Foto: EBC
César Fonseca
Grande desafio do presidente Lula: vetar ou não projeto da dosimetria aprovado na Câmara, que segue ao Senado para reduzir drasticamente a pena decretada pelo STF a Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado e crime violento contra Estado Democrático de Direito; se vetar, barra o golpe; se não, compactua com ele, podendo ser apunhalado pelo Centrão.
Os bolsonaristas, claro, continuam na mesma: não houve golpe de Estado nem crime algum contra democracia; insistem na tese do terraplanismo medieval anticientífica, amparada nas teorizações do filósofo fascista, Olavo de Carvalho; por mais que os estudiosos provem que a terra é redonda, que gira em torno do sol, insistem no contrário, que o sol gira em torno da terra, que não passa de uma mesa plana de passar roupa; não há Cristo que prove o oposto aos bolsonaristas, cheios de ódio pelo avanço da modernidade científica.
Também, não há quem consiga fazer o gado entender que a aquela famosa reunião do Ministério que Bolsonaro comandou para articular o golpe seja algo verdadeiro; por mais que a verdade esteja exposta e comprovada pelos fatos – e contra fatos não há argumentos – os bolsonaristas, viciados em fake News, negam qualquer propósito naquelas evidências gritantes; por pouco os fanáticos não dizem que a tentativa de rompimento da tornozeleira, pelo meliante em prisão domiciliar com ferro quente de solda, não tenha sido coisa do PT, incorporado em forma de demônio no corpo do ex-presidente, quando, límpido como água, ele tentava mesmo era fugir para a embaixada americana, se possível, depois de, naquela noite, ter conversado com o presidente Donald Trump pelo telefone do terraplanista Nicolas Ferreira.
Até agora, não se falou nada do conteúdo daquela ligação telefônica Trump-Bozo, cercada de mistério; parece segredo de justiça, como alega o ministro Tóffoli para não mostrar o processo do presidente do Banco Master; ou seja, bolsonarista não dá o braço a torcer: inventa o que for possível e impossível para tentar comprovar que estão certos ou que nunca estiveram errados; as vítimas da Covid, cujo sacrifício ele imitou ao vivo na TV, no auge da pandemia, que apresentem prova passada em cartório por São Pedro; teria sido, apenas, invenção dos adversários etc; de modo que é perda de tempo provar que o ex-presidente fascista comandou o golpe de Estado, como demonstram as evidências factuais; assim, nada mais justo que pregar reversão do processo concluído pelo STF, ao longo de 2025, de que Bolsonaro fez por merecer com louvor a prisão que está pagando na Polícia Federal, para mantê-lo nas garras da justiça pelos crimes praticados.
DOSIMETRIA: BANDEIRA ELEITORAL DA DIREITA FASCISTA
O fato é que o projeto da dosimetria, que reduz de 27 anos e 3 meses a pena aplicada pelos ministros da Suprema Corte, para, apenas, 2 anos e poucos de prisão fechada, deixando o restante para fajuta prisão aberta, em que Bolsonaro desfrute de liberdade – ele e seus aliados generais –, vira instrumento político de campanha eleitoral; a dosimetria vira bandeira de luta que os bolsonaristas levantam, desde já, com toda pompa e circunstâncias, objetivando transformar a verdade histórica da condenação em tentativa de farsa; tudo, é claro, como álibi para o gado sair desfilando de motociata pelo país afora, a fim de reanimar a irracionalidade bolsonarista de transformar mentira em verdade, como se tudo não passasse de brincadeira.
O presidente Lula, diante desse mote eleitoral artificial, deve ou não assumir, mediante veto presidencial, a armação política articulada pela maioria parlamentar direitista fascista bolsonarista no Congresso, como último recurso para carregar Bolsonaro como triunfo político, tal El Cid, o cadáver insepulto, conduzido, em cima do seu cavalo para a guerra?
A orfandade político-eleitoral da direita e ultradireita fascista é explícita: elas não têm candidato, pelo menos por enquanto, que seja capaz de rivalizar com Lula, conforme apresentam as pesquisas de opinião; a candidatura do senador Flávio Bolsonaro(PL-RJ) é uma cortina de fumaça que divide toda a direita em polvorosa; o Centrão, que manda, politicamente, no Brasil, desde a Constituinte de 1988, para barrar propostas reformistas de vanguarda, capazes de modernizar, econômica e socialmente, o Brasil, chegou ao estresse total, por não dispor de alternativa crível capaz de substituir Bolsonaro, com chances de vitória; levanta nos braços, agora, não o ex-presidente, mas o seu cartaz, ao lado do qual os aliados correm para bater fotografias; uma piada!
Os substitutos possíveis de Bolsonaro, aventados pela mídia conservadora, teleguiada por Washington, Donald Trump ou Wall Street, com suas ramificações reacionárias na Faria Lima e no Banco Central “Independente”, não tem pedigree suficiente para encarar Lula, pois, afinal, estão, irremediavelmente, divididos, correndo prá lá e prá cá sem saber o que fazer; os impérios morrem por dentro, diante de suas divisões intestintas, já dizia o Imperador César.
ESTRESSE DO SEMIPRESIDENCIALISMO GOLPISTA
A conclusão a que chegam é, volta e meia, tentar golpe parlamentar – blindagens e outros bichos –, como vem fazendo durante esse quarto mandato lulista; com sua maioria golpista, o Centrão e Cia Ltda(perto de 20 partidos sem direção orgânica), lançam mão do semipresidencialismo inconstitucional, para barrar o presidencialismo constitucional, a fim de dificuldade a governabilidade por meio de emendas parlamentares inconstitucionais, questionadas no STF; o grande aliado do semipresidencialismo golpista está, sendo, nesse momento, o BC Independente, que atua irracionalmente diante da economia e do comportamento do BC americano, que, sendo o norte do comportamento neoliberal imperialista global, já chegou a conclusão, desde o crash de 2008, que juro alto não reduz inflação, mas provoca recessão e desemprego; o BC tupiniquim perdeu o norte; todos os indicadores demonstram que a economia vai indo de razoável para bem, com Lula fazendo das tripas coração para preservar gastos sociais desenvolvimentistas; sua ação comprova o óbvio: necessidade de flexibilizar os controles monetários para permitir retomada do crescimento com justa distribuição da renda nacional.
BC GOLPISTA JOGA COM CENTRÃO CONTRA LULA
O BC jogou na lata de lixo a teoria econômica sob neoliberalismo em colapso que desmente teorias ortodoxas; desta vez, nesta semana, sem dispor de nenhum argumento minimamente racional, diz, apenas, que é preciso insistir na “ancoragem das expectativas”, para manter inflação não mais no centro da meta mas na ultra-radicalidade, sem considerar mais bandas inflacionárias flexionadas; diga-se que essas “expectativas desancoradas” são construídas pelo próprio mercado, em pesquisas realizadas entre os próprios especuladores, excluídos os demais agentes da produção, que criam a riqueza real no capitalismo brasileiro; não há como escapar da realidade simples e objetiva, já evidenciada por Keynes no seu livro “Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro – Inflação e Deflação”(Abril Cultural), de que o preço da moeda é dado pela escassez da oferta conduzida pela autoridade monetária, como está fazendo o BC sob comando de Gabriel Galípolo, teleguiado pela Faria Lima; manter o juro Selic na estratosfera dos 15% ao ano é sustentar escassez da oferta para elevar lucro dos rentistas; diz Keynes:
“A única razão pela qual um ativo oferece uma série de rendimentos durante sua vida útil, que tem um valor agregado superior ao seu preço de oferta inicial, é porque ele é escasso…[…] se o capital se tornar menos escasso, o rendimento excedente diminuirá.”
Galipolo, portanto, funciona como o teórico da escassez, para sustentar o juro alto e dificultar a vida do governo Lula, diante de um Congresso dominado pela direita e ultradireita fascista que quer derrubá-lo; El Cid comanda o cavalo da escassez neoliberal, carregando a bandeira golpista da dosimetria sob as ordens da Faria Lima.
Se Lula veta a dosimetria, polariza com os golpistas expõe a sua farsa; se não, compactua, perigosamente, com eles, correndo perigo de cair numa cilada imprevista; encarar ou não essa polaridade, eis a questão.