Pedro Augusto Pinho*
Desde a penúltima segunda-feira de agosto (24/8), dia que se rememora o sacrifício do Estadista Brasileiro, Getúlio Dorneles Vargas, um frêmito percorre as candidaturas presidenciais desta República. E por que?
Porque o verdadeiro monopólio nacional da comunicação televisiva resolveu entrevistar cinco, dos sete candidatos da direita e, por não poder ocultá-lo, o atual presidente do Brasil, da segunda a sábado. Assim, este conservador operário que tenta a reeleição passa a ser identificado como esquerda. Certamente já fez todas as orações pedindo perdão a Deus. Nenhum dos quatro candidatos de esquerda foi sequer colocado nas intenções de votos para as encomendadas “pesquisas”.
Em consequência abriu-se o mais fétido esgoto em todos poderes da República; todos têm o que denunciar ou, ao menos, supor com alguma lógica, os crimes e pecados dos outros.
Por que trato de questões religiosas? Tenho dois bons motivos. Primeiro porque as religiões estão nas ruas fazendo comício e são objeto das pesquisas de intenção de voto. Mas, principalmente, por sermos um povo supersticioso, no qual o jogador de futebol se persigna ao entrar no campo, “para dar sorte”. E explodem as dívidas com jogos, as “bets”, que se infiltram por toda parte, em todas cabeças, nas mais mesquinhas razões. Reza-se para ter sorte?!
Tenho idade bastante para me lembrar do suicídio de Vargas e da minha professora na Escola Pública, dona Nilcéia, nos comunicando que não teríamos aula, pela morte do Presidente.
Setenta e dois anos são passados. O Brasil teve golpes de todos os modos, sempre com grande prejuízo para o País e seus habitantes, mas nos bastará, por agora, aquele denominado “redemocratização”. Por falta de informações e muita desinformação, a quase totalidade dos brasileiros desconhece o que aconteceu em 1979, o ano do golpe: a invasão das finanças apátridas no Brasil, aproveitando o fim do Governo Geisel (15/3/1979) e a chegada, ao Reino Unido, de Margaret Hilda Thatcher, futura Baronesa Thatcher de Kesteven (4/5/1979), e no, Brasil, o General Figueiredo sucedendo Geisel pelo golpe da continuidade militar, imposto pela dívida brasileira.
Este episódio, que nos deixou tanta lama, necessita ser colocado à luz do Sol.
João Figueiredo foi filho de Euclides de Oliveira Figueiredo, um dos “jovens turcos” que se aperfeiçoou na Alemanha. De volta ao Brasil, Euclides foi dos principais comandantes da denominada “forças constitucionalistas” contra Vargas, em São Paulo. Em 1945, filiou-se à União Democrática Nacional (UDN) e foi eleito constituinte em 1946.
O Governo Geisel se destaca, mesmo entre os “tenentistas” que governaram o Brasil de 1967 a 1979, por sua defesa intransigente da soberania brasileira, que o diga Henry Kissinger, pelo desenvolvimento industrial, pelo das energias – ida para o mar, no petróleo; acordo nuclear com a Alemanha; e a biomassa, com o Proálcool – além da cultura, criação da Funarte, e da exportação de tecnologia para África e países árabes. E, como prometera, encaminhara o Brasil para nova democracia, a ser não imposta, mas discutida com a elite intelectual do País.
Constantemente, os exclusivistas, segregacionistas buscam inviabilizar a verdadeira democracia participativa como utópica. Quem estuda a China, desde a Revolução Cultural (1966-1976) até hoje, passando pelo falecimento e sucessão de Mao, pelo governo na sombra de Deng Xiaoping, pela acomodação maoísta-capitalista de Jiang Zemin, pelo amálgama confuciano de Hu Jintao e, finalmente, pelo “socialismo com características chinesas”, de Xi Jinping, verifica que foram simultaneamente sendo colocadas a educação para cidadania, modelo adaptado de “Os Analectos” de Confúcio, com a experiência cotidiana de vida, com responsabilidade. O resultado está à vista de todos: na ciência, na tecnologia, na produção, no conforto material, na segurança e na certeza de que o futuro ainda será melhor.
