no BRICS — justificado nos bastidores pela influência do Itamaraty, que Maduro acusa de estar “a serviço do Departamento de Estado” — é talvez o gesto mais grave. Impediu a Venezuela de ingressar em um bloco estratégico capaz de dar proteção econômica e diplomática diante da pressão estadunidense.
Nem mesmo durante a COP30, realizada em território brasileiro, o governo foi capaz de garantir hospedagem à delegação venezuelana após conflitos com uma empresa norte-americana. Foi um vexame internacional, e um recado claro: o Brasil pode até discursar em defesa da paz, mas não está disposto a enfrentar Washington.
A defesa da Venezuela é um imperativo histórico
Permitir que os EUA destruam a Revolução Bolivariana significa abrir caminho para novos ataques contra Cuba, Nicarágua e qualquer projeto soberano no Sul Global. É ingenuidade — ou cumplicidade — acreditar que essa ofensiva é apenas contra Maduro. É contra toda forma de independência latino-americana.
Por isso, é urgente:
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Correção imediata de rota no governo Lula: reconhecimento oficial do governo Maduro, apoio ativo à entrada da Venezuela no BRICS e liderança de uma mediação internacional com autoridade política.
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Reforço da frente antifascista internacional: ampliando a articulação iniciada em Caracas.
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Denúncia massiva da guerra híbrida dos EUA: incluindo o duplo padrão vergonhoso da política antidrogas e a manipulação midiática global.


