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Postado em 30/06/2016 10:35

Elites? Vocês estão demitidas!

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Dmitry Orlov, Club Orlov
http://cluborlov.blogspot.com.br/2016/06/firing-elites_28.html
“Expressão quase perfeita do fascismo são os recentes acordos de ‘parcerias’ comerciais trans-Atlântico e trans-Pacífico que o governo Obama negociou em segredo e os quais hoje, para grande alívio de todos, parecem ter morrido afogados. (…)
Mas muito mais importante que essas superficialidades financeiras, o que está realmente acontecendo é que a luta de classes voltou – voltou p’rá quebrar tudo –, até aqui só na Grã-Bretanha com o referendo pró-Brexit, mas com todo o jeito de se alastrar.”
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Dado o que acontece nesse momento na União Europeia (UE) redux, é difícil não escrever um pouco sobre aquilo. De minha parte, nem resistirei à tentação. Bolsas despencam; bancos, à beira da bancarrota; o ouro, nas alturas e aqueles sujeitos na City de Londres e em Wall Street correm à caça do próprio rabo, com a cabeça em fogo. Mas muito mais importante que essas superficialidades financeiras, o que está realmente acontecendo é que a luta de classes voltou – voltou p’rá quebrar tudo –, até aqui só na Grã-Bretanha com o referendo pró-Brexit, mas com todo o jeito de se alastrar.
Naquele referendum, as gerações mais velhas, que sabem a que classe pertencem, votaram para incendiar aqueles amaldiçoados patrões em Bruxelas e Londres; e os mais jovens, vítimas da lavagem cerebral que lhes impinge a propaganda da União Europeia (UE), votaram pelos patrões. Alguns ‘especialistas’ já disseram que haveria alguma espécie de divisão generacional, mas, para mim, as gerações mais velhas foram espertíssimas, o que se explica adequadamente pelo fato de que, sim, elas são mais espertas. Sabem como é, idiotas morrem jovem, e a simples ação de sobreviver já é sinal de inteligência. Mas esse é ponto colateral, de importância menor.
O ponto principal é que é muito, muito necessário demitir as elites maléficas, tanto na Europa como nos EUA. As elites maléficas arrastam vários problemas, que gostaria de enumerar rapidamente:
  • Elites maléficas tendem a ser neoliberais e abraçam todas as piores ideias que sempre acompanham essa ideologia fracassada. Os resultados aí estão, à vista de todos: aposentados roubados, jovens privados de qualquer tipo de emprego que faça algum sentido; riqueza fabulosa para uma pequena elite, e austeridade para todo o resto; mais de tudo para a Alemanha, menos de tudo para todo o resto. Um esquema financeiro que não passa, fundamentalmente, de um esquema Ponzi, que com certeza explodirá, e pode estar explodindo nessinstante, enquanto escrevo.
  • Elites maléficas tendem a andar sob a rédea dos neoconservadores em Washington, e, como eles, elas também só fazem dar guinadas, de um desastre, para outro. Os resultados outra vez estão aí, à vista: longa lista de países destruídos (Afeganistão, Iraque, Líbia, Iêmen, Síria, a Ucrânia), uma torrente de migrantes que flui para fora desses países em direção à Europa, na que já é a maior crise de refugiados desde a 2ª Guerra Mundial, e essas extremamente perigosas e inteiramente desnecessárias provocações contra a Rússia.
  • Elites maléficas esposam uma ideologia que visa a apagar todos os traços étnicos e culturais distintivos, e forçam um repulsivo “politicamente correto” para tudo, exceto para muçulmanos (estranhamente excluídos de qualquer proteção pelo “politicamente correto”). Tendo eliminado quase todas as liberdades humanas significativas (incluída na extinção em massa também a liberdade de expressão, a qual, na Europa, já é refém dos interesses corporativos da mídia-empresa), as duas únicas liberdades que as elites maléficas promovem hoje na Europa são: a liberdade para vagar sem rumo pelo continente sem lugar onde se fixar; e a liberdade para abraçar qualquer perversão que interesse ao perverso, de sexo com animais a pedofilia.
  • Mas o maior problema com essas elites maléficas transatlânticas é o seguinte: não há meio de demiti-las. Quanto mais fracassam, mais inamovíveis ficam. Obviamente, isso nada tem a ver com educação, ou mérito, ou popularidade: é simplesmente a estabilidade de classe. As elites maléficas transatlânticas entendem que seriam, elas mesmas, um Übermenschen, super-homem elevado acima dos meros mortais. Democracia, para elas, é brincadeira. Praticamente sempre conseguiram manipular a política a favor delas. Quando a regra falha, basta por “o populacho” a votar, e votar, e votar, e votar, até que “votem certo”. Mas esse remendo político agora está falhando, e dos dois lados do Atlântico, porque parece que “o populacho” dessa vez cansou, se encheu, basta, de vez.
O recurso automático é porem-se as elites a insultar o “populacho” no esforço para obrigá-lo a baixar a crista e submeter-se. Quem não queira ver o próprio país invadido por migrantes ilegais (observem que você ter tido o seu pais destruído pela OTAN não o qualifica a requerer asilo político!), é tachado de racista e preconceituoso. Quem não compreenda alguma filigrana da letras microscópicas da governança burocrática da União Europeia (porque, falando sinceramente, quem perderia tempo lendo aquele amontoado de bobagens?!) é declarado ignorante e mal orientado. E, o mais importante, se acontece um crash financeiro (absolutamente inevitável em todos os casos; vide “esquema Ponzi”, acima), a culpa é das escolhas erradas nas urnas.
Talvez ainda mais importante: fazem-se todos os esforços possíveis para igualar patriotismo = nacionalismo = fascismo. É preciso explicar, porque esses conceitos são absolutamente distintos:
  • Patriotismo é o amor pela terra e pelo povo nativos de cada um. É resultado natural, orgânico, de ser criado num dado local, com uma dada gente, que também cresceu ali e que, todos, são portadores de um legado cultural e linguístico que todos valorizam e amam. Nada disso implica que os que não sejam de nossa família, de nosso bairro ou de nossa região sejam por qualquer razão inferiores, apenas que não são os nossos, e nós os amamos menos.
  • Nacionalismo é produto sintético que se fabrica usando-se a educação pública, cujo centro são alguns símbolos ocos: uma bandeira, um hino, páginas amarelecidas de papel, uns poucos mitos originais e coisas assim. O nacionalismo depende de rituais (desfiles, discursos, distribuição de medalhas) que constituem um culto cívico. O nacionalismo existe para servir de apoio ao estado-nação. Nos casos em que o nacionalismo considere as necessidades da terra e do povo nativos originais, nacionalismo e patriotismo alinham-se. Nos casos em que o nacionalismo destrua a terra e o povo nativos originais, o nacionalismo converte-se em inimigo; e os patriotas organizam-se em movimentos partisans, levantam-se e destroem o estado-nação.
  • Fascismo é a fusão perfeita de estado-nação e empresariado, no curso da qual se apaga a distinção entre interesses públicos e privados, e as empresas e empresários passam a comandar a política pública.
Expressão quase perfeita do fascismo são os recentes acordos de ‘parcerias’ comerciais trans-Atlântico e trans-Pacífico que o governo Obama negociou em segredo, e os quais hoje, para grande alívio de todos, parecem ter morrido afogados.
Deveria ser óbvio que o fascismo tem de ser derrotado, e se tivéssemos de escolher uma única perfeita razão para demitirmos as maléficas elites transatlânticas, seria a urgente necessidade de domarmos esse poder incontrastado das empresas e empresários. Mas não é só isso, porque o nacionalismo e o patriotismo também estão em disputa.
O patriotismo é um valor humano natural, essencial, sem o qual só restam populações desenraizadas que vagam movidas pelo oportunismo.
O nacionalismo é inovação relativamente recente (estados-nação são invenção do século 17) e, porque é recente, é perigosa. Mas no caso de alguns estados-nação mais antigos e mais bem-sucedidos, o nacionalismo provê benefícios significativos: uma tradição cultural bem-amada, ancorada a uma língua e muitas vezes a uma literatura; a capacidade para fazer e manter a paz e repelir agressões externas.
E há a União Europeia, com aquela bandeira que mostra uma constelação de estrelas as quais, não naturalmente, mas obviamente, orbitam em torno de algo – e algo que, porque é invisível, só pode ser um buraco negro.
Os EUA também são entidade sintética e igualmente artificial, muito recentemente derivada, com aquela bandeira que mostra obviamente uma espécie de bandeja com bolinhos em formato de estrelas, os quais, muito infelizmente, já não podem ser comidos pelo “populacho”, porque as elites decidiram que querem todos os bolinhos para elas.
Assim, é preciso demitir aquelas elites. Se terá de ser feito por votos (não, por exemplo por balas de canhão), nesse caso a razão de ser e o objeto de votar é eleger alguém que, em primeiro lugar e sobretudo, seja capaz de demitir aquelas elites.
Isso parece ser o que os britânicos já fizeram; agora é a vez dos norte-americanos.
Questão para se pensar e que algumas vezes tem aparecido (porque as pessoas cansaram-se de só repetir que Donald Trump é doido, misógino, racista, fascista, mau empresário, quase sempre mal educado e por aí vai) é se o homem estaria qualificado para governar. Para mim, é questão que se reduz a outra, muito mais simples de responder: Trump é considerado qualificado para demitir gente? A resposta é Sim, com toda a certeza, é qualificado para demitir gente. De fato “Você está demitido!” é frase e marca-registrada dele. Até, recentemente, demitiu o próprio coordenador de campanha.
Hillary Clinton, por outro lado, lidera a coorte completa de todos que têm de ser demitidos.
E por isso é que acho que há boa chance de que “o populacho” afinal se levante e eleja alguém que fará exatamente isso.*****

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