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segunda-feira, 25 maio 2026

Cowboys do Cerrado: investigamos o balcão de negócios da crise climática

Felipe Sabrina* e Alice de Souza*

Intercept Brasil

Tem um lugr no Brasil que é quase um quintal dos Estados Unidos. Lá, políticos e empresários amam tudo que vem da gringa. E a coisa é bem pior do que ter uma estátua da liberdade da Havan na entrada da cidade. Para ter uma noção, lá tem um monumento inspirado em um prêmio estadunidense para “personalidades do setor agrícola”.

A gente está falando de coisa séria: tipo abraçar um norte-americano que é odiado pela direita e pela esquerda lá em sua terra natal! Sim, tem uma pessoa que conseguiu essa proeza. O nome do cara é Bruce Rastetter, e o lugar é Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso.

Bruce chegou a Lucas há pouco mais de uma década, fazendo aquilo que muito estrangeiro faz desde 1500, procurar e ocupar terras brasileiras. E a gente chegou até ele por causa da brilhante jornalista Amy Westervelt. No seu podcast, o Drilled, Amy adora desmascarar milionários e bilionários vendendo ideias que parecem solução, mas quem olha de perto vê que se trata de mais problema.

E ela trouxe uma questão pra gente: o que diabos fez de Bruce um cara tão amado e bem sucedido no Brasil?

É isso o que a gente vem investigando há um ano. E o que estamos revelando no podcast Cowboys do Cerrado.

SPOILER: aqui, até agora, todo mundo ama o Bruce! Se liga na contradição.

Os rastros de um suposto case de sucesso

Para entender o que trouxe Bruce ao Brasil e como ele se transformou num cara que dá até nome a ala de maternidade em hospital brasileiro, mergulhamos fundo nos rastros deixados por ele, seus sócios (e fãs!) desde 2016.

Fizemos cerca de 65 pedidos de acesso à informação para mais de 15 órgãos dos governos federal e estaduais, lemos milhares de páginas de documentos, entre processos judiciais, estudos técnicos, pesquisas acadêmicas, contratos, registros de cartório, relatórios financeiros e apresentações. Garimpamos notícias antigas e vasculhamos redes sociais.

Entrevistamos mais de 40 fontes só no Brasil, entre representantes do poder público, empresários, pesquisadores, agricultores, moradores dos locais que visitamos, cientistas, um mundo de gente que ajudou a montar um quebra-cabeça complexo.

Por duas vezes, uma em maio e outra em agosto de 2025, eu, Felipe Sabrina, fui atrás de documentos que só podiam ser encontrados no cartório da cidade de Tartarugalzinho, no Amapá, a quase três mil quilômetros da minha casa. Também fui duas vezes a Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. E enfrentei até uma tempestade de vento e areia assustadora.

Reconstruímos os passos de Bruce pelo Mato Grosso e Amapá para juntar com outra parte desse quebra-cabeça, apurado por Amy e sua equipe de repórteres lá nos estados norte-americanos de Iowa e Dakotas do Norte e do Sul. Lá, onde quase todo mundo odeia o Bruce.

Se tem duas certezas que a gente pode te dizer é que encontramos muito caroço nesse angu e que fazer esse tipo de projeto investigativo exige paciência, método e persistência. E a mão de muita gente. Além de Amy Westervelt, estiveram diretamente com a gente nossos produtores de áudio Márcia Reverdosa, Felipe Mux, Martin Zaltz Austwick e Peter Duff. E a editora Audrey Quinn. A gente também teve música tema e música original de Eric Terena.

Fã ou hater?

O que a gente encontrou te contamos em uma série de podcast investigativo, bilíngue, em inglês e português, com seis episódios. Em inglês, se chama Carbon Cowboys. Aqui no Brasil, Cowboys do Cerrado. O conteúdo está disponível nas principais plataformas de áudio, e tem episódio novo nesta terça-feira (26/05).

Na semana passada, a gente já mostrou o que fez Bruce ser tão odiado nos Estados Unidos. O cara nem precisava ter se esforçado tanto, ele é apoiador e doador de campanha de Donald Trump, mas ele foi longe, beeeeem longe! Também te convidamos a ouvir.

E aí, como no país dele não deu certo, ele resolveu repetir o método no Brasil, pegando carona no viralatismo de parte do agronegócio brasileiro, na euforia do país para ser “a nova Arábia Saudita” e na vocação das nossas elites para entregar nossos recursos de bandeja a quem preciso for em nome do poder.

Nesta semana, a gente vai te contar quem são os sócios brasileiros de Bruce e um pouco sobre o passado e o presente nada sustentável deles. Também vamos te contar quais são as ideias controversas que Bruce e seus sócios vendem e como o governo brasileiro está caindo nesse canto da sereia.

Outro spoiler: quem tá financiando tudo isso é o seu, o nosso bolso!

Inclusive, se tiver mais denúncias sobre os nomes citados nos próximos episódios, manda pra gente!

*Felipe Sabrina é jornalista e escreve sobre direitos humanos, acesso à terra e ao território.

*Alice de Souza

Jornalista recifense, especialista em Direitos Humanos e mestra em Indústrias Criativas, pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), e em Jornalismo Internacional, pela City, University of London. Atualmente, é coordenadora regional da Open Climate Reporting Initiative, do Centre for Investigative Journalism. Integra a Rede Latam de Jovens Jornalistas Distintas Latitudes e foi fellow Cosecha Roja, Salud Con Lupa, Climate Tracker e International Women’s Media Foundation (IWMF). Eleita a repórter mais premiada do Nordeste por três vezes, segundo o ranking da revista Jornalistas e Cia, tem passagens pelo Diario de Pernambuco, Jornal do Commercio, Abraji e Deutsche Welle Brasil. Vencedora de prêmios como o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, One World Media, Cristina Tavares e outros. É também Jornalista Amiga da Criança, pela Andi Comunicação e Direitos.

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