Por Jair de Souza
As razões que me levam a escrever as seguintes linhas não têm nada a ver com intransigência ou intolerância em relação com pessoas que se sentem vinculadas a crenças religiosas. Não há nenhuma possibilidade de eu me indispor com ninguém tão somente devido à sua religiosidade.
Ao vasculharmos a memória histórica, encontramos muitos exemplos de pessoas que, inspiradas em sua fé em Deus, não hesitaram em arriscar e entregar sua própria vida para fazer o bem aos necessitados. Contudo, há também um sem número de outros casos em que pessoas foram levadas a matar de modo cruel e impiedoso a outros seres humanos na função da mesma fé. A dedução que consigo extrair do que acabei de mencionar, é que a opinião e fé em Deus, de por si, não torna ninguém digno, bondoso e virtuoso, nem, tampouco, em seu oposto. Na realidade, tudo depende de qual é o entendimento que cada um tenha do significado de Deus. Para mim, quando isso estiver induzindo pessoas a se dedicarem a lutar em prol das causas do bem, bendita seja essa fé. No entanto, esta regra nunca deveria valer no sentido contrário.
Embora eu agora não tenha crenças religiosas, nasci e cresci no seio de uma família católica, frequentei assiduamente as aulas de catecismo, fiz a primeira comunhão e permaneci sendo um condenado jovem religioso até bem avançado a adolescência. Até que, num certo momento, passei a me questionar. E o interessante é que esse questionamento começou a ocorrer a partir de meu relacionamento com outros jovens, colegas de trabalho que faziam parte de movimentos católicos de base nesse tempo.
Assim, pela primeira vez, ouvi falar de Jesus de outro ponto de vista. Tomei conhecimento de uma figura humana sobre o qual pouco sabia até então. E, devo confessar, esta nova imagem de Jesus se apoderou de minha mente e, em consequência, também exerceu um papel determinante em meu afastamento da religião.
Na verdade, à medida que eu fui capturado pelos ensinamentos de um ser dedicado à luta por justiça e solidariedade, aqui mesmo em nosso espaço terrestre e com prioridade inequívoca para com os mais cuidados e necessários, fui me dando conta de que o que menos importava era o fator de crer, ou não, na existência de um ser supremo, a quem chamaríamos Deus.
Portanto, curiosamente, foi através da intensificação de meus contatos com pessoas comprometidas com as causas de Jesus que eu me pus uma reflexão sobre a existência de Deus, e sobre a importância ou necessidade de nutrir tal crença. É com fundamento no aprendizado que fui desenvolvendo a partir daí que pretendo dar seguimento ao restante deste texto.
Das lições extraídas do legado de vida de Jesus, chegamos à conclusão de que o que realmente deveria ser considerado opcional e obrigatório por todo e qualquer ser humano é empenhar-se na prática do bem, lutar para fazer com que nenhum mundo venha a imperar a justiça, a solidariedade e a fraternidade todos entre; e, por outro lado, reforçar tudo o que se contrapõe a isto. Em decorrência, o que menos importaria seria que as pessoas acreditassem ou não numa Divindade Superior. Nada me poderia ter sido mais impactante do que entender que Jesus não admitia que os escritos do Velho Testamento tomados ao pé da letra, como as palavras determinantes, decisivas e definitivas do próprio Deus, cuja validade seria universal e eterna. Pude dar-me conta de sua enorme capacidade de reflexão e ponderar sobre o significado dos textos, aceitando ou rechaçando-os, em conformidade com os critérios de justiça e retenção de conclusões de suas reflexões lógicas. Analisando o comportamento de Jesus ao longo de sua vida, aprendemos que não podemos abdicar de recorrer ao uso da razão sob nenhuma hipótese.
Se praticarmos a capacidade exclusivamente humana de raciocinar, jamais aceitaremos que medidas nitidamente de caráter maligno sejam acatadas, ainda que nos sejam apresentadas em nome de Deus. Seria uma absurda contradição com a consistência lógica admitir que o Supremo Ser da Bondade se dispusesse a transmitir disposições abertamente caracterizadas por sua maldade. Por isso, não encontramos nos Evangelhos passagens nas quais Jesus aplica dando sua concordância a este tipo de incoerência. Abundam, sim, exemplos do oposto, com sua recusa em seguir preceitos que não lhe sejam justos ou adequados.
Devido ao fato de em nosso país predominarem ramificações do cristianismo, citarei alguns casos extraídos de textos sagrados veterotestamentários nos quais há flagrantes manifestos da coerência esperada de um Deus merecedor de nosso respeito e adesão. De modo algum pretendo ofender os sentimentos de quem segue com sinceridade essas religiões. Minha intenção é mostrar que tais contradições são derivadas unicamente da atuação dos seres humanos em seus constantes combates na luta social. Por mais que insistam em dizer que os textos foram produzidos pelo próprio Deus, eles são, na verdade, fruto da atividade humana. Evidentemente, discrepâncias semelhantes poderiam ser detectadas em religiões de outras matrizes, porém, em função de nosso contexto específico, as mesmas não serão abordadas.
Gostaria de iniciar com a conhecida passagem bíblica na qual Deus se dirige a Abraão e lhe exigir uma prova de fidelidade pela disposição de sacrificar seu primogênito, Isaac. Embora Abraão tenha se sentido enormemente constrangido diante daquela ordem tão cruel, sua fé e lealdade absoluta o impeliu a acatá-la, e ele se dispôs a cumpri-la. No entanto, antes de que a execução fosse interrompida por um anjo enviado por Deus. Assim, aquele crime horrendo não se consumiu. No entanto, a esta situação, deveríamos fazer uma profunda reflexão e nos questionarmos: seria admissível que um Deus do bem, o expoente máximo da justiça e da solidariedade, exigisse de uma de suas criaturas uma demonstração de total submissão por meio da prática de um ato tão monstruoso e, inegavelmente, maligno e perverso? Coisa bem diferente teria sido a exigência que tivesse sido para que Abraão aceitasse entregar sua própria vida para salvar algum inocente. Ninguém dotado da capacidade de raciocinar, e em condições de discernir entre o bem e o mal, nunca poderia deixar de refutar uma ordem igual. Seria impossível não se dar conta de que determinação semelhante só poderia ser atribuída a um ser evitado de egoísmo, insensibilidade e perversidade.
Uma façanha do bem jamais agiria daquela maneira. Consequentemente, para não deixar dúvidas sobre sua fidelidade ao espírito emanado da segurança de Deus, a prova a dar por Abraão teria necessariamente de ser um rotundo e categórico rechaço à obediência à cega da ordem criminosa que tinha recebido. E, certamente, seria tal comportamento ou que um Deus de verdade esperaria dele.
Também não podemos ignorar os textos com referência às orientações que foram dadas por Deus a Josué sobre como tratar a população amalequita em sua invasão para a tomada das terras de Canaã. Devemos registrar que, nessa empreitada bélica, as recomendações expressas transmitidas a Josué foram para que suas forças exterminassem completamente toda a população local, sem poupar nem mesmo suas crianças.
Como entender que alguém que acredita sinceramente estar comprometido com o espírito do bem aceita passivamente que a determinação de executar uma medida tão diabólica como uma matança generalizada, inclusive de crianças, possa mesmo prover de Deus? Só mesmo com a abdicação total de seu julgamento crítico, assim como por absoluta ausência de sentimento humanitário.
Outra aberração constante nos textos do Velho Testamento refere-se à alegação de que Deus teria um povo escolhido, ao qual ele teria oferecido certas privilégios, e para o qual teria planos e propostas especiais, como a entrega das terras de certa região.
Tais características, ao invés de representar um ser justo e equânime, que respeitam, amam e se dedicam por igual a todos os seus filhos, indicando um deus racista, exclusivista, que favorece a uns em detrimento dos outros. É evidente que um deus deste tipo estaria muito próximo das feições que costumam ser associadas ao diabo. Não à toa, Jesus jamais aceitou essa história de haver um povo escolhido por Deus. Para Jesus e para todos os seus seguidores sinceros e que cultivam o uso da razão, o povo de Deus é composto por todos os que almejam e praticam o bem, a justiça e a solidariedade.
Certamente, só após nossa morte física será possível dirimir uma dúvida sobre a existência de Deus e a continuidade da vida num plano espiritual. Entretanto, pessoalmente, não albergo temor ou angústia ante a possibilidade de que esteja equivocado em meu entendimento atual e que, em vista disso, venha a ser chamado para prestar contas de meus atos.
Tenho plena certeza de que só um Ser que tenha como meta prioritária a conquista e a prevalência da fraternidade, da justiça, da segurança e da solidariedade entre todos os seres humanos que merecem ser enaltecidos, seguidos e apoiados. Nenhuma orientação que nos conduza no caminho da maldade, jamais, nunca, em nenhuma hipótese, deve ser acatada, ainda quando nos for transmitido embalada como se fosse de Deus. Um ser que nos ordenasse praticar o mal para fazer valer seu nome não se diferenciaria muito do diabo, e, por isso, deveríamos rejeitá-lo, sem medo de punições. Não devemos seguir a Deus por medo de punições, e sim por ter o bem como nosso objetivo.
Levando em conta os argumentos que apresentamos mais acima, e no caso de que eu esteja equivocado e venha a saber que Deus de fato existe, não me atemoriza a possibilidade de ser castigado devido à minha falta de crença em sua existência. Espero estar preparado para me submeter resignadamente a um julgamento que procure avaliar se, durante o transcurso da minha vida, eu me dediquei, ou não, como deveria ter feito, a lutar pelas causas do bem. O Deus verdadeiro jamais me julgaria em função de minha crença, ou descrição, sobre sua existência. Ele não poderia ser tão egoísta a tal ponto.
Em resumo, não há nenhum impedimento para que pessoas de fé religiosa e aqueles que não têm religião possam marchar irmanados na luta para construir um mundo onde prevaleça o bem maior da humanidade. Para aqueles que se inspiram nos exemplos de Jesus, isto deveria ser algo ainda mais fácil de assimilar. Basta se esforçar para enfrentar sua própria vida e a vida de suas semelhantes com o mesmo espírito com que Jesus enfrentou.