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quinta-feira, 15 janeiro, 2026

El Salvador: tempos difíceis

San Salvador (Prensa Latina) A recente aprovação da reeleição por tempo indeterminado em El Salvador trouxe à tona uma questão que desperta paixões e opiniões conflitantes, em um país onde o atual governo busca consolidar sua permanência no poder há muito tempo.

Por Luis Beatón

Correspondente Chefe em El Salvador

O secretário-geral da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), Manuel Flores, afirmou que os deputados da Assembleia Legislativa deram “um golpe de Estado” ao aprovar a reforma constitucional que permite a reeleição presidencial por tempo indeterminado.

“Eles consolidaram, assim, um projeto autoritário e abusivo que busca perpetuar o poder de uma única pessoa… (Bukele). Esta não é uma simples reforma; é o enterro da República; é a legalização da ditadura”, disse o líder do principal partido de esquerda. “Nenhuma ditadura é eterna”, enfatizou.

Ele afirmou que a proibição da reeleição na Constituição “não é um capricho; é uma garantia que impede qualquer indivíduo, seja ele quem for, de se tornar um tirano”.

Mas não é só a esquerda. Diversos grupos, da Igreja à Aliança Republicana Nacionalista (Arena), de extrema direita, estão se manifestando contra um plano que seria implementado em fevereiro de 2027. O Cardeal Gregorio Rosa Chávez expressou preocupação com o clima político em El Salvador, observando a falta de liberdade e o enfraquecimento das instituições democráticas.

Quem não acompanha a situação do país pode se surpreender com as declarações do prelado, dada a alta popularidade que as pesquisas mostram do presidente Nayib Bukele.

Em declarações no início de agosto, o alto funcionário alertou sobre manipulação e negação de valores como diálogo, respeito à dignidade humana e tolerância, e mencionou a possibilidade de “tempos muito difíceis”, tudo isso na esteira da aprovação das reformas da Constituição de 1983 pela Assembleia Legislativa.

Em menos de uma semana, duas das principais vozes da Igreja Católica salvadorenha, o arcebispo José Luis Escobar Alas e a cardeal Rosa Chávez, expressaram suas opiniões sobre a situação do país.

Eles alertaram sobre a deterioração das liberdades, a persistência da pobreza, os riscos ambientais causados ​​pela exploração mineira e a falta de participação dos cidadãos em decisões importantes, como as reformas constitucionais.

O presidente da Conferência Episcopal de El Salvador, Escobar Alas, pediu à Assembleia Legislativa que revogue a Lei de Mineração e restabeleça a proibição da mineração de metais para proteger a vida e o meio ambiente, bem como, enfatizou, que reconsidere as reformas constitucionais aprovadas sem consulta pública.

Dois dias depois, a cardeal salvadorenha Rosa Chávez alertou contra a manipulação e o “pensamento único” e acusou certos setores de querer transformar a população em uma “massa alienada” em vez de um “povo consciente” capaz de buscar o bem comum.

Ele foi direto ao denunciar o avanço de um modelo de país que — segundo ele — nega os valores essenciais de uma verdadeira democracia.

Esta é a posição de um setor altamente influente no país, após posicionamentos e eventos que têm perturbado a população. Segundo analistas, a população abriu mão de seus direitos em resposta aos resultados positivos do governo na segurança pública.

Nos últimos dias, ao falar com um casal de profissionais, eles nos disseram que não votariam mais em Bukele; eles expressaram decepção com o que está sendo planejado para as eleições, que o país realizará em fevereiro de 2027 e que deveriam ocorrer em 2029.

Isso sinalizou que os salvadorenhos já começaram a trilhar o tortuoso caminho das eleições. As próximas eleições presidenciais, municipais e legislativas, aprovadas pela maioria absoluta dos representantes do partido governista Nuevas Ideas (NI), serão realizadas.

A disputa já começou, e não faltam opiniões sobre o que está em andamento, sobre qual deve ser a estratégia para deter os supostos planos de Bukele de se perpetuar no poder e estabelecer um regime ditatorial.

Falando em estratégia, a deputada Marcela Villatoro, da Arena, focou no que muitos acreditam ser o objetivo da oposição ao retornar às urnas. “Há pessoas que sentem a necessidade de ser candidatas à presidência, quando o foco deveria estar na Assembleia Legislativa.”

Restaurar a pluralidade política no fórum que faz e desfaz leis deve ser o objetivo de uma oposição que tem apenas três deputados em 60 cadeiras. “Essa é uma questão que deveria ser discutida com a base, e não a discutimos como partido”, afirmou.

As opiniões de Villatoro são parcialmente consistentes com as de outros grupos políticos que se opõem a “uma Assembleia Legislativa forçada a fazer o que uma pessoa diz”, uma aparente referência a Bukele.

Outros partidos de oposição não negam esse objetivo, mas, como o Vamos, insistem que “seria um erro não participar; é nosso direito e obrigação”, segundo sua secretária-geral, Cesia Rivas.

Entre as ideias que começam a circular está o estabelecimento de alianças entre partidos de oposição para disputar as eleições de 2027, embora as duas maiores forças, a Arena e a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), dificilmente conseguirão romper o antagonismo.

Algo semelhante aconteceu antes das eleições de 2024, mas a tentativa fracassou porque prevaleceram interesses individuais, semelhantes aos que agora começam a surgir.

Apresentar um candidato consensual para explicar o que está acontecendo na sociedade durante a campanha eleitoral pode ser uma opção, mas há a convicção de que eles não derrotarão o atual presidente, o que reitera que o próximo passo seria buscar o controle da Assembleia.

Sobre este assunto, o casal de profissionais consultado afirmou que, nas eleições de 2024, votaram em candidatos da Irlanda do Norte, que eram jovens, inexperientes e não representavam verdadeiramente o povo. Foi um voto de punição que provavelmente não acontecerá agora.

“Não votaremos em representantes que não representam o povo e que estão ali na Assembleia apenas para apertar o botão em prol do que dita o Palácio do Planalto”, sustentaram.

Os comentários são uma prévia do que pode acontecer nos próximos meses, quando os candidatos para todos os cargos eletivos começarem a surgir.

Ronald Umaña, fundador do partido político Cambio Total e analista político, acredita que Bukele quer a eleição só para ele, e é por isso que ele tem trabalhado para reformar a Constituição, incluindo a conquista de assentos na Assembleia Legislativa, prefeituras e, especialmente, a presidência. Bukele, diz ele, quer uma Constituição adaptada às suas necessidades, para ganhar a Assembleia Legislativa e convertê-la em uma assembleia constituinte, e para redigir uma nova Carta Magna, na qual ele poderia estabelecer que a presidência poderia ser hereditária.

“Imagino que você vá até uma tela, aperte um botão e é assim que você vota. Hoje não vão permitir nenhuma cédula de teste. Essas eleições vão ser fraudulentas. A fraude já foi cometida. O TSE já a cometeu. Não há dúvida disso”, afirmou ele no programa de televisão Encontro com Julio Villagrán.

Com base neste e em outros critérios, alguns enfatizam que a estratégia deve se concentrar em desalojar o Nuevas Ideas e eliminar sua maioria na Assembleia, continuando a apresentar algum candidato presidencial ocasional.

Este é apenas o começo de um processo que deve se tornar mais complicado nos próximos meses, já que a NI controla todos os poderes do governo e, além disso, seu principal líder, Bukele, é especialista em gerenciar sentimentos e apoio nas redes sociais.

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