A NOVA REPÚBLICA SE VESTE COMO NO SÉCULO XIX
Existe uma “mão de Deus”, que não dá apenas a vitória em copas do mundo. Esta também distribui riquezas naturais, água, terras férteis, energia e outros benefícios, mas encolhe os favores na condição humana e, mais ainda, da vida em sociedade.
Ninguém coloca em questão os recursos naturais de toda ordem que o Brasil é possuidor. Mas para bem aproveitá-los é necessário uma sociedade que tenha direção e capacidade de atingir seus próprios objetivos.
A História do Brasil pode ser narrada em cinco episódios: desde a ocupação da terra até 1549, a terra de ninguém; segundo, de 1549 a 1580, colônia de Portugal; de 1580 a 1640, colônia de Castela, que nos ampliou os limites geográficos pelo fim do “Meridiano de Tordesilhas”, de 1640 a 1889, o país da família Bragança, e, finalmente, após a Proclamação da República, vigorando até hoje, o país dos golpes de estado.
A grande dúvida que surge nesta eleição de 2026 é: elegeremos Lula, e poderemos estar caminhando para uma paz de cemitérios, como nos tempos dos Braganças; ou elegeremos qualquer outro, mantendo a permanente inquietação a respeito de onde sairá o próximo golpe?
E observe o prezado leitor: se neste ano o golpe vem da direita, nada impede que, no futuro, venha da esquerda ou de algum tirano de boa lábia.
Não há saída? Claro que a mão de Deus não pode ser maldosa. Mas ela exige cuidados, dedicação, não surge como prêmio de sorteio.
O Livro I, de “Os Analectos” de Confúcio (Kong Fu Zi) traz, na excepcional introdução e tradução do mandarim, da filósofa francesa Anne Cheng: “O pensamento de Confúcio modela somente um ideal de homem. É nessa medida que se pode falar de seu agnosticismo e de sua ética essencialmente fundada sobre a afirmação dos valores humanos. O ensino de Confúcio é, pois, por natureza, engajado, centrado num ideal prático, pode-se mesmo precisar: exclusivamente político, e, para disto nos convencermos basta constatar o número de parágrafos consagrados à arte de governar”.
A exigência, embora contrarie muitos com poder, não é técnica: é moral.
Mas há, ao lado do preparo, uma realidade que sempre deve estar presente para que a sociedade colha os benefícios.
Em 1992, escrevendo o Trabalho Especial sobre “A Empresa Integrada de Petróleo Promotora de Desenvolvimento”, para a Escola Superior de Guerra (ESG), afirmei: “A Petróleo Brasileiro Sociedade Anônima é, sob diversos aspectos, uma exceção ou, como preferem alguns analistas, uma anomalia na indústria do petróleo no mundo ocidental. Talvez pelo fato de ter, desde o início de suas atividades, a necessidade de se apropriar de recursos financeiros e tecnológicos, não herdando, por nacionalização tardia, reservas de óleo e instalações de terceiros, a PETROBRÁS cresceu diferente. Ajudada, também, por geologia complexa, avara de grandes acumulações de óleo, a Petrobrás exigiu de seus técnicos um rápido e profundo conhecimento que possibilitasse vencer esta barreira natural. E, finalmente, como que a incentivar todo esforço, os mais significativos campos de petróleo do Brasil surgiram no mar, em cotas batimétricas inéditas na produção mundial. E isto levou a Petrobrás ao pioneirismo de deter tecnologia exportável para países desenvolvidos. O estudo da recente situação do petróleo no Brasil abrange um complexo conjunto de fatores que, de algum modo, mexerão com toda sociedade brasileira e suas aspirações”.
*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.