Emiliano José
Primeira vez, numa celebração de aniversário, a fazer uma espécie de revisitação, precária seja, das amigas e amigos presentes.
Sei: será imperfeita.
Sei: haverá ausências, esquecimentos.
Tenho dito: corro os riscos.
São parte da vida, sempre.
Penso nos agrupamentos.
Não apenas em cada um, individualmente.
Falei no pessoal da Galeria F, aqueles a dividir prisão comigo, ou a cumprir pena no mesmo lugar, embora não simultaneamente à minha estadia por lá, e lembro de Arno Brichta, a chegar à Penitenciária Lemos Brito após a minha saída em 1974. Ou Paulino Vieira, também chegado após eu ganhar a liberdade.
Na celebração, presença de uma parcela do velho PCB – não sei se lembro de todos.
Vá lá: Marco Antônio Rocha Medeiros, Carlos Marighella, Elísio Santana, George Gurgel e Paulo Miguez, atingidos, de uma forma ou de outra, pela ofensiva brutal da repressão contra o PCB em meados de 1970 em todo o País.
Somente na Bahia duas ou três centenas de pessoas foram presas ou indiciadas, 48 delas levadas para a Fazendinha, centro de tortura improvisado em Alagoinhas, onde estiveram atuando, julho de 1975, Carlos Alberto Brilhante Ustra e Sérgio Paranhos Fleury, dois dos mais perversos e cruéis torturadores e assassinos da ditadura.
Presente, também, na celebração, Amabília Almeida, educadora e militante sobre quem já falei, já na casa dos 90 anos, plena de lucidez, e lembro porque, além de valorizar a própria experiência dela, companheira de Luís Contreiras, dirigente do PCB por décadas, e um dos levados para a Fazendinha, onde sofreu o pão que o diabo amassou. Ele já partiu para o reino dos encantados, e dele jamais esqueceremos pelo exemplo de valoroso comunista.
Ainda sobre antigos militantes do PCB, lembrar a presença do querido Zulu Araújo, intelectual, professor da Universidade Federal da Bahia, militante da causa negra, e com quem tenho dividido textos e preocupações em torno principalmente da questão racial, e se repito algo já dito, não faz mal: o que abunda não prejudica.
Bisa Almeida, filha de Amabília, tão querida, talvez possa no mínimo ser arrolada como parte do campo hegemonizado pelo PCB.
Filha de peixe, peixinho é, Maria Marighella, filha de Carlinhos Marighella, neta do velho Marighella, militante do PT, dirigente da Funarte, me honrou com a presença dela, e se também já me referi a ela, melhor – merece. Não creio tenha sido militante do PCB, mas esteve sempre hegemonizada por esse campo, especialmente pela influência do pai, há algum tempo ligado ao PSB.
Quem foi do PCB, se não descambou, conserva sempre alguns valores essenciais, como o da democracia e de uma visão ampla da política, e isso sempre contribui para conter ânimos voluntaristas, diminuir o ímpeto dos pensamentos desejosos.
Celebração. Insisto nisso. Não foi comemoração de um aniversário. Momento quase sagrado de encontro, fundado na amizade, com toda a carga do que seja amizade – carinho, fraternidade, solidariedade.
Me senti acolhido por tanta gente, e mais: gostei muito de promover esse encontro, essa cerimônia laica, não obstante, e ainda bem, temperada pela presença de tantos religiosos, de diversas crenças.
Penso na presença das amigas, dos amigos do Tortura Nunca Mais. Presidenta Sirlene Assis, querida Ana Guedes, Márcia, tanta gente amiga, tantas pessoas militantes dos direitos humanos, com quem convivo permanentemente, a quem admiro pela persistência, pela dedicação, grupo do qual participo com muito orgulho.
Poetas, Sarno e Pastori. Os dois, porque loucos, os poetas são loucos, chegaram a me distinguir, em momentos diversos, com a solicitação de prefácio para livros recentes deles, a me honrar, e muito, embora consciente de minhas limitações.
Nenhum dos livros foi lançado ainda. O de Pastori, previsto para março, sob a coordenação da querida Maria Prado.
O de Sarno, só os orixás hão de dar conta, se é que ele fará lançamento.
Poeta é bicho estranho, magos decifradores do mundo, a evidenciar nossa incapacidade de penetrar os segredos da existência.
Tocando em frente, com Almir Sater e Maria Bethânia, seguimos na estrada.
A vida é bonita é bonita é bonita.
#emiliano20268052