Foto: Divulgação/REUTERS
Por: Wagner França
A imagem que emerge da imprensa internacional nas últimas semanas é a de um país sitiado. Cuba enfrenta apagões, falta de combustível e ameaças constantes de intervenção militar. Mas o que os grandes meios de comunicação muitas vezes omitem é a natureza criminosa dessa agressão: não se trata de um “colapso natural” ou de “fracasso do governo cubano”, mas sim de um cerco deliberado, cruel e ilegal imposto pelos Estados Unidos.
O governo Trump, numa escalada fascista, declarou em 29 de janeiro uma falsa “emergência nacional” para justificar o bloqueio total de petróleo à ilha. Sob o argumento absurdo de que Cuba representa uma “ameaça inusual e extraordinária” para a segurança americana — quando a realidade é exatamente a inversa — Washington decidiu asfixiar economicamente um povo inteiro. O objetivo é claro: provocar sofrimento generalizado para forçar uma rendição política.
O que Cuba vive hoje não é uma crise qualquer. É um cerco energético com consequências humanitárias gravíssimas. O ministro da Saúde cubano, José Ángel Portal Miranda, alertou que o sistema de saúde universal e gratuito do país está à beira do colapso. Cinco milhões de pessoas com doenças crônicas enfrentam escassez de medicamentos. Dezesseis mil doentes oncológicos podem ter seus tratamentos de radioterapia interrompidos. Mais de 12 mil pacientes em quimioterapia correm risco de suspensão dos cuidados.
Serviços de cardiologia, ortopedia, tratamento intensivo, diálise e ambulâncias estão comprometidos pela falta de combustível. O transporte público foi reduzido drasticamente, a produção e distribuição de alimentos está paralisada, e até o acesso à água potável foi afetado — mais de 80% do equipamento de bombeamento depende de eletricidade.
Esta é a face do terrorismo econômico: transformar hospitais em campos de sofrimento, transformar a vida cotidiana num calvário, tudo para dobrar um povo que ousa resistir.
Diferentemente da versão propagada pelos meios hegemônicos, o mundo não está calado diante dessa barbárie. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, denunciou explicitamente a escalada agressiva dos EUA, afirmando que “nada pode justificar a asfixia de toda uma população”. Especialistas independentes da ONU condenaram a ordem executiva de Trump, classificando-a como uma “grave violação do direito internacional” que carece de qualquer autorização do Conselho de Segurança.
Até mesmo dentro dos Estados Unidos, a população rejeita essa política criminosa. Uma pesquisa YouGov revelou que 40% dos americanos desaprovam o bloqueio contra Cuba, contra apenas 32% de aprovação. 61% dos cidadãos estadunidenses rejeitam o uso da força militar contra a ilha, e 46% desaprovam o bloqueio de petróleo imposto por seu próprio governo.
Como bem afirmou o chanceler cubano Bruno Rodríguez, se o governo dos EUA “escutasse realmente a vontade da maioria de sua população, e não de uma minoria repleta de ódio e ansias belicistas, poria fim a sua política criminal contra o povo cubano”.
Enquanto o governo Trump ameaça, o mundo solidário responde. O Convoy Nuestra América, impulsionado pela Internacional Progresista e por vozes como a de Greta Thunberg, Jeremy Corbyn e Pablo Iglesias, já entregou toneladas de alimentos, medicamentos e painéis solares a Cuba. Manolo de los Santos, um dos coordenadores da iniciativa, expressou o que milhões pensam: “Não queremos acordar uma manhã e ver que estão caindo bombas sobre Havana”.
A administração Trump fala em “liberdade” e “democracia” enquanto impõe o que a Radio Habana Cuba denunciou como um precedente perigoso: “se amanhã qualquer outro país do Sul poderá ser alvo da insensatez”. A estratégia é explícita: asfixiar Cuba para provocar instabilidade social e, então, justificar uma intervenção militar que Trump já chamou de “tomada amigável”.
O próprio presidente americano insinuou que poderia ter o “honor de tomar Cuba”, demonstrando abertamente o caráter colonial e neocolonial de sua política. O secretário de Estado, Marco Rubio, herdeiro da máfia cubano-americana que sempre sonhou em recuperar a ilha, declarou que o governo cubano precisa “mudar drasticamente”.
Apesar do cerco, Cuba não se curva. O governo de Miguel Díaz-Canel mantém-se firme, denunciando a “natureza fascista, criminal e genocida” da política americana. As forças armadas cubanas se preparam para qualquer eventualidade, porque seria ingênuo não contemplar o pior cenário após a queda de Maduro na Venezuela e os ataques ao Irã.
Mas Cuba também aposta no diálogo, nas conversas com Washington que o próprio Trump admitiu manter. A diferença é que, para Cuba, o diálogo deve respeitar a soberania e a dignidade do povo cubano — valores que o imperialismo desconhece.
Apoiar Cuba hoje é defender o direito dos povos à autodeterminação. É dizer não à lógica da força, ao bloqueio criminoso, às intervenções militares. É lembrar que, como denunciou Volker Türk, “os objetivos políticos não podem justificar ações que, em si mesmas, violam os direitos humanos de milhões de pessoas”.
Cuba resiste porque sua revolução não foi feita para render-se. A ilha enfrentou o Período Especial nos anos 1990, enfrentou dezenas de atentados terroristas, enfrentou décadas de bloqueio — e sobreviveu. Sobreviverá também a esta ofensiva trumpista, porque a solidariedade internacional é sua força e a justiça de sua causa é inquestionável.
Enquanto houver um só cubano disposto a defender sua pátria, enquanto houver no mundo um só movimento de solidariedade, o sonho imperialista de “tomar Cuba” continuará sendo exatamente isso: um sonho autoritário que não se realizará.
Cuba não está sozinha. A revolução vive. A resistência continua.