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Postado em 29/01/2021 9:10

Do leite condensado ao descaso condensado – quanto vale nossa dignidade?

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(Los gozos y las sombras – Lidia Susana Kalibatas)

O que presenciamos hoje no Brasil é um aprofundamento, sem precedentes, de uma lepra política a carcomer qualquer possibilidade de nos desenvolvermos como nação.

por Alexandre Filordi

Jornal GGN – Instantes após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff ter sido votado no Senado Federal, ouvimos de seu pronunciamento as seguintes palavras: “O projeto nacional progressista, inclusivo e democrático que represento está sendo interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa”.

O que presenciamos hoje no Brasil é um aprofundamento, sem precedentes, de uma lepra política a carcomer qualquer possibilidade de nos desenvolvermos como nação. Não há desculpas de imprevisibilidade para isso. As ameaças estavam todas já repertoriadas: do voto laudatório do então deputado federal Jair Bolsonaro à tortura e à violência da ditadura civil-militar, por ocasião do referido impeachment, passando pelos cortes bilionários que o Ministério da Ciência e Tecnologia já padeceu quando Temer assumiu a República, e que só se aprofundou, espécie de prenúncio agourento do descaso com a ciência em plena pandemia, até a robusta inépcia na gestão econômica que nos assola, enfim, os sinais estavam todos dados.

Esses sinais podiam ser vistos nos indicativos econômicos precedentes; nas escolhas e nas alianças políticas, inclusive com a sanha rentista do setor privado, comprometido com o imediatismo dos lucros acima de tudo e de todos; na verborragia de calão persecutório e alucinado; na manipulação de dados assoberbados por fakes news; nos cortes de investimentos nas políticas de mitigação da miséria e de estímulo à infraestrutura do país; na falta de antecipação à ordem das causas e dos efeitos pandêmicos etc.

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Quando, contudo, se acredita que a política se faz por forças míticas, tal como as crianças acreditam, não serão a realidade e os prenúncios analíticos capazes de salvar os incautos e de impedir os respingos incontroláveis da desordem a atingir todos nós. Nisso, é tragicômico ouvir um empresário dizer que o país está à deriva.

Por isso mesmo, quando a população passa a saber que o Governo Federal é capaz de gastar R$ 2 milhões em chicletes – num país de precária saúde bucal; R$ 27,5 milhões em água mineral – num país sem saneamento básico e água potável para todos; R$ 2,5 milhões em vinho – num país com 25% da população na linha da pobreza; e, para adoçar a vida, R$ 15,6 milhões em leite condensado – num país que amarga em recessão e fugas de investimentos, a capacidade comum de entender a ligação entre realidade e ficção entra em colapso (Veja a lista completa das compras aqui).

De um lado, porque os brasileiros ouvem a todo momento que não há recursos para isso e para aquilo; que é preciso enxugar a máquina, cortar despesas, economizar etc. Aliás, dias desses o presidente disse que o Brasil estava quebrado. De outro lado, porque o aumento em 20% nas compras de “alimentos”, pelo governo federal, comparando-se 2019 com 2020, perfazendo-se num aumento de R$ 1,8 bilhão, não é coerente com a diminuição do orçamento dos brasileiros, seguido do aumento gigantesco no preço dos alimentos, dos combustíveis, do índice de reajuste dos aluguéis e do desemprego que leva milhares à fome.

É fato que o Governo Federal sempre foi comprometido com uma vasta cesta alimentar visando a manutenção de sua estrutura: das forças armadas aos ministérios. Dadas as circunstâncias, porém, qualquer sobriedade e parcimônia seriam mais que bem-vindas, seriam sinais de compromisso com o que se exige de todo nós: apertar o cinto, economizar, priorizar o necessário. Em tempo: não responsabilizem os restaurantes universitários por isso, como já querem os míticos, muitos são terceirizados; nenhum serve goma de mascar, vinho, alfafa, água mineral, bombons e leite condensado.

Mas num país em que somos assombrados por um descaso condensado com o que é necessário e com a integridade da vida, como se vê no caso da pandemia,  o leite condensado é apenas um sintoma superficial numa política também feita com muitos brigadeiros: cortes orçamentários que valem para Chico não valem para Francisco, parafraseando o ditado popular.

Ao cabo, o que temos no Brasil atual é a seguinte situação. Há instâncias políticas retribuidoras de benesses de índole sorrateira e conveniente ao que se quiser. Tanto é, que publicizados os gastos do governo com alimentação, o site do Transparência Brasil saiu do ar – mistério das coincidências? Na outra ponta, porém, há instâncias distribuidoras de cortes econômicos sistemáticos, de sufocamentos orçamentárias, de queima de reserva financeira, de abertura de porteiras para boiada passar, de cinismos ameaçadores: por exemplo, para se manter o auxílio emergencial, haver-se-ia de cortar recursos da saúde, como propalou a pasta da economia.

Seja como for, tudo estava dito; tudo estava assinalado: o projeto nacional progressista, inclusivo e democrático foi interrompido por poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma mídia facciosa. Ao cabo, a nossa dignidade não está valendo sequer o preço de uma lata de leite condensado, claro está, ao preço do supermercado, pois ao preço que o governo federal pagou, por lata, seriam absurdos R$ 162,00, isto é, 14, 7% do salário mínimo.

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