Pedro Augusto Pinho*
Nas décadas de 1970 e 1980, o mundo sofreu tal transformação que estancou o processo industrial, inclusivo, econômico e socialmente promissor, que se desenvolvia sob diferentes ideologias desde o final da II Grande Guerra, e acatou o poder financeiro, que, sob todos aspectos, retrocedeu a sociedade às relações do início do século XX, quiçá às do século XIX.
Explicitemos. Após a I Revolução Industrial (1760-1840), realizada substituindo o carvão vegetal pelo carvão mineral, o mundo das propriedades territoriais foi substituído pelo das propriedades financeiras. Mas não ocorreu assim em todos países. Os Estados Unidos da América (EUA) descobriram petróleo, na Pensilvânia, em 27 de agosto de 1859, utilizando a técnica de perfuração de poços, para atingir os reservatórios de óleo e de gás. E o petróleo era muito mais eficaz como produtor de energia e muito mais econômico na relação com a mesma quantidade de energia de outra origem.
Surge assim a II Revolução Industrial que promove rápido desenvolvimento nas nações que tivessem controle sobre reservatórios de petróleo. Esta Revolução atravessou as duas grandes guerras (1914-1918 e 1939-1945) e deixou a liderança do processo civilizatório nas mãos dos EUA e da recente União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS – 1924), onde o petróleo fora descoberto, em 1846, no Azerbaijão.
Mas o fim da II Grande Guerra trouxe não apenas novo processo de obtenção de energia, o nuclear ou da fissão do átomo, como as tecnologias comunicacionais que se desenvolviam desde a década de 1920.
Estes avanços se deram na construção de máquinas de calcular/processar/arquivar e nas teorias matemáticas e lógicas.
Em breve resumo pode-se iniciar com John von Neumann e a ponte entre hardware e software (1933), as máquinas de Alan Turing de processamento digital (1945), a Teoria Matemática da Comunicação, devida a Claude Shannon, no mesmo ano em que Norbert Wiener publica “Cibernética”, 1948. Em seguida Kurt Gödel desenvolve a Teoria da Incompletude (1949) e Ludwig von Bertalanffy a “Teoria de Sistemas Gerais” (1950). Estava o mundo pronto para uma III Revolução, não apenas industrial mas, sobretudo, das mensagens, sob o aspecto da materialidade e da virtualidade e das manipulações cognitivas e emocionais, as mais diversas.
Portanto, o mundo que saia da II Grande Guerra oferecia um combustível aparentemente abundante para mover as máquinas e novo modo, em princípio sem dono, para a comunicação humana.
Obviamente os detentores do capital não viram esta democratização com bons olhos e trataram de dominar estas ameaças.
As “crises do petróleo”, na década de 1970, apenas procuraram tirar a excepcional qualidade/quantidade de energia colocada para as máquinas sejam nas fábricas, nos transportes e nas produções agrícolas e nos produtos para os quais o próprio petróleo era insumo, como na produção de fertilizantes, plásticos e farmacêuticos. Não havia crise alguma, a quantidade de petróleo já descoberta garantiria o suprimento por mais um século e as tecnologias então já existentes permitiam abrir novas frentes na procura de mais reservatórios e aumentar a recuperação daqueles em produção.
A transição energética é uma falácia, não só por fornecer uma energia intermitente e não armazenável, como pelo muito maior custo se comparado com a mesma quantidade de energia do petróleo
Quanto à comunicação tratava-se do controlar os meios, que Marshall McLuhan (1911-1980), professor canadense, quase trinta anos antes de a internet ser inventada, já afirmava que “o meio era a mensagem” e que o mundo da informação nos colocaria numa “aldeia global”.
A foto da posse de Donald Trump, cercado pelos donos e/ou administradores das principais empresas e plataformas de comunicação, Meta (Mark Zuckerberg), Space X (Elon Musk), Amazon (Jeff Bezos), Oracle (Larry Ellison), Microsoft (Bill Gates), NVidia (Jensen Huang), Alphabet (Larry Page, Sergey Brin, Sundar Pichai), Bloomberg (Michael Bloomberg), entre outros, demonstra onde está o poder nos EUA de hoje, além dos gestores de ativos: Larry Fink (BlackRock), Ken Griffin (Citadel), David Tepper (Appaloosa Management), Warren Buffett (Berkshire Hathaway), Salim Ramji (Vanguard), Abigail Johnson (Fidelity), Ronald O’Hanley (State Street), Jamie Dimon (JPMorgan Chase) etc.
MEIO SÉCULO DE RETROCESSO
Considerando que o empoderamento das finanças se dá com a desregulação financeira, na década de 1980, tendo início no Reino Unido, com Margaret Thatcher, e nos EUA, com Ronald Reagan, espalhando-se então pelo mundo, e fazendo do dinheiro monetizado, virtual, ou de bitcoins do(s) misterioso(s) Satoshi Nakamoto, sem qualquer preocupação com existência de lastro, pode-se não somente constatar a multiplicidade de “paraísos fiscais”, como o domínio das farsas e da corrupção.
Este é o pilar do que se vê nesta segunda década do mundo ocidental.
Nenhuma garantia para qualquer papel, mesmo moedas que se utilizam amplamente fora do país de origem, como o dólar estadunidense, o que se dirá daquela que precisa harmonizar interesses divergentes, como o euro da União Europeia (faz-se paz ou se acirra a guerra da Ucrânia contra Rússia?).
E, nesta absoluta falta de sentido, vê-se, num dos grandes bancos brasileiros, o caixa, cumprindo ordens superiores, recusar que o cliente depositasse, na sua própria conta, mais de dois mil reais?!
Estamos todos perdidos? As finanças inviabilizaram o mundo civilizado pelo mundo do lucro, independentemente do modo com que se o conseguir.
Nem tanto. Nos primórdios da Idade Média, quando Roma se decompunha em diversos feudos, e o mundo ocidental euroafroislâmico se transformava em verdadeiro salve-se quem puder, um país, cercado por muralhas, lá no leste da Ásia, desenvolvia e oferecia aos comerciantes das cidades italianas que lá chegavam o conhecimento que salvaria a Europa: a bússola, a pólvora, o papel e a impressão com tipos móveis, além da seda, do carrinho de mão e do guarda-chuva. A China salvou o mundo Europeu, porém aguçou-lhe a cobiça.
A Europa descobriu a América e lá promoveu a maior pilhagem e o genocídio que inviabilizou as civilizações diferentes que se construíam: astecas, maias, incas, tupis e guaranis, em diferentes estágios civilizatórios, uns mais e outros menos avançados do que os europeus.
E a China? Foi também vítima da ganância e falta de humanidade dos europeus, chegando a lhe fazer sofrer o que é registrado como “século das humilhações” (século XIX) até a proclamação da República (1912).
Hoje, em 2025, a China volta a ser a salvação da humanidade, com diferente institucionalização, mais democrática e eficaz do que a “democracia eleitoral ocidental” e com uma proposta de relacionamento que coloca os parceiros com idênticos poderes, respeito às soberanias, o Memorando de Entendimento que é designado Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR), celebrado por 149 países e que nada têm em comum com a milenar Rota da Seda (130 a.C. – 1453 d.C.).
A China procura, nas palavras de seu dirigente Xi Jin Ping, ser o melhor lugar para o chinês viver. E para isso, num país de grandes diversidades geográficas, temperaturas, solos, disponibilidade de água nos 9.596.961 km² de seu território, abrigando a população (2024) de 1.416 milhões de pessoas, sem moradores de rua nem analfabetos, com o melhor sistema do mundo na mobilidade urbana e entre as cidades e nestas a habitação e saneamento urbano. Parece até milagre, e, de certa forma o é, porém fruto da Instrução, como propunha Mestre Kong, Kong Fu Zi (558 a.C.-489 a. C.), Confúcio como ocidentalizaram os missionários jesuítas.
Pelos anos 2017, a imprensa ocidental, sempre ávida em desconstruir o desenvolvimento chinês, apontou para mudança de objetivos do Governo, a falência dos investimentos na construção civil. A China estava se precavendo do que ocorre no Brasil, a migração para as grandes cidades, especialmente as costeiras. A China estava construindo novas cidades para evitar a superpolução metropolitana e possibilitando a todos a moradia confortável com transporte garantido. Muitas cidades surgiram, aumentando a taxa de urbanização sem sobrecarregar a já populosa região sudeste (Guangdong, Shandong, Jiangsu), nem mantendo o noroeste (Xinjiang, Tibete, Qinghai, Mongólia Interior) escassamente povoado.
Hoje o Governo qualifica as cidades, de acordo com os níveis de desenvolvimento tecnológico, oferta de trabalho e disponibilidade de mão de obra em vários níveis de capacitação, para administrar os fluxos internos da população. Ainda persiste, em muito menor ritmo, a construção de cidades e locais para fluxos de transporte, também vem descentralizando a pesquisa tecnológica, de modo a se obter uma possível igualdade de vida por todo território. Ou seja, fazer efetivamente um país ótimo para se viver.
O idioma chinês é o mandarim, cuja escrita é ensinada a todos. No entanto, o modo de pronunciar, a inflexão, frequência e altura dos sons são variáveis, muitas vezes impossibilitando, mesmo entre os de pronúncia cantonesa, se entenderem. O Governo não dá prioridade a “um país uma língua”, mas obriga a todos escreverem em mandarim.
Para 2026, a expectativa dos analistas estadunidenses, do Fundo Monetário Internacional (FMI), da Academia Russa de Ciência, e de jornalistas internacionais de economia e finança, é que a China tenha a maior taxa de crescimento, duas vezes superior à dos EUA, mais de três vezes nos países da União Europeia, onde além dos déficits orçamentários, enfrentarão problemas energéticos.
Da parte da China, seu objetivo é prosseguir nos investimentos em tecnologias de ponta, em especial, nas áreas da saúde, da inteligência artificial e da conquista espacial. Nenhuma reação às provocações bélicas, como os EUA e o Japão ameaçam. Um mundo bom de viver.
E o Brasil? Prosseguirá se submetendo aos colonizadores? Mantendo as privatizações, as altas taxas de juros, acordos como celebrados para a COP30? Ou, finalmente, ouvirá o clamor das ruas: não queremos esmolas de bolsas disto ou daquilo, queremos a dignidade do trabalho, bem remunerado e dos direitos assistenciais, previdenciários e do SUS com todos recursos para funcionar por todo País.
*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, membro do Conselho Editorial do Pátria Latina